sexta-feira, abril 12, 2019

AMOR DE ALECRIM






Com o risco do excesso, não vivo sem alecrim. É um arbusto, abunda em Portugal, gosta de lugares secos, e se o tempo for quentinho, dá flor todo o ano. A medicina e a farmacêutica gostam do seu uso. Das flores do alecrim retira-se uma água destilada que se chama: água da rainha da Hungria, sorte da rainha que desta água faz uso. A flor é singela e de um azul apaixonante. Uso a flor na minha cozinha, o alecrim nas minhas infusões, nas batatas assadas, no pão torrado com azeite; coloco-o na mesa, para receber visitas, e ofereço-o sempre a quem mais gosto. Um vaso de alecrim, é o amor plantado. Os romanos faziam coroas de alecrim e com elas celebravam divindades. Para o cristão é símbolo de fidelidade. Para mim, é a melhor expressão da festa.

O alecrim serve a dor e a alegria. Nos países nórdicos, os caixões são cobertos de alecrim. Acredito que para perfumar e perpetuar a vida. Eu uso-o sempre para celebrar. Há um provérbio que nos diz. Quem pelo alecrim passou e dele não colheu, ou nunca teve amor, ou dele se esqueceu. Eu tenho uns 10 alecrins em casa, e quando na rua passo por um, apanho sempre um raminho. Enquanto lhe escrevo, bebo uma infusão perfumada de alecrim. Tenha alecrim perto de si, porque rapidamente se vai aperceber que aos molhos, só mesmo os de uma vida boa!

até já

quinta-feira, abril 04, 2019

OS LIMÕES DESTA VIDA!!






Quando olho para um limoeiro olho para um lugar perto da perfeição. Frutos que me fazem lembrar o verão de todos os anos, um aroma a liberdade, a perfeição na cor. Apanhar um limão é a soberania da vontade própria. Afinal é fácil ser soberano de nós mesmos. Não que o limão seja o tesouro que nasce nas árvores, mas é a melhor personificação que tenho do tempo. O meu tempo de infância, quando fazia limões espremidos na água fresca do poço; o meu tempo de espera para que o limão ganhe a cor certa para ser colhido, o tempo de o descascar, espremer, para usar à volta de uma mesa.

Limão e solidão rimam, provavelmente andam juntos, neste movimento animal da existência. Honestamente, casam-se bem. Precisamos de limão para uma boa limonada, e de solidão para o crescimento. Não há outro remédio para a maturidade, uma boa dose de solidão. Olhar para a janela, perder-se nas paredes de casa, viver no horizonte mais infinito que avistamos da varanda. Incomodarmo-nos com os nossos pensamentos até que eles sejam pronunciados. Confrontar a ideia. Chegar perto de um limoeiro e apanhar um cesto de solidão, e só depois fazer com ela a vida, como se fosse limonada, como se tudo fosse um solene limão. Da mão ao pensamento, da boca ao sumo, do corpo à inteligência.



Arranjo gráfico David Reis

segunda-feira, março 25, 2019

DÁS AS MÃOS OU QUE TENS NAS MÃOS?




- O que fica quando dás?
- Ficam as mãos.
- Mas se dás as mãos com que mãos voltas a dar?
- As mãos voltam a crescer, para darem de novo.
- Portanto, o que dás não é o que está nas mãos?
- Não, isso é só para embelezar, o que dou são, mesmo, as minhas mãos. Mas como estão velhas, coloco-lhe sempre coisas bonitas. As pessoas precisam de coisas bonitas para animar os dias.
- E as mãos que dás nunca te fizeram falta?
- Às vezes fazem, e peço umas a quem gosto.
- E nunca deste à pessoa errada, ou que não merece?
- Isso já não é da minha responsabilidade. Eu dou. Depois, não depende das minhas mãos; isso já compete às mãos que recebem, o saber receber. Não basta precisar...
- Está bem, e se não precisarem, nem souberem?
- Provavelmente deixarão de receber. Ou não. Enquanto se dá não se pensa em mais nada
- E deram-te sempre as mãos?
- Já me aconteceu ficar muito tempo sem mãos. São dias tristes. Mas fica-me a felicidade por ter dado. Quando volto a receber mãos, dou-lhes mais valor, pela ausência que lhes senti, e redobro a vontade de dar, porque nunca sabemos o que não fizermos, nem dissermos.
- Isso é interessante, mas um pouco bizarro. E o que recebes por dar?
- No início queria sempre algo em troca, com o tempo aprendi a esperar que a felicidade chegasse.
- Que felicidade?
- A de dar livremente. Dar o que nos faz falta, o que até queríamos para nós, o que vem do nosso âmago, o que nos esvazia o peito. Dar e só esperar pela felicidade.
- Mas ela pode não vir.
- Muitas vezes não vem, é verdade. Mas estou a aprender a esperar mais. Cada dia mais. Quanto mais souber esperar, mais saberei dar. A espera é a mais sapiente das ciências. Esperar é saber responder, saber respirar, saber cumprir a generosidade, a paciência, a observação. Há um pássaro chamado andorinhão preto e que voa 10 meses seguidos, à procura de um novo destino. Esperar a voar! A forma perfeita de qualquer espécie de espera!!
- Impossível para nós.
- Se só se te achares nesse corpo, sim. Mas se cultivares a profunda dimensão da tua mente, és capaz de conseguir.
- Acho que caia.
- Tens de emagrecer os teus pensamentos, eles são o mais pesado que há em ti.

Legenda da imagem. A minha bota de quando tinha 2/3 anos. Perdida numa arrecadação. Foi-me dada pelo meu pai num dia de primavera e de muita luz. Encontrou-a sem querer, e arrumou-a num lugar à chuva e ao vento, onde eu a via sempre, e não lhe dava grande significado. Esperou que eu percebesse o sentido da bota com a qual aprendi a andar seguro, a fazer caminho. Esperar o momento para dar, e que se perceba o sentido limpo da dádiva!


Tratamento de imagem: David Reis

terça-feira, março 12, 2019

RIR DA BARRIGA AOS OLHOS





Aprendi a sorrir desde muito novo. Aprende-se a rir como se aprende a comer. Não duvide. A minha mãe foi a minha ensinadora. Ria-se tanto. Quando ria, os olhos choravam-lhe de alegria, a boca não se fechava de gargalhadas, era uma festa constante. Ria-se com as brincadeiras dos cães, com os sonhos que lhe saiam muitas vezes um pesadelo. Ria-se quando me via a andar de bicicleta, de tão torto que ia. Ria aquele rir de doer a barriga e fechar os olhos. Que saudades.

O melhor sorriso é o que tem ligação da alma aos olhos. Este não se aprende facilmente. Educa-se. Cultiva-se como as flores. Trata-se como o diafragma na respiração.

Sou de sorriso fácil. Mas rio cada vez da alma para os olhos. A vida ensurdece os nossos sorrisos. Às vezes o sorriso anda em subsistência, certamente já vos aconteceu. Mas há um sorriso que é secreto, sorrir por dentro. É a maior proximidade da paz que eu consigo ter. Esse sim, é uma arma poderosa, indomável, dilacerante, destruidora de cérebros carregados de maldade.

Para culminar a roda gigante e complexa do sorriso; há  a felicidade na tristeza. Aquela mesma que só sente quem a tem; não é essa que nos tira o riso. Os que sabem rir por dentro. Porque felicidade não é alegria, e tristeza não é infelicidade. Fiz-me entender?

Eu cá continuo. Entre dias felizes, sorrisos de ventre e com os olhos a espelhar o que só por dentro se sente.

Até já

sábado, março 09, 2019



Imagina que o barco é o que sobra ti
Navegas no único lugar da sobrevivência
Sem foz de mar
Sem âncora de areia que seja
És tu e os teus braços
Que serão remos
A tua língua será leme
E a tua alma uma corda seca
Agastada pelo sal e pelo sol
Agora só contas tu
Para a tua salvação
Para a tua navegação 

quinta-feira, março 07, 2019

MENDIGAR POR AMOR




                                                                                auto retrato


Mendigar reciprocidade de sentimentos é pisar a alma com um sapato de salto alto. Já pela sua natureza de significado, o verbo mendigar pressupõe uma acção que vai viver da caridade de um segundo ou terceiro elemento da história. Ou seja, sem o outro, essa pessoa nem a quem mendigar tem, portanto irá mendigar-se a si própria, até que a sua vida interior esteja mirrada e consumida pelo monstro de não ter quem. Sim, a frase termina assim, não pense que me esqueci do resto do texto!

Ter quem, é o melhor da vida. Ter quem te ouça, quem te queira, quem goste de fazer sexo contigo, quem te pergunte sobre ti, quem invista na tua carreira, quem te acrescente e te meta no lugar; ter quem de ame com defeitos que sabe que ainda irá conhecer, quem te mime, quem te acompanhe em silêncio, quem te abrace, chore contigo, ria contigo, vibre, te critique, te aumente, qual fermento; ter quem te diga a verdade, seja honesto, não faça fretes contigo, te pergunte se dormiste bem e se o almoço foi bom, quem te olhe para dentro dos olhos, quem te veja em potência e acto, te acredite, te mova e demova, te conheça as frase de conveniência para esconder tristeza, te sinta feliz sem o teres de dizer, te ouça calado, quem te ouça sem falar dela própria à tua terceira palavra, ter quem é quase o melhor da vida. E todos estes quem... não se aplicam só a amigos e amantes. Há tanta gente que nos passa na vida e num destes modos de estar, ficam para a vida toda. E tudo isto é amor ou desamor. Nem mais, nem menos.

Mendigar por qualquer um destes "ter quem", é simplesmente, o maior nojo da nossa existência. A lesma e homem distinguem-se pela coluna, também. Andam curvados os mendigos, e os que nem a quem mendigar têm, quase que tocam com a cabeça no chão. São contorcionistas do desespero.

sexta-feira, março 01, 2019

Deixa-me

Deixa que a minha solidão se veja
Que o meu corpo se mude
Que os olhos se fechem
Deixa-me estar aninhado em mim
Nos cantos todos de mim
Deixa me calado
Sem voz
Sem luz
Sem expressão
Deixa-me mudo e com fome
Deixa-me sem compreensão
Esquecido no meio de uma casa
Não olhes por mim
Nem olhes para mim
Deixa-me estar quieto
Parado de sangue e saliva
Deixa-me nu
Que vestidos andam os cívicos
E eu, hoje, não me pertenço
Nem te pertenço
Deixa-me na raiva e no sossego simultâneo
Deixa-me nesta paz mansa e na guerra que se segue
Deixa-me na minha loucura
Porque loucos somos poucos
E eu já fui muitos.
Deixa-me estar
Por aqui
Ou por sítio nenhum
Para que nem eu me possa encontrar