quinta-feira, julho 02, 2020

O QUE ME DÃO OS DIAS SEM TI






Gostava de passear-se pelo jardim e de tocar nas suas flores, que eram como que a sua voz com raiz. Enquanto as observava, deixava que o sol lhe escorresse pelo rosto, aumentando o brilho dos seus olhos. Era uma mulher que gostava da luz pelas janelas e de flores em cima da mesa. Até os seus vestidos tinham flores, das pequenas, e que ela havia moldado e costurado numa das madrugadas dos dias que já passaram. Levantava-se cedo. Dizia-me que é cedo que acorda a vontade de viver. Durante o dia rodopiava-se pela terra e pela casa, que era branca; ao fim da tarde cheirava a maresia no jardim, e muitas vezes a via parada a respirar-se, porque nem sempre a vida lhe permitia grandes pausas para lufadas de ar. Nesses momentos, sentia-a tão perto da perfeição, entre o mar e os jardins em flor.
Porque a vida pode ser feita com o melhor do passado.

Para a minha mãe. 5 meses sem ti.

terça-feira, junho 02, 2020

AFINAL ESTÁ TUDO IGUAL






Dizia-se que as pessoas iam ficar diferentes, com menos rasgos na alma e azedo no sangue. Dizia-se até que íamos olhar mais nos olhos e valorizar a pele dos abraços e das mãos. Cheguei a ouvir que nunca mais a vida seria a mesma. Mas parece que não, a nossa alma não aprende tão rápido assim, e a solidão continua sozinha, a política continua vaidosa, as pessoas não ouvem e falam muito, a correria parecia ser uma necessidade. E... cá estamos nós quase pós pandemia e a sermos os mesmos de sempre, com mais histórias para contar.
Os enfermeiros e médicos, quando tiverem as suas lutas, vão ser coisas deles e não de todos. E a vidinha avança, porque um problema só é problema se me bater à porta. Pior ficam os que lhes morreram pais, filhos, primos, amigos, amores. Esses ninguém os lembra, porque a dor é uma coisa que só se sente no corpo da outra gente, se não for nossa.
É, voltou o trânsito, as filas, a moda e a desmoda. Voltou quase tudo ao normal, menos para aqueles cuja vida parou, num sopro, durante meses, ou então se diluiu entre hospitais, batas e máscaras. Somos os mesmo no mundo todo, aqueles que matam em nome da segurança, mesmo que a morte tenha cor.

quinta-feira, maio 07, 2020

SOBRE O VENTO




Não gosto de vento. Incomoda-me o desalinho, o desconforto, o quase que gemido à porta e à janela. O vento é a melhor expressão de frio, tristeza, abandono. Isola-nos das coisas. Parece leve, mas é pesado, cortante. Estraga momentos, apaga velas, levanta saias e cortinas, derruba a altitude, despenteia cabelos e ideias. O vento é o estado de natureza mais parecido com as pessoas arrogantes, egoístas e inconvenientes.

Tudo é diferente com a brisa, essa amansa-nos a alma, beija-nos o temperamento, suaviza-nos a criação, transporta-nos o pensamento, estimula o sorriso. Como as pessoas generosas, atentas, que dançam sozinhas e andam descalças, na humildade do pé na terra e do coração desapertado de espartilhos. 

Espero que um dia as pessoas se revelem vento e brisa; a natureza terá muito mais comunhão com a humanidade.

até já

terça-feira, abril 28, 2020

UM TEXTO COM PRONÚNCIA



Quando comecei a fazer televisão, queria ser o melhor e que o país me conhecesse. Ocamente queria ser o melhor empregado de mesa da TV, como se isso me fizesse gente. Depois quis ser conhecido, como se isso determinasse a minha identidade televisiva. Felizmente caí na terra a tempo. Passados 20 anos, quero fazer bem o meu trabalho e que em cada momento televisivo eu consiga transmitir algo de bom, construtivo, edificante, tolerante e inspirador. Eu sei, sonho alto. Mas para que servem os sonhos, se não acompanharem o voo dos pássaros.

Tenho pena que em alguma televisão que se faz o compromisso do entretenimento e informação se confundam com espetáculo de palhaços tristes, mas pintados com largos sorrisos. Se use e abuse dos sentimentos de fragilidade, de vidas simples, de sotaques que ao invés de serem genuínos, são forçados e ridículos, e haja um certo orgulho em ser-se arrogante, ignorante e quase que bobo de uma corte, que já não existe, a falar de um país que já não é assim.

Somos um país diferente, sabem? Em trás os montes não há só velhinhos vestidos de negro, com muito respeito pelos que ainda existem. No Minho não se toca só concertina à desgarrada, no Alentejo não existe só sestas e calor, o algarve não fala inglês em vez de português. Somos um país diferente, e tenho pena que alguns portugueses, por uns trocos, vendam a sua identidade para fazer espetáculo, e as televisões peguem neles e os coloquem como que embaixadores de uma região. Tenho pena que a informação, seja, por vezes, mais centralista que os nossos governos. Tenho pena que os sotaques sejam ainda vistos como “ modos tão giros e super diferentes de falar, ai eu adoro!!!” Só falta mandar amendoins para as gentes de outras bandas, para tocarem o sino, como se fazia no zoo em Lisboa ao elefante carismático; ainda bem que o tempo também aí mudou.

Mas também me agonia apoiar-se que venham habitar o interior, cheios de regalias, como se fosse um exílio a que se marcham, e quem vive nessas terras e lugares continue a trabalhar, sem incentivos por não ter deixado para trás a sua terra. Caramba, é assim tão difícil de ver o todo em vez da parte?
O circo que se monta à volta das pessoas e das terras que heroicamente são fieis a si mesmas, é triste e de profunda ignorância e quase xenofobia cultural. Igualmente triste é que é dessas terras e lugares que surgem algumas personagens televisivas, e que têm uma certa vergonha do seu ser, e assim se vendem, como se a identidade tivesse um preço, e fosse a televisão lavar o que as pessoas sempre serão, de onde vêm, e para onde irão. Para onde irão? É o que gostava de saber.
É isto. Mas viva a liberdade!

quinta-feira, abril 09, 2020

UM CASO COM A MINHA CASA





A casa. Eu sou dos da casa. Gosto de fechar a porta. Olhar para as minhas divisões e sentir nelas a minha vida. Tive 3 casas. A dos meus pais, na praia e com o que tudo isso me trouxe, um pequeno apartamento alugado, que marcou o início da minha vida emancipada, e o apartamento onde vivo, cheio de luz, plantas, horizonte de mar. É a biografia das minhas casas. Vivo nesta última há uns 17 anos, perdi a conta. Tudo o que ela tem fala de mim, ou foi feito por mim, ou trouxe de um momento e de um lugar ou teve a mão de alguém que gosto muito. Em casa escrevo, faço ginástica, amo, crio, leio, faço silêncio, ouço discos, crio plantas, guardo a luz. É, na minha casa guardo a luz, encho-me de brilho para sair dela feliz, e a ela voltar com aquela necessidade de recarregar.

Viajo muito, e tenho sempre saudades da minha casa, e imagino como ficariam as coisas do outro mundo em minha casa. Honestamente, acho que tenho um caso com a minha casa. Vibro com as folhas novas do bonsai, ou do jasmim, as novas peças de oleiro que coloquei na janela, as memórias da minha mãe que vou dando moldura, para que me cumprimentem muitas vezes. Adoro ver a luz entrar nas portas das minhas varandas e adivinhar-lhe as horas, mornas. E da chuva, como é bom ouvir a chuva de dentro da minha casa, enquanto a lareira me avisa da sua crepitada presença. E como gosto de guardar decorações antigas e depois busca-las e troca-las pelas que estavam, sair de casa, e entrar logo, e olhar para tudo com um espanto renovado, como se fossem coisas novas. A minha mãe fazia o mesmo, e ria-se tanto com ela mesma. E eu rio-me tanto comigo mesmo.

Na minha casa as luzes de natal estão acesas todo o ano, a lembrar-me Paris e Londres, nos cafés e restaurantes onde tantas vezes me perdi à procura de cada detalhe. Mas, essencialmente, porque gosto do Natal. Não sei o deste ano, sem a minha mãe, acho que vou saltar a época. Logo vejo.
Na minha casa recebo quem gosto, visto-a para receber e lá ando eu a rodopiar pela casa porque ela vai ser vista e tem de estar bonita, e na cozinha os aromas ganham-se de vida e carácter. É isso, carácter, é o que gosto na minha casa. Fala em nome próprio. Móveis desenhados por mim, outros resgatados do tempo, ou com assinatura de criadores que gostei. É para isto que serve uma casa, para falar da nossa alma, da nossa história pela terra. Das nossas geometrias emocionais. Não quero saber se não gostam da minha casa, mas adoro que a elogiem, até acho que ela dá um pulinho de alegria, como que a dizer-me: vês? Gostaram de nós. Se tenho a casa que quero, claro que sim, porque ela tem tudo o que o meu tempo precisa.

A casa é, nos dias de hoje, o meu ventre, o meu colo, o peito que me abriga. Da minha varanda vejo o mundo, e quando não vejo tudo, saio, mas para voltar rápido, porque na minha casa, a luz, é um espetáculo sempre diferente.


quinta-feira, abril 02, 2020

SAÍ SEM O MEU SER




Saí cedo de casa. Deixei o ser à mesa. O sol entrava desleixado pela janela. O ser ficou sentado. Ficou bem.

Saí leve de mim. Percorri caminhos verdes, azuis e limpos. Essencialmente limpos. Da vida só quero o que me baste, aos olhos e ao coração. Regressei a casa. O ser estava à janela. Porque era meu, partilhei o que recebi do caminho. Achamo-nos mais inteiros, um do outro.  


Até amanhã.

Quarentena abril 2020

terça-feira, março 31, 2020

AS MÃES NÃO MORREM, NÃO DEVIAM MORRER!



Morreu-me a minha Margarida. Deixei de ser filho. O mundo avança à minha volta, apetece-me perguntar: como se atreve a continuar, se a Margarida morreu? E continua, e continuará a girar, porque a todos os momentos morrem Margaridas, e porque a minha respiração não se alimenta de intervalos, e porque a vida é mesmo assim, morre-se e continua-se, morre-se e continua-se, repetidamente. Porque o que de mim morreu com ela, dará lugar a outros nascimentos. A minha doce amiga Marta disse-me que estar triste também é uma homenagem... quero acreditar. Viver o luto e este isolamento, é das experiências mais desconcertantes, introspetivas e reveladoras da minha vida, mas a vida vai-nos amansando a dor. A vida destes dias é mesmo isto, adoecem, morrem, e nós temos de continuar, nós os que ainda não padecemos, achando que ainda está longe de nos bater à porta. Deixo-vos o texto que escrevi para o funeral da minha Margarida. Porque sou escritor, e fui filho, e este não é um sentimento só meu.


A minha mãe teve o melhor nome que a vida lhe poderia dar, Margarida. As margaridas são flores simples, e com rosto feliz. Na entrada da nossa casa a minha mãe plantou margaridas, eram as melhores boas vindas a quem entrava. Sou o filho mais novo da minha mãe Margarida, tive a sorte de ter uma mãe madura na vida, experiente no sentimento, tive-a perto de mim durante 44 anos, que bênção. Somos 5 filhos, tivemos a felicidade de sermos amados por uma mulher que foi professora, ainda há alunos que a chamam de professora, costureira, agricultora, dona de casa, uma cozinheira de mão cheia, apicultora, mulher e mãe. Sempre mãe. Cheia de vidas.

Amava rir, lembro as gargalhadas que dava, fechava os olhos de tanto rir. Não fosse ela nome de flor, era uma apaixonada por flores, e como ficava triste quando alguma lhe morria. Flores do campo, orquídeas, estrelícias, avencas, suculentas, rosas, catos e próteas. O meu pai bem que lhe pedia para fazer no jardim uma horta, mas nunca conseguiu tirar-lhe o lugar das flores. Tivemos um cato que viveu mais de 20 anos, era regado com amor, em doses suaves.  Gostava de poesia simples, de música serena, de pessoas que falassem baixo, nunca gostou de gritaria e confusões da vida. Era uma mulher da terra apaixonada pela praia, os melhores verões eram os que íamos os 2 de bicicleta até beijar o mar. Ainda há pouco tempo me dizia: as ondas são um mistério tão grande. E perdia-se a olhar para elas. A praia agora é menos praia porque a Margarida não está lá para olhar o mar.

A minha mãe, era uma mulher simples, e sabemos tão bem como é difícil e sábio, ser-se simples num mundo tão complicado. O meu amigo Nelson ensinou-me que uma mãe não morre. Ainda não aprendi bem esta lição, mas sendo assim, até já mãe Margarida, doce Guidinha, como lhe chamavam quem lhe conhecia o coração. Obrigado, por tanto amor, serenidade, resistência, humildade, sabedoria e paz. Até já, mãe.