domingo, março 21, 2021

A FELICIDADE

                                                                                        



                                                                               
A felicidade não é sorriso nem gargalhada. A felicidade é outra coisa, menos audível, mais interna que externa. A felicidade habita, serena, no fundo dos olhos, na superfície da alma, no sangue dos sonhos. Felicidade é o silêncio cheio de vida, o segredo do vento, a delícia das mãos dadas. É viver sem dever, mas por querer, com prazer de quem bebe com sede e descansa nas sombras das árvores. Felicidade é a paz dos rios e do mar em mês de junho; é chegar a casa e sentir o calor de quem nos espera, de velas acesas e casa arejada com flores na mesa.

Felicidade é dizer não. É respirar livremente, o mais livre que os pulmões conseguirem, Em casa, no jardim, na varanda, na praia, na serra, de mãos amarradas a quem amamos. É fazer caminho com quatro pés e dois corações. Felicidade é água limpa e fresca, rio corrido, mar leve, areia fina, mãos abertas, corpo descansado, cabeça limpa. Felicidade é um livro lido com tempo, uma canção ouvida as vezes sem fim, é acordar noite escura e abrir a janela para a lua entrar.

Felicidade é sermos fieis a nós, essencialmente a nós, para podermos cumprir a responsabilidade de se ser feliz com os poucos que sempre amaremos.


Até já

quinta-feira, março 18, 2021

O TEMPO QUE O TEMPO ME DÁ



 Tempo. Quanto tempo já perdemos a pedir e sonhar com mais tempo. Hoje, por motivos nunca imaginados, a vida está a dar-nos o desejado, e nem precisamos de lamparina de aladinos. Mesmo assim, agora reclamamos que já não sabemos o que fazer com tanto tempo. Nem sei bem como organizar ideias, ora não temos e queremos, ora temos e não sabemos o o que lhe fazer. Tão típico de nós, gente de pensamentos altamente elaborados e com tudo sob controle. E cá andamos sem saber o que fazer com a fortuna do tempo, já que de saúde andamos de credo na boca. E mesmo assim... descontentes. Eu percebo, mas mesmo assim, caramba, é um cheque de tempo. Para fazer, não fazer, piscar olhos ao sofá, aos livros e discos, e saborear o nada, que nos limpa a cabeça.

Tenho um amigo que fica muito alarmado por não fazer nada, eu já fui assim por não fazer nada que seja quantificável, lucrativo ou instrutivo; e agora não me pesa em nada na consciência, e já lhe disse para experimentar, o não fazer nada. Às vezes saio só para respirar, sentir o sol na pele e ver as copas das árvores, na verdade estou a fazer muito, pela minha serenidade e paz interior, mas sem instrutores, aplicações ou livros. Só eu e o meu tempo no bolso e no coração. Sorte a minha.

Às vezes é o que nos basta para ocupar tempo, darmo-nos ao sabor de liberdade de pensamento, sem porquês, como Alberto Caeiro se deveria passear na cabeça de pessoa. Digo eu.

O que ganho com isto, saúde mental, liberdade, desprendimento, silêncio, serenidade, disponibilidade, segurança. Na verdade é uma balança bem cheia, para o não fazer nada... como as coisas são, como a vida é.

Saúde e protejam-se, até da tentação de abarrotar o vosso tempo. 


sábado, março 13, 2021

FUI VER-TE, NADA ESTAVA NA TUA ORDEM

                                                                   Na sua estufa de avencas e orquídeas

                                                                       

 Não sou de revisitar o passado. Não sou de saudade. Não sou do se eu tivesse feito. Menos numa realidade, a minha mãe. Nas raras vezes que volto a Esmoriz, a nossa terra natal, vou ver o mar, no lugar onde o via com a minha mãe. Fazíamos silêncio e olhávamos com tempo, para as ondas. Ela, gentilmente, inclinava a cabeça para o salgado e dizia-me: parece impossível, como ele não sai dali e as ondas continuam a bater! Não era resposta de ciência que querias, era resposta de fascínio. Dizia-te, é assim que sempre foi, . Era aqui que fazíamos praia. - Pois era. Foi aqui que fizeste praia pela última vez. Não lhe disse. Era sempre a mesma pergunta, e eu gostava de a ouvir para sempre.

Depois vou à casa que foi dela, e já não a vejo. A estufa desabou, os vasos mudaram de lugar, muitas das plantas morreram, tem tudo outra ordem, que não a dela, a tua. Lembro-me de te ver rir, no riso saio a ti, entre as tuas avencas e orquídeas. Como adoravas as tuas plantas, era o teu jardim da liberdade, como a praia. No verão, depois de dezenas de dias de idas e vindas, de banhos de sol intermináveis e no final de época, olhavas para o mar e dizias-lhe, adeus, até para o ano. Porque para a minha mãe o inverno não tinha praia.

Tento respirar-te pela casa, o teu cheiro vai-se diluindo com as horas do teu relógio parado. Até a rua da tua porta, feita de paralelos antigos, agora é de fúnebre alcatrão. Não ias gostar, ou até ias, não eras de fazer favor à opinião.

Sinto que as coisas não só não têm o teu lugar, como não têm o teu nome, já não és dali. Eu ando bem, contigo presente no sítio da única saudade que tenho, a de ti. Queria mais umas horas contigo. Acho que o queríamos todos os enlutados desta vida, a quem parte do amor nos morreu.


Até já.


quinta-feira, fevereiro 11, 2021

LEVANTA-TE.





- Anda, levanta-te.

-Para quê?

- Não é para quê, é porquê.

- E então? Tenho sono e não tenho mais nada. Está a chover, não tenho roupa de chuva. Mesmo que tivesse não posso sair, mesmo que pudesse sair, não tenho para onde ir.

- Só bons motivos para te levantares, não teres motivo e teres tempo.

- Tempo para?

- Tempo para viveres com tempo.

-Isso é para filósofos.

-Isso é para os inteligentes.

-Não sou nem uma coisa,... nem outra! Vês?! Deixa-me em paz. Andor.

-Um dia um rei mandou o seu povo plantar amoreiras. O povo estranhou. Porque haveriam de estourar o tempo morto? O rei era severo nas suas vontades. O povo obedeceu. O povo vivia gretado do sol e dizia que as suas terras eram de nada e de ninguém. O povo usou o tempo.

- Estou a dormir...

- Passaram duas gerações. O rei morreu. O povo morreu com ele. A terra passou a ser conhecida pela seda, pelas amoreiras, e pela sombra. O novo povo saia de casa só para a sombra das amoreiras, e pelo aroma do seu fruto que pintava o chão. Deixou de ser gente gretada pelo sol.

- Durmo... Vá lá, que queres com estas tretas de histórias?

- Podes ser o povo do rei. Usa o tempo e planta. Planta o que nunca imaginaste poderes plantar.

- Já te disse. Para quê e para onde?

- Para viveres e seres feliz no tempo que o tempo te está a dar.

Levantou-se, abriu a persiana, abriu a janela, deixou a mão molhar-se. E decidiu plantar um livro, depois um disco, mais tarde uma árvore e no fim a própria vida. Diz quem o conheceu, que todos lhe recorriam para salvar as suas plantas, tornou-se curador de plantas. Mesmo em dias de chuva e sem sair de casa.

terça-feira, janeiro 19, 2021

DEUS, ONDE ESTÁS?


 

Onde estás, Deus? Onde vives, energia positiva, focada, enraizante? Para onde foste parar corrente otimista e plena de orientações? Vivemos dias que para muitos já foi um filme de cinema, ou uma série incrível, e agora é a realidade. Vivemos dias de medo, isolamento, desconfiança, incerteza, e uma luta esgotante por nos mantermos saudáveis no corpo e mente. E tenho toda a legitimidade em perguntar pela fé que me sustenta. Tenho a certeza que sairei mais forte na resposta, mesmo que não seja a que eu quero. Sempre gostei da dúvida, o que nunca gostei foi de viver nela.

Esta não é uma viagem fácil.

Este 2º confinamento é um insulto, porque mais vale um sacrifício de vida do que a vida em sacrifício. Escolas fechadas, igrejas fechadas, grandes centros de comércio fechados, cultura fechada. Todos por igual, até para sentirmos que todos estamos em pé de igualdade. Estão-nos a morrer mais de 200 pessoas por dia e milhares em urgência, e não sabemos o que será dos infetados daqui a uns meses. Tanta dúvida face à certeza inquietante que temos de ser rigorosos, severos no agir. Isto aplica-se aos que andam de máscara no queixo, aos jantares de políticos, a eleições desorganizadas e que em nada evoluíram, aos que ainda se escapam para casa uns dos outros, aos que se juntam para um cigarro. Estão-nos a morrer amigos, familiares, vizinhos, conhecidos. Os nossos idosos estão mais sós, e são vítimas de um tempo que lhes deveria dar paz e serenidade, mas que lhes traz amargura e desorientação. E todos somos culpados, sempre que não respeitarmos com sacrifício o que nos é exigido, somos cúmplices da morte e da doença.

Não me atrevo a sentir desânimo, stress, angústia. Que dirão os profissionais de saúde, os professores, os agentes de autoridade. Principalmente, o que sentirão? Eles, as suas famílias, os seus amigos… Queria andar para frente estes dias, mas não posso, pelo contrário, eles parecem-me mais lentos e magoados de se viverem.

 

Mantenho-me à tona, claro que sim. Confio no futuro. Confio neste minuto em que escrevo. Mas desconfio do presente, deixei de me iludir, de entrar em piadas bacocas, de responder que está tudo bem. Vivo o que nunca sonhei viver. Todos os dias pergunto, Deus, o que queres de nós? Vou encontrando respostas… aprendi que nos quer no essencial.

Longo caminho, que merda de tempos, o que havemos dizer destes dias, no futuro que virá?

domingo, janeiro 10, 2021

Desliguei o Natal



 Este foi o Natal mais duro, arranhado, ferido e doloroso que eu poderia ter. A minha Margarida não esteve comigo. Não vi os seus olhos pequeninos e brilhantes a olharem para a árvore de Natal, as suas mãos de pele de seda a ajudar-me no presépio, e os seus conselhos na receita certa dos doces da época. 

Estive sempre em esforço para não desabar. Estou cansado da sua ausência. E será para a vida, para todos os natais que terei, a Margarida não estará presente. Nunca mais. E ainda não sinto que ela esteja num outro lugar. O que sinto é falta, ausência, vazio, espaço. 

Sem mãe. Nunca terei outra forma de viver. A amar a vida, mas sempre órfão. Todos os dias. Todos os Natais. E tenho medo de me habituar. Eu quero sentir a necessidade de a ter, porque assim o amor dói menos na solidão de não a ter.


Até já 


sexta-feira, dezembro 25, 2020

BOM DIA, SR GOUCHA



 O meu Manel vai deixar de dizer bom dia a Portugal. Para mim, como cidadão, profissional de televisão e amigo, esta despedida marca uma era. Mais de 25 anos a acompanhar o despertar de um país, a desembrulhar entrevistas, emoções, surpresas, sorrisos e lágrimas, tradições e memória. O Manel é um apresentador com a lembrança do tempo, a delicadeza da dedicação, a preparação de cada conversa como se fosse a primeira.

 Receber tantas manhãs um programa dirigido pela batuta deste homem, merece-nos um Obrigado. Um gigante obrigado. No seminário eu fugia para espreitar a Praça da alegria. Gostava do jeito como o Manel arrumava as palavras, com ironia, e um linguarejar tão criativo. Depois, trabalhei ao seu lado, 2 anos. Já a vida nos havia ligado. Ver o Manel fazer televisão, é assistir ao ensaio dos melhores espetáculos do mundo. Tudo é um detalhe importante. Da roupa à pergunta.

O Manel vai deixar de nos dizer bom dia, e tudo será diferente, porque é de manhã que nos ajeitamos para o dia que vem, e o Manel arrumava-nos a curiosidade, o saber, a estória da história, e lá íamos para o nosso dia, um pouco mais completos. Ter um profissional de televisão que se delicia com o trajar de uma minhota em romaria ao mesmo tempo que nos esmiuça o novo livro (que leu sublinhou) de um ilustre autor da nossa praça, isto tem um nome, grandiosidade intelectual; porque somos feitos de todas estas matérias, e pobres daqueles cuja vida passa ao lado deste todo.

Sempre gostei da vida de manhã, muito graças ao Manel, que me ensinou que o dia e a sabedoria aproveitam-se desde cedo. Obrigado Manel, por mais de 25 anos de bom dia  (estou certo que chega aos 30).

Porque hoje, dia 25 de dezembro, é o teu dia, e detestas despedidas e homenagens, este texto é só um obrigado e parabéns. És um homem a quem a VIDA não deve nada, graças a ti!!

Teu, Hélder