domingo, janeiro 10, 2021

Desliguei o Natal



 Este foi o Natal mais duro, arranhado, ferido e doloroso que eu poderia ter. A minha Margarida não esteve comigo. Não vi os seus olhos pequeninos e brilhantes a olharem para a árvore de Natal, as suas mãos de pele de seda a ajudar-me no presépio, e os seus conselhos na receita certa dos doces da época. 

Estive sempre em esforço para não desabar. Estou cansado da sua ausência. E será para a vida, para todos os natais que terei, a Margarida não estará presente. Nunca mais. E ainda não sinto que ela esteja num outro lugar. O que sinto é falta, ausência, vazio, espaço. 

Sem mãe. Nunca terei outra forma de viver. A amar a vida, mas sempre órfão. Todos os dias. Todos os Natais. E tenho medo de me habituar. Eu quero sentir a necessidade de a ter, porque assim o amor dói menos na solidão de não a ter.


Até já 


sexta-feira, dezembro 25, 2020

BOM DIA, SR GOUCHA



 O meu Manel vai deixar de dizer bom dia a Portugal. Para mim, como cidadão, profissional de televisão e amigo, esta despedida marca uma era. Mais de 25 anos a acompanhar o despertar de um país, a desembrulhar entrevistas, emoções, surpresas, sorrisos e lágrimas, tradições e memória. O Manel é um apresentador com a lembrança do tempo, a delicadeza da dedicação, a preparação de cada conversa como se fosse a primeira.

 Receber tantas manhãs um programa dirigido pela batuta deste homem, merece-nos um Obrigado. Um gigante obrigado. No seminário eu fugia para espreitar a Praça da alegria. Gostava do jeito como o Manel arrumava as palavras, com ironia, e um linguarejar tão criativo. Depois, trabalhei ao seu lado, 2 anos. Já a vida nos havia ligado. Ver o Manel fazer televisão, é assistir ao ensaio dos melhores espetáculos do mundo. Tudo é um detalhe importante. Da roupa à pergunta.

O Manel vai deixar de nos dizer bom dia, e tudo será diferente, porque é de manhã que nos ajeitamos para o dia que vem, e o Manel arrumava-nos a curiosidade, o saber, a estória da história, e lá íamos para o nosso dia, um pouco mais completos. Ter um profissional de televisão que se delicia com o trajar de uma minhota em romaria ao mesmo tempo que nos esmiuça o novo livro (que leu sublinhou) de um ilustre autor da nossa praça, isto tem um nome, grandiosidade intelectual; porque somos feitos de todas estas matérias, e pobres daqueles cuja vida passa ao lado deste todo.

Sempre gostei da vida de manhã, muito graças ao Manel, que me ensinou que o dia e a sabedoria aproveitam-se desde cedo. Obrigado Manel, por mais de 25 anos de bom dia  (estou certo que chega aos 30).

Porque hoje, dia 25 de dezembro, é o teu dia, e detestas despedidas e homenagens, este texto é só um obrigado e parabéns. És um homem a quem a VIDA não deve nada, graças a ti!!

Teu, Hélder

domingo, dezembro 20, 2020

QUANTO MAIS NU MELHOR

 


Os dias passam e as casas ficam. As casas, as árvores, os rios e o mar. São os permanentes. O resto das coisas da vida vão com o tempo. Aos 45 anos pergunto-me sobre o que me fica... na verdade sinto que resiste o mais simples, autêntico, frontal, cru e despido de papeis.

Já vos aconteceu? Precisarem de sentir a areia nos pés, a terra nas mãos, o musgo nos dedos, o vento no pescoço, a água na pele? Ou de vazarem os armários da casa, tirarem a tralha das prateleiras, das gavetas, da alma? Vazar como vaza a maré. Ou tomar banho no mar, nu, nu, mil vezes nu, até que a nudez chegue aos ossos?

No CAOS será sempre o simples e o despido que vencerão, até no cérebro das coisas da vida, acreditem.


Até já




domingo, novembro 22, 2020

O melhor do pior

 



Olá


Que dias estes, eramos tão felizes e não sabíamos. Agora passo, passamo,s mais tempo em casa, isolados, sem calor dos outros, sem a pele que se tocava e os beijos que dávamos, a torto e a direito. Agora até acho estranho quando vejo um filme onde há toque e cumprimentos... é, outros tempos.

Aproveito o tempo para purgar os dias, arrumar as folhas velhas dos vasos e da minha vida, deixar a luz entrar com janelas abertas, não vá o bicho me estar em casa, pelo menos arejo. Aproveito para me deliciar no tempo mais estendido, perder-me cá com os meus botões, arrumar e arrumar-me. Trabalhar na terra, fazer uma televisão distante, e voltar a casa, onde me sinto seguro e sempre em paz.

Sapatos à porta, sinto o meu chão, às vezes deito-me nele e deixo que a luz faça o resto, me recomponha. Chego cansado, cada vez que saio. Não sentem o mesmo? Andamos a fugir, alguns, de algo que nos pode derrubar o corpo. O melhor? Mais tempo, e usa-lo dignamente, com solenidade, porque o tempo é irreversível. Por isso, faço dele tudo o que a minha vida ainda me permite. 

Recomendo.


Protejam-se


Hélder

quarta-feira, outubro 14, 2020

ATÉ BREVE, PRAÇA DA ALEGRIA



É sempre difícil deixar a casa onde nascemos. Sair para voar, como se costuma dizer. Fui convidado da Praça da Alegria há 23 anos. Apresentei o meu primeiro livro de poesia, Rostos do mar. Era seminarista. Já saído do seminário voltei como convidado musical, com a minha banda Pólen. Se eu queria fazer televisão? Nem pensava nisso. Era vigilante no museu de Serralves, estava a acabar a minha tese de licenciatura em Teologia... e a fazer vida a partir do 0.

A minha amizade com o Manuel Luís nasceu entre entrevistas. Fizemo-nos amigos. As conversas sobre Deus e deuses... o silêncio... cinema com filmes que nos inquietam, víamos entrevistas de gente que nos emociona. E a amizade alimentava-se disto tudo. Um dia o Manuel perguntou-me se eu gostava de ser o empregado de mesa do programa... Eu? Claro que sim, o ordenado MUITO MELHOR do que Serralves. Ensaiei o uso da bandeja em casa ( nunca tinha servido à mesa), e lá fui. O empregado de mesa da Praça da Alegria, que servia cafés e laranjada e apresentava os carrinhos de compras do passatempo. A Praça fez o meu coração vibrar por conhecimento, humildade, evolução, história, amor. Tanto disto... é a tal casa, é a minha vida.

Nestes tempos de empregado de mesa muita gente ia acreditando em mim. Eu falava de modo claro e com boa linguagem ( um padre deveria assim ser). O público da Praça dizia-me que um dia eu iria longe. Eu? O empregado... nada disso, quero fazer o meu trabalho. A verdade é que fui voando, com muito trabalho, ensaios em casa, conselhos do Manuel ( o maior da televisão). E comecei com reportagens, e a ser empregado de mesa ( ao mesmo tempo), eu queria era trabalhar. De coração cheio, obrigado. Direção, administração, técnicos, produção, realização, maquilhagem, assistentes, câmaras, seguranças, técnicos de limpeza. Colegas e amigos! Todos me fizeram até hoje.

Uns 4 anos depois de começar como empregado, desafiaram-me a apresentar o programa. Eu? O que ainda tinha o avental guardado? Claro que sim, ora com a mulher mais doce da televisão, a Sónia Araújo, ora com a mulher de coração na boca e na pele, a Tânia Ribas. Sempre que o Jorge Gabriel não podia, lá ia eu, com dignidade, muito trabalho, e consciência do meu lugar, estava a substituir.. Meu Deus, que voltas da vida... A minha mãe deliciava-se, chegou a ser várias vezes convidada do programa, que linda senhora vaidosa de sentimento pelo filho, e eu feliz com a alegria dela.

Tornei-me o repórter. Um dos primeiros repórteres de entretenimento da televisão, eu e a Tânia Ribas. E assim fui, uns bons 20 anos. A fazer muitas outras coisas em TV, mas com a gana de repórter, esse género televisivo tão nobre, onde vamos à casa e à rua de quem nos vê. As festas onde estive, as feiras, as viagens aos portugueses emigrados, as histórias de vida, os sorrisos, as lágrimas. Devem imaginar... todos os dias, uma terra diferente, uma nova história. Caramba... era o coração sempre em vibração. Tanta gente linda com quem trabalhei, tanta gente maravilhosa que entrevistei.

Este ano foi ano de dizer adeus à Praça da Alegria. E lá ficou a casa, cheia de luzes e aplausos, e sigo caminho. Pleno de gratidão por quem me deu a mão no caminho ( os que sabem que fazem parte da minha história, e que olhei nos olhos e agradeci vezes sem fim). Mas ninguém faz a vida como nós mesmos, afinal ela é nossa. E há sempre um ou outro a quem falta agradecer, aqui fica. Para sempre.

Fico-me pela gratidão. Não olho muito para trás. Para quê? Só para lembrar a minha mãe, acho que é a única vez que o pescoço da minha alma se vira para trás. De resto, perdi toda a saudade que tinha pelo tempo da minha vida.

Agora digo-lhe boa tarde, todas as sextas feiras, no programa da minha Tânia Ribas. Uma equipa nova, e que parece que já lá vivo há muito. Vou contar histórias, de gente que nunca ouviu, de gente que já viu algumas vezes. Não são entrevistas, são conversas pelos campos da vida, sem complicar, só deixar rolar as palavras. Como eu gosto e sempre quis fazer. Com tempo e calma. Mais gratidão. A vida é um extraordinário presente. Sempre. Obrigado.


Até já

segunda-feira, setembro 28, 2020

TEMPO. TER TEMPO PARA UM TANGO

                        

                                    ARGENTINA, DANÇA COM FRANCISCA


Às vezes, a vida anda tão rápido. Não sentem? Os filhos crescem, os avós morrem-nos, os pais também. O netos e filhos dos amigos tornam-se adultos, quando parecia que ainda os tínhamos ao colo. Tempo, é o mais precioso da vida. Tempo para viver, observar, cultivar, esperar, construir, amar. Está tudo no tempo. De que nos vale o amor, se não lhe dermos tempo. O mesmo se aplica à amizade, às coisas que gostamos, às nossas plantas, aos nossos amados, à nossa saúde. Tempo.



Darem-nos tempo é o melhor que se pode ter. Tempo para nos ouvirem. Para nos curarem, para nos amarem. Tempo para sarar. Tempo para ver piada na graça. Tempo de silêncio. Tempo para dançarmos com a vida. Às vezes, muitas vezes, cá em casa dançamos, com tempo, e sorriso na alma.
Ter menos, na minha vida, tem significado ter mais. Ter muito mais. Com dores e alegrias no saco, mas com tempo para as desenlear. Percebem-me? Desenlear a vida, para que ela não seja complexa, e tenhamos sempre vontade de voltar a casa, e nunca de nos perdermos no caminho.


até já

segunda-feira, agosto 24, 2020

NUNCA HAVERÁ TANTO ESPAÇO COMO NUMA PRAIA

 

                                                                                             CUBA CAYO SANTA MARIA

Nasci na praia de areia. Insuperável a sensação dos pés na areia, das mãos na leveza do que já foi rocha. Há dias, entre amigos, discutíamos as praias de areia e as de rocha, vantagens e desvantagens. Para mim, é não conversa. A areia tem uma leveza de ar, só que colocada nos pés. Não há preço para tamanha liberdade. Quando era miúdo vinha carregado de areia da praia, a minha mãe ria-se comigo, por eu gostar tanto de trazer a praia para casa. Eu sei, dá trabalho a tirar de casa, mas dá tanto prazer senti-la nos pés, nos calções e na alma. Vai tudo parar à alma. Hoje continuo igual, trago quilos de areia para casa, e não me esforço por deixa-la longe de mim.

Caminhadas intermináveis no areal são um banho meigo em alecrim e laranjeira. Nunca nenhuma praia de rocha me dará isso, porque é impossível caminhar nessas praias. E a rocha nunca amansou o coração. Já a praia de areia, nunca encontraremos tamanho espaço, candura e beleza.



até já