Ora viva
No princípio era o silêncio e o silêncio tornou-se no princípio de todas as coisas. Quanto mais vivo, mais gosto do silêncio. Quanto mais gosto do silêncio, mais vivo. Como profissional da comunicação, cabe-me saber perguntar, mas também saber ouvir a resposta. Nunca farei uma boa pergunta, com toda a preparação e concentração que perguntar exige, se não me dedicar à resposta do meu convidado. Para tal tenho de me calar, é simples. Nunca conseguirei fazer uma nova canção se não me calar e ouvir o silêncio, que é o espaço onde existe a criação. Para vos escrever este texto, estou sentado, em silêncio, na companhia de uma luz morna, uma janela aberta, no sossego da casa.
O mundo é falador. Cada vez mais. Há gente que não se cala. Por todas estas contas, gosto de gente calada, não dos sonsos, mas daqueles que se calam para ouvir, ou porque não têm nada a acrescentar. Quem disse que temos de ter sempre opinião? Ou que para se ser sincero tem de ser dizer tudo o que se pensa e não pensar no que se diz, ou se vale a pena dizer?
O silêncio é de ouro, diz quem sabe, e há muitos anos. Eu gosto do admirável mundo do ouvir calado. Experimentem. Vale mesmo a pena!
Abraço
Um sítio onde se encontram palavras que encontraram outros sítios, pessoas e histórias.
quarta-feira, setembro 24, 2014
terça-feira, setembro 16, 2014
O tempo que faz lá fora
Ora viva
O tempo que faz lá fora nunca é o
tempo que faz dentro de mim. Falo de meteorologia. Gosto do tempo todo. A chuva
embala-me o corpo, apetece-me quente. O calor amolece-me a alma, desejo as
árvores e a sua sombra. O vento acorda-me os músculos, espevita-me por dentro.
O nevoeiro adormece-me os sentidos. A trovoada acorda-me os olhos. Gosto da luz
do outono, das manhãs de primavera, das noites de verão, da morrinha do
inverno.
Do frio na pele e chegar a um sítio quente. Gosto
muito da minha vida cá por dentro, e acho que ela fica agradada com qualquer
tempo que faça cá fora. Isto é bom. Nunca estou sentado no constante do mesmo
tempo. O meu corpo, o meu dentro, surpreende-se sempre com cada estado de tempo…e
a monotonia morre entediada. Sempre gostei das coisas de dentro para fora. Parecem-me
sempre mais resolvidas. Neste movimento, quando o meu dentro se confronta com o
tempo cá de fora, a surpresa e o agrado são sempre constantes. Experimentem!
abraço
Hélder
sexta-feira, agosto 29, 2014
Meu querido mês de setembro
Ora viva
Setembro era um mês que eu
adorava. Dias mornos. Molenguice. Vontade de nada. Fins da tarde na praia, a
apetecer uma toalha enrolada no corpo. A areia a suspirar de alívio depois das
enchentes de Verão. Preparar o regresso às aulas, à altura sem esta especulação
de mercado! Enfim…dias serenos do meu querido mês de Setembro.
Bom…agora
setembro parece o mês em que se concretiza tudo aquilo que uns e outros andaram
a preparar entre julho e agosto. Pois é neste mês nove que tomamos conhecimento
de tudo. Muito muda. Muito aumenta. Muito se despede. Muito se contrata. Muito
se espera e desespera. Até parece que os dias apetecem menos com medo do mês em
que todos os ventos se conhecem.
A verdade é que quando eu vivia os suaves dias
de setembro dos tempos idos, a vida não me fazia tanta aflição como me faz
hoje. Crescer tem destas coisas. Emancipa-nos e dá cabo da nossa inocência.
até amanhã
Hélder
domingo, agosto 24, 2014
Viajar e Regressar
Ora Viva
Gosto muito de viajar. É um prazer e um investimento na minha cultura. Não há livro que substitua uma viagem. Considero-me um homem já com algumas grandes viagens feitas. Curiosamente, cada vez que faço uma incursão, já preparo a próxima. Não há nada melhor do que preparar uma viagem enquanto se está a viajar. Parece um movimento contínuo e intrínseco à minha rotina.
O mundo é, efectivamente, muito grande. Já me apercebi que não viverei o suficiente para todas as viagens que quero fazer, vou tentar acreditar que uma nova vida me dará o resto do tempo.
A par de viajar, gosto de regressar a casa. Mas gosto muito. O cheiro das minhas coisas faz-me falta. Em cada objeto estão as pessoas que amo, só elas vão e habitam o meu lar. Sabe-me bem entrar nas minhas paredes, no fim de uma viagem, abrir a porta e ainda com as malas na mão inspirar a minha casa. Encher os pulmões com o ar e a luz do sítio onde vivo, e matar saudades cá por dentro.
Entendo que viajar é tão bom como regessar. Em cada regresso nasce a vontade de uma nova viagem, certamente porque tenho um lugar para onde voltar e que tanto amo, a minha casa!
Até amanhã
Gosto muito de viajar. É um prazer e um investimento na minha cultura. Não há livro que substitua uma viagem. Considero-me um homem já com algumas grandes viagens feitas. Curiosamente, cada vez que faço uma incursão, já preparo a próxima. Não há nada melhor do que preparar uma viagem enquanto se está a viajar. Parece um movimento contínuo e intrínseco à minha rotina.
O mundo é, efectivamente, muito grande. Já me apercebi que não viverei o suficiente para todas as viagens que quero fazer, vou tentar acreditar que uma nova vida me dará o resto do tempo.
A par de viajar, gosto de regressar a casa. Mas gosto muito. O cheiro das minhas coisas faz-me falta. Em cada objeto estão as pessoas que amo, só elas vão e habitam o meu lar. Sabe-me bem entrar nas minhas paredes, no fim de uma viagem, abrir a porta e ainda com as malas na mão inspirar a minha casa. Encher os pulmões com o ar e a luz do sítio onde vivo, e matar saudades cá por dentro.
Entendo que viajar é tão bom como regessar. Em cada regresso nasce a vontade de uma nova viagem, certamente porque tenho um lugar para onde voltar e que tanto amo, a minha casa!
Até amanhã
quinta-feira, julho 17, 2014
JOVENS
Ora viva
Ao longo dos últimos meses tenho
entrevistado jovens. Quero saber o que andam a fazer e o que lhes diz a palavra
futuro. De empregados a desempregados, voluntários a empresários. Todos cabem
nestas minhas duas perguntas. A par das respostas vou conhecendo as suas vidas,
os seus projetos, por vezes avivando-lhes a memória sobre o que queriam ser
quando ainda eram mais jovens. Já entrevistei perto de 40. São inspiradores.
Gente que se faz ao mundo porque a vida não admite que seja ao contrário.
Apesar do desavesso deste sítio onde vivemos e morreremos, encontro uma
juventude esperançosa, otimista nos seus objetivos, adotaram o lema: eu sou o
primeiro a acreditar em mim. Já se emocionaram comigo, já me emocionei com
eles. Só quero saber como estão. Sem pressas. Esta televisão que faço não
contempla a correria. É para ouvir e partilhar com o espectador o sumo destas
conversas. São nutrientes para a alma, pelo menos para a minha tem sido. Temos
um futuro de gente que acredita e está disponível. Tantas vezes isso, isto, é
tudo.
até amanhã
hélder
quarta-feira, julho 09, 2014
Pirilampo?
Ora viva
obrigado a todos os que passam por aqui, e me deixam mensagens tão generosas. Obrigado!! Esta semana vi pirilampos...
obrigado a todos os que passam por aqui, e me deixam mensagens tão generosas. Obrigado!! Esta semana vi pirilampos...
E se a vida fosse como um
pirilampo? Há dias, passeava na praia, com um amigo (nunca passearia na praia
com quem não amo) e desabafávamos problemas que nos inquietavam. Nem sempre a
vida nos dá o que queremos, da forma como queremos. Há dias cheguei a essa
conclusão, nem sempre o retorno é na moeda que queremos (metaforicamente
falando). Bom, dizia eu que passeávamos na praia, inundados pelos nossos
problemas, quando muitos pirilampos invadiram a nossa conversa. A fragilidade
de um ser que, apesar de quase impercetível, é deslumbrantemente luminoso. Era
a resposta que faltava à nossa nuvem de comos e porquês.
A luz é um fenómeno
maravilhoso em dias escuros, seja de uma vela, candeeiro, ou de um grande
pirilampo.
Até breve
Hélder
terça-feira, julho 01, 2014
A vida é...
Ora viva
A vida é para quem dá. Quem gosta
de abraço e sabe perdoar, perder, dar e avançar. A vida é dos que acreditam no
amanhã. Daqueles que não se regozijam com o mal dos outros. A vida é de quem
gosta de água limpa. A vida é dos determinados, dos que constroem e ajudam quem
está destruído. A vida é de quem dá oportunidades, uma, duas ou três. A vida é
dos que voam dentro deles. A vida é um sopro, por isso é de quem gosta de
respirar profundamente. A vida é de quem olha e fica. A vida é de quem sorri
com a esperança e dá esperança a quem precisa de sorrir.
A vida é dos frágeis
que querem ser fortes e dos fortes que ajudam os frágeis. A vida é de quem não
quer saber do que se diz da vida dos outros. A vida é de quem a vive, não de
quem vive a vida do vizinho. A vida é dos altos, mesmo que sejam baixos, veem
além.
A vida é de quem quer ser pássaro mesmo que saiba que nunca será,
persegue o sonho possível, o de ser livre com asas de vento. A vida é assim.
Cheia e vazia. Se está cheia partilha, se está vazia, procura quem a encha e sê
obreiro de ti, nunca ninguém viverá o que só tu podes viver. É assim que vejo a
vida. A minha. A dos que amo.
até breve
Hélder
quarta-feira, junho 25, 2014
Hoje
Ora viva
Hoje vi a D. Maria, nos seus 90
anos, sair de casa e olhar para a praia. Uma necessidade de quem tem uma vida
inteira naquela rua, naquela casa, naquele sítio virado para o mar. Esta
concentrada na sua observação, atenta aos pormenores de uma praia que em pouco
mudou. Estaria a respirar profundamente. Os olhos enchiam-se da serenidade do
fim de tarde.
A vida é mesmo assim. Os sítios que amamos, a casa, a nossa rua,
e enchermo-nos com o que nos faz bem. Num fim do dia, são vários os atentados à
nossa convicta serenidade, precisamos de lutar contra o vazio que nos querem
meter. A nossa vidas será sempre nossa, por muito que nos tentem tirar. À D. Maria ninguém lhe roubou o mar nem a enorme vontade de o ver. Assim nos
inspiremos.
Abraço
terça-feira, junho 10, 2014
O meu frigorífico
Ora Viva
Esta semana avariou-se o
frigorífico. Já vos deve ter acontecido. Imaginam as consequências. Pois eu
fazia uma vaga ideia do transtorno, mas nunca pensei em tanta confusão. Uma
simples avaria mudou toda a minha rotina, e por muito que não goste de rotinas,
há algumas que me sabem bem. Um frigorífico fez o que muitas pessoas tentaram
fazer e não conseguiram: mudar-me hábitos. Tudo por que eu não tinha onde
guardar frescos.
A vida é assim, não um frigorífico, mas uma
roda cheia de itinerâncias que sucedem pelos motivos mais inesperados. E quando
damos por nós, mudamos. Deixamos de fazer como fazíamos, ou já não fazemos de
todo. Mudar por fora, pode resultar em mudar por dentro, ou um movimento
contrário. Mudar, simplesmente.
O meu frigorífico fez-me mudar.
Não sei se as mudanças se vão manter, agora que ele voltou do sítio onde nasce
o frio, mas pensei na mudança, na alteração de padrão, de hábitos. Questionei
porquê assim, e não de outra forma. No fundo fez-me bem a tua ausência, meu
simples frigorífico!
Abraço
terça-feira, maio 27, 2014
Saúde
Ora viva
Os
hospitais ou são lugares de saúde ou de doença. Os hospitais são sítios de avaliação.
Do corpo. Da alma. Ir ao hospital, por motivo do nosso corpo, ou do corpo de
alguém que amamos, é um motivo de constatação simples: sem corpo somos muito
pouco. Traduzido em linguagem mais simples, sem saúde não vamos a lado nenhum.
E no corpo todos somos iguais, fisiologicamente falando. Numa maca de hospital,
não há ricos nem pobres, há pessoas à espera da cura. Simples não é?
Gosto de
terminar as minhas entrevistas desejando saúde ao meu convidado, a quem me vê.
Pensei que não era uma expressão que fosse muito tida em conta, até
repetidamente me dizerem que gostam de me ouvir dar votos de saúde. Em bom da
verdade de que mais precisamos nesta curta vida? Podemos ser muito ricos, ser
muito pobres, com saúde podemos recomeçar, lutar, desistir, mudar, ser melhor,
ou ser pior; mas sem saúde nada feito, sem a dita senhora não vamos a lado
nenhum. O triste é darmos por ela, pela sua infinita importância, quando não a
temos. A maior ambição da minha vida? Ter saúde. O resto, tudo o resto eu
conquisto.
até amanhã
Hélder
terça-feira, maio 06, 2014
O OLHAR
Ora viva
Olho para ti. Para os teus lábios. O teu
peito. Imagino o lugar por onde andam os teus pés. O que trazes nos sacos, que música estás a ouvir, que
livro carregas nas mãos. Gosto de te ver. Não a ti em exclusivo, gosto de ver gente, pessoas que olhem a vida
de modo curioso. Gosto de mãos e olhos, gosto de adivinhar para onde vão, de onde vêm,
o que levam e aquilo que ainda vão levar.
Hoje caíste-me tu na
vista, enquanto fazia a minha
viagem, centrado na minha vida, quando a tua se cruzou com a minha. E
pronto, ficamos ligados por breves minutos, eu mais ligado a ti, que
tu a mim, receio que nem deste por mim. Eu, por outro lado, agarrei-me a ti, bebi a tua serenidade, irreverência
limpa, roupa honesta.
Sem te saber apercebi-me dos teus sonhos e da garra na
gana. Saíste do comboio primeiro que eu, fiquei mais uns minutos a contemplar a tua ausência e o
que em mim ficou de ti, mesmo sem te conhecer, mesmo sem saber o teu nome.
até amanhã
hélder
domingo, abril 13, 2014
Morrer de fome
Ora viva
Morreram de fome 30 mil crianças
na Somália; em 3 meses. Isto é uma merda. Já imaginaram o que é uma criança
morrer porque não tem o que comer? Século XXI. Nem vou falar da morte de
crianças com fome no resto do mundo. Vamos ficar só pela Somália. Li hoje esta
notícia, e umas páginas à frente falava de Portugal como o 6º país mais
envelhecido do mundo.
Anda tudo a navegar na maionese e tudo do avesso. Não
pode ser, e eu como cidadão não posso fazer nada. Num mundo morrem crianças de
fome, noutro mundo não nascem crianças para que não passem fome. O que é que
vocês sentem ou ler estas notícias? E temos de passar ao lado, não há outro
remédio. A gravidade dos dois factos é incomparável, óbvio.
Mas parece que nada
faz sentido. Morrer de fome? Mas o que é que se passa? Lembro-me, há dezenas de
anos, das campanhas contra a fome, e está tudo na mesma. E nós cá andamos, sem
poder fazer nada. E não temos filhos porque o estado social não nos garante o
futuro deles, nem o nosso, às vezes é o que penso. Num mundo e noutro mundo são
estas as notícias; e a realidade é o que os dois mundos fazem parte do mesmo
planeta. E fica tudo na mesma. E vamos dormir e acordar, porque não podemos
fazer nada. Nem por eles, nem por nós.
até amanhã
segunda-feira, abril 07, 2014
AMIZADE
ora viva
A amizade é um namoro. Por vezes o mais
eterno. É aos meus amigos que me permito mostrar o que de bom e mau tenho, eles vão aceitar-me, não é tolerar-me. Os
meus amigos ralham comigo e depois
dão-me um abraço. É assim que
funciona. Com honestidade, emocional e intelectual. Tenho grandes amigos. Há muitos anos. Falamos
diariamente. Dizemos que sim e que não. Entramos em casa sem avisar.
Juntamo-nos quando o coração aperta e precisamos de mais corações à nossa
volta.
Há muito que não faço novos
amigos, os que tenho já são vintage. E bastam- me. Agora a amizade é lavoura
que dá trabalho. Dedicação de agricultor. Abdicar de nós em função do amigo.
É... A amizade é uma grande empreitada. Dá trabalho ao coração. A amizade não é
conveniente, isso são as relações sociais, todos sabemos disso. A amizade é
limpa como uma casa branca. Arrumada como uma praia em setembro. E um
namoro...um namoro generoso, que não
cobra e é eterno, provavelmente o mais eterno das nossas vidas.
abraço
segunda-feira, fevereiro 17, 2014
A NOSSA HISTÓRIA
Ora Viva...
A nossa história é fascinante.
Falo da história individual. O que fomos, o que somos, o que queremos ser. Não
sei explicar o prazer que sinto ao entrevistar pessoas fora das luzes da
ribalta. É apaixonante perceber o que motiva a pessoa, o que a desanima, as
paixões, os vícios, o futuro. Tudo dito sem pensar em estratégias de
comunicação, sensacionalismos, e outros bla bla blas...
Falam porque lhes vem
do coração, o mesmo sítio onde nascem as paixões da nossa história. O ser
humano é extraordinário. Fixo-me sempre no lado nobre e luminoso. Tenho
conhecido gente desprezível, a gente que acha que o dinheiro lhe traz tudo, a
gente que entende que o sucesso é eterno e os torna um pouquinho mais iguais
que os outros, a gente que espezinha, a gente que proíbe quem está
hierarquicamente numa posição inferior de ter qualquer protagonismo, a gente
que diz o que fica bem e nunca diz o que pensa…enfim...essa gente. Mas depois
há aqueles que amam o anonimato e encaram a entrevista como uma forma de
divulgar a obra que até nem é deles, mas pode dar uma ajuda à vida e todos, a
gente que tem orgulho na história que fez com o sangue, suor e lágrimas que na
boca dizemos.
Há a gente da terra, do campo, da cidade, das palavras, dos
abraços, do dar sem esperar, do fazer sem ser para se ver, do sorriso
constante, do acreditar, do partilhar. A gente que desanima e acredita no dia
seguinte. A nossa história é NOSSA, e quando honesta pode ser extraordinária!
Até amanhã!
terça-feira, janeiro 07, 2014
OUVIR
Ora viva
Ouvir é um exercício. A dedicação
ao outro. Prova máxima de respeito, curiosidade e humildade. Eu conheço uma
pessoa pela capacidade que esta tem de ouvir. Basta-me isso. A minha vida é, há
muito tempo, dedicada a este ofício da atenção. Não posso fazer boas perguntas
se não escutar respostas. Às vezes custa-me ouvir algumas entrevistas, porque o
entrevistador simplesmente não ouve. Não há boas perguntas sem respostas.
Noto
se me estão a ouvir pelos olhos e pelas mãos. Denunciam mentirosos, falsos
ouvintes. É claro que nem sempre estamos com capacidade para escutar, e há
gente muito chata, mas se nos dispomos a ouvir, então que assim seja. Há,
contudo, gente que nos desafia, gente que para dizer uma palavra, usam dez.
Gente que para ir a um sítio da conversa, vão primeiro a cinco. Pois, há gente
difícil de ouvir, gente que não diz nada, gente que diz tudo, gente que não
interessa acatar. Mas para saber disto, temos de nos calar e ouvir. Nem mais,
nem menos.
Até amanhã
Hélder
quinta-feira, janeiro 02, 2014
DAR
Pergunto-me muitas vezes: o que
posso fazer pelo mundo? Não sei.
Nem sei se as pequenas coisas ajudam a coisa
no todo. Faço-me entender? É fácil constatar que a terra que nos dá lar não
anda bem. Todos os dias, no meu dia-a-dia, encontro situações tão desesperantes,
tão delicadas, tristes e que me apertam por dentro. E não consigo fazer nada.
Ou por vezes até consigo, mas uns tempos depois constato que não resolveu. É uma
espécie de incapacidade. Incapacidade de fazer alguma coisa realmente
significativa, e que possa mudar. Conheço tanta gente inspiradora. Gente que se
dá pelos outros, e muda, muda a vida de quem está mal. Isto é maravilhoso.
Intenso. Desafiante. É mais que voluntariado, mais que um donativo, mais que dar
a mão. Trata-se de dar o tempo, a vida, a voz, o pensamento, as ideias, os
objectivos, o dinheiro, as rotinas. DAR. Sim, eu conheço gente assim, e que se
recusa à entrevista e à fotografia.
E sinto-me pequeno. Muito pequeno. Sem
resposta para a pergunta de início. É tudo maior que eu.
Até amanhã
Hélder
quarta-feira, dezembro 04, 2013
FOME DE BACALHAU
Ora viva
Há dias, a propósito da recolha
para o banco alimentar, uma jornalista perguntava a uma criança se sabia para
quem era a comida…resposta? Para os pobres. Fiquei azedo, mas tão azedo. Vivo a
vida com pessoas, muitas e de diferentes raças, sexo, profissões, estatutos, e
antes de se me apresentarem como tal, são pessoas. Exatamente pessoas. Ainda
que o ser “só” pessoa, para determinados indivíduos, possa ser coisa igual a
toda a gente. Pessoa é o que são e serão. Com tudo aquilo que de mais físico e
espiritual a pessoa tem!
Numa das reportagens que fiz esta
semana, entreguei um cabaz de comida a uma instituição, não era oferta minha, e
no cabaz vinha bacalhau. A diretora da casa chorou, chorou porque tinha 12
postas de bacalhau para dar a algumas das 1100 pessoas a quem ajuda contra a
fome. E nunca lhe tinham dado bacalhau, e era uma festa ter aquelas 12 postas. Chorou
por ver o bacalhau e eu chorei por dentro, porque tinha à minha frente uma
mulher que criou uma IPSS há 10 anos, que vive da sua pensão de quase 300 euros
e cujo sonho é fazer a sua cantina social.
Às vezes acho que anda tudo ao
contrário. Os problemas que nos ralam a cabeça no dia-a-dia. A fome que milhões
passam. O que eu não faço pelos outros. O que tanta gente faz pelos outros.
Gostava eu de ter palavras para
agradecer a quem faz da vida a causa social, como voluntário ou
profissionalizado. Quem trabalha para e pelos outros não fecha a porta do
escritório e deixa lá os problemas. Quem trabalha nas casas sociais fecha a
porta da instituição e traz no coração os problemas dos outros, quase sempre
dos outros.
Nunca chamem a ninguém pobre. Nem
rico. Nem doutor. Nem nada que não seja o nome próprio. Aquele que nos assina e
nos lembra o berço de pessoas que somos e para sempre seremos.
até já
terça-feira, novembro 19, 2013
AGRICULTURA
Ora viva
Pés na terra. É das melhores
sensações que posso dar à minha pele. Quando era miúdo lembro-me de andar
descalço pelo campo de milho e adorar sentir a terra entre os deditos dos pés,
e aquando de levar a água ao milheiro, era o deleite total, terra molhada e pé
descalço. São memórias físicas que guardo da agricultura que os meus pais
faziam. Em bom da verdade eu devia ajudar, mas passava mais tempo de cabeça na
lua e de pés engolidos na terra, do que a dar uma mão ao cultivo. Mas sempre me
fascinou a sementeira, a colheita, o pousio para os dias que hão-de vir.
A
agricultura é o melhor exemplo que podemos dar à vida, às coisas, ao amor, às
emoções, à paciência, à perseverança. O agricultor é um vulcão de garra, de
esperança e futuro. Semeia que Deus há-de ajudar, dizem os mais velhos. Na
horta dos dias é a mesma coisa, semeamos na vontade de colher, e isto dá para tudo,
para todos, por muito sábios e bem aperaltados que sejam.
Cada um a seu jeito é
um agricultor de palavras, projetos, construções, lições e sermões, curas e
remédios, sorrisos e engenhos.
Curiosamente, nunca se falou
tanto de futuro com uma arte de tão antigamente: a agricultura. Serena e
paciente, ela vem sempre ter com a gente. É na terra que habitamos, e sem terra
flutuamos. É por isso que gosto tanto de quem faz da vida a sementeira. É gente
de esperança morena pelo sol. É gente de bem, é gente com raízes bem fundas,
como convém a quem se planta nos campos que lavra.
abraços
Hélder
terça-feira, outubro 15, 2013
ARRUMAR O ARMÁRIO
Ora Viva
Este texto começou com uma
arrumação da roupa de Verão, é… acho que acabou mesmo! Quantas vezes dizem a
expressão: E se… ?! Para mim é uma frase terrível, sem exagero. A teoria dos “e
se” é destrutiva. Castra a decisão no presente e gera-nos uma agonia no futuro,
quando olhamos para o passado.
Eu sou um homem ponderado, não entro nada na
onda do Carpe diem. Para mim é uma quase treta. Claro que é ótimo viver
intensamente o presente, mas sem a consequência do futuro? É como não acreditar
nos sonhos, nos projetos, nas relações. Pois se eu vivo intensamente o agora,
como se não houvesse o futuro, é dizer que tudo o que é plano não faz sentido.
Não acham? Não há nada como viver o momento a ponderar o futuro. Um sem o outro
é coisa estranha.
Voltando ao “E se…”, para mim é
sinal de passado mal resolvido e medo do futuro. Pior que uma dúvida no
presente, é uma dúvida no futuro sobre o passado. E se…nada. É preciso fazer de
cabeça para a frente, ou não fazer de cabeça igualmente a direito. Não dar
grande tempo à terrível dúvida que nos pode entorpecer. É claro que, como em
tudo, esta regra não a cumpro a direito, mas dou-lhe poucas curvas. Ter,
orgulhosamente, o passado arrumado em gavetas é ter uma casa com cada coisa no
sítio certo. E há lá melhor sabor que um lugar arrumado?
Abraço
Hélder
terça-feira, outubro 08, 2013
GOSTAR
Hoje uma amiga disse-me que adora
dizer às pessoas, quando assim se justifica, que gosta delas! Ora aqui está um
bom tema de escrita. Gostar e dizer que se gosta. Para mim gostar é um
exercício e uma generosidade. Um exercício porque para se gostar é preciso
tempo e atenção. Tempo para ouvir, ver, perceber, abdicar de nós para entrarmos
no mundo dos outros. Atenção para cumprir o grande desígnio de atender aos
pormenores, às diferenças, às particularidades.
Eu não acho que se gosta porque
se gosta. Nada disso. Gosta-se porque tivemos o cuidado de sairmos de nós, do
conforto da nossa zona, para nos dispormos a entrar no fascinante mundo, que
pode ser, o dos outros. Por tudo isto, tenho um profundo respeito e gratidão
quando alguém diz que gosta de mim. Quero perceber os comos e porquês e depois
agradecer a generosidade do sentimento.
Gostem-se muito! Tenho dito.
abraço
hélder
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