sexta-feira, janeiro 17, 2020

AS MÃES DEVIAM TER SÓ NOMES DE FLORES



                                                                                         o meu alecrim já em flor

Não gosto da expressão melhor mãe do mundo. Não as há. Porque ser mãe é um ofício de alma e corpo, que falha, que se adapta, e que se arranca da carne da alma. Nem sempre são perfeitas, ainda bem, falham, felizmente, para que nós possamos ser gente com espírito crítico e capacidade de assumir erros e fragilidades. Mas, todas as mães deveriam ter nome de flor. A flor é dos acontecimentos mais nobres da natureza. Muitas anunciam a primavera, outras preconizam o inverno, há as que surgem uma vez por ano, as de uma época inteira. Numa flor um fruto, ou uma caixinha secreta de pólen e fertilização. A maçã é o receptáculo floral, tal como o morango. O figo é a flor da figueira. Há flores que se resguardam à noite, ao toque... tantas magias. Numa flor a bondade de um arranjo na natureza, para que o campo seja uma imensa mesa bonita e bem posta. E há lá coisa de mais amor que uma mãe pode querer para a sua casa?

Tenho a sorte de ter nascido de uma Margarida. Flor singela, suave, delicada, mais resistente do que parece, e a lembrar a liberdade do campo. Nunca seremos tão livre como no campo e na praia. A minha mãe sempre teve margaridas à porta de casa, seriam as boas vindas! O mais importante é que sempre lhe conheci margaridas no coração.

Até amanhã

Hélder

terça-feira, dezembro 17, 2019

A VIDA É UM DETALHE



A vida é um detalhe, escrevi esta mensagem a uma amiga e ela, no mesmo segundo escreveu-me o mesmo. SMS, na verdade. Já vos aconteceu, certamente, mas isto só acontece aos certos no mesmo caminho. Não, necessariamente, com as mesmas opiniões, seria uma vida melada em tarde de verão. Curiosamente, a mesma amiga deu-me a melhor simbologia da liberdade, uma planta a furar uma gaiola. Caramba, que bela imagem para quem se quer aventurar no Ser livre, torna-te o mais parecido com uma planta!
Até a liberdade precisa de ser livre, tal como a verdade, caso contrário transforma-se numa conveniência e a conveniência é tudo menos livre e verdadeira, é um jeito que se dá a este e àquele, ou até a nós mesmos.
Fica aqui a sugestão para todos os que ousam ser livres, de dentro para fora.
Obrigado, Cristina, eternamente obrigado! Gosto de ti, livremente.

Hélder


sexta-feira, dezembro 13, 2019

O ABORRECIMENTO DA SOLIDARIEDADE NATALÍCIA



                                                                                      fotografia J.P.F.

O Natal tem tanto de inspirador, meigo, acolhedor, luminoso, como de enjoativo, despropositado e teatral. Não estou a falar da saturação de mesas cheias, quando nem metade se come, e de famílias que jantam em plena paz armada e que basta um dizer que o bacalhau está salgado para se começar a discussão sobre tudo o que estava entalado!

Falo da solidariedade "nataleira". Li um artigo de psicologia que diz:  

“o mecanismo de doação" motiva e mobiliza as pessoas de forma subjetiva a materializarem suas dores, penas, amores, sentimentos diversos que vêm à tona, em forma de Caridade.
Além disso, estudos baseados em neuroimagem e neuroquímica cerebral observam maior funcionamento de certas áreas do cérebro e maior libertação de neurotransmissores específicos quando as pessoas estão envolvidas com sentimentos de cooperação, bondade, altruísmo”
Finalmente percebi. A massa social ajuda porque anda cheia de peso na consciência e pensa que num dia a coisa se resolve e já pode começar o novo ano com a tranquilidade de voltarem a ser uns sacanas que acham que meio mundo está contra eles, que a malta que precisa de ajuda são uns trastes à procura de subsídios e que se as pessoas estão mal é porque fizeram por isso.
Na verdade, todos nós vivemos a iminência de um dia a vida nos meter na rua, numa loucura de solidão e desespero, porque a vida não é meiga para ninguém. Ser solidário é um exercício diário, que deve ser discreto, perseverante, humilde, constante, atento, abdicado e muito, mas muito genuíno. Todos temos um lado mais luminoso, e quanto mais luz dermos, mas o nosso rosto de iluminará.
Se mais vale ajudar uma vez, nem que seja só pelo Natal, do que nenhuma vez? Eu acho que mais vale estar quieto e num dos desejos do próximo ano incluir ser solidário, assiduamente.






quarta-feira, novembro 27, 2019

NEM TODOS OS DIAS SÃO FELIZES



                                                                                                        fotografia J.P.F

A vida não é sempre feliz. Os dias do agora pedem-nos uma felicidade constante, exuberante, contagiante e por aí fora. Mas a verdade é que nem sempre a felicidade tem lugar no nosso coração. Hoje uma mãe abraçou-me em lágrimas porque o filho morreu na idade de ainda fazer nascer sonhos, e não de os morrer. Dizia-me que o normal seria ela morrer e ele viver para falar das memórias dela, e não contrário. Eu só a consegui abraçar e pedir desculpa por não saber dizer nada perante tamanha dor. A mulher, no seu rosto de profundo luto, disse-me que não há nada para dizer, a vida tem de continuar, mas não sabe como. Não faço ideia da dor que é uma tal inversão do ciclo da vida, uma mãe órfã do filho único. Inexplicavelmente triste.

Vim embora, fazer a minha vida. Porque esta é a mais cruel das realidades. As pessoas que nos rodeiam adoecem, morrem, enviúvam, separam-se, perdem-se, e nós continuamos a nossa vida. Porque tem de ser. Porque é a nossa vida. E porque, em bom da verdade, a nossa vida pode continuar. Sorte a nossa. A morte é transformadora. Ainda não sei se para melhor. Quem nos morrer deixa em nós o lugar vazio, e esta é a pior resposta para a vida, para o diálogo, para o abraço, para o amor. Um lugar vazio de nada. Uma não resposta a qualquer pergunta. Fica-nos o que fomos quando éramos vidas antes da morte, fica-nos os momentos que agora serão todos diferentes, as datas de aniversário, as visitas, as gargalhadas, os vícios, os hábitos. Todos os momentos nos recordam quem foi, simplesmente foi. E tudo nos lembra a falta, e como seria diferente se ela ainda aqui estivesse, se ele ainda aqui me abraçasse. As fotografias resgatam os momentos antigos e temos raiva de não ser aquela fotografia que mantém aquela presença, tão perto da realidade que custa acreditar que já não é assim Viveremos para sempre com a ausência, e isto é uma dor cortante, escura, sombria, onde a luz tem muita vergonha de entrar.

Um abraço a todos a quem lhes morreu uma parte da vida.

terça-feira, novembro 19, 2019

VIAGEM. MESMO SEM DINHEIRO



                                                                                                                   HABANA.HR


Tirei esta fotografia em Habana. Confesso, é dos meus países de eleição. A musicalidade, a cor, a autenticidade do seu povo, a resiliência, a história. Não temos outra forma de conhecer um país, a não ser ir. 

Viveria sem muitas das coisas que o meu dinheiro compra, mas dificilmente viveria sem viajar. E a minha jornada ainda agora começou. Caro? Pode ser, depende sempre de como viajas, com quem viajas, e das opções que fazes durante o ano. Mas não precisas de dinheiro para te perderes nas ruas de um país, ires fotografando, olhares a vida das outras vidas, entrares numa mercearia, comer na rua, passear em todas as horas da luz e da lua, procurar as ofertas gratuitas... ires, o melhor verbo para o viajante.

Afonso Cruz tem um livro imperdível sobre viagens, JALAM JALAM, um hino a todo o que se inquieta por novas culturas, detalhes de civilização, cultura da simplicidade fora de portas.
 É pela ferida que entra a luz, é um dos textos. Não pode haver verdade mais absoluta para quem quer curar as feridas da vida, e encontra o remédio numa viagem.

Podemos ser tudo o que quisermos, mas seremos sempre menos se nos deixarmos no comodismo de não ir. É só fazer as devidas opções. Para quem tiver a sorte de poder, ou querer, optar, claro. O regresso de uma viagem nunca nos traz iguais, confesso, já sou muitas vezes diferente daquilo que fui, e raramente volto para trás.

Boas viagens

Hélder


segunda-feira, novembro 04, 2019

SAÚDE, MUITA SAÚDE


                                                                                                  imagem J.P.Freitas

Há alguns anos, sem premeditar, comecei a despedir-me em televisão, e numa vida mais real, com os votos de saúde. É no que acredito, e no que de melhor posso desejar a quem cumprimento, me despeço, ou me vê pelo televisor.

A vida é sempre cheia de planos, estratégias, agendas, sucessos, fracassos, amigos e inimigos, dores de cabeça ao deitar com tanto que ficou por fazer, mas quando a saúde nos falha parece que o nosso corpo ganha uma dimensão extra, sem o qual a vida não marcha; e é mesmo assim. Sem saúde a vida emperra, o amor murcha, as guerras esfumam-se, os planos ficam em páginas em branco. 

A vida tem sido muito generosa comigo, a saúde tem-me agraciado com afáveis dias. Bons sorrisos. Procuro espremer o meu tempo ao essencial. O meu essencial é saúde, amor, paz e trabalho. Por esta ordem, precisamente, sem tirar nem por. Esta é a minha lista de felicidade. Não preciso me confrontar mais com o que a privação de ter um corpo saudável provoca na vida; por isso deixei de ter tantos problemas, e de combater qualquer expectativa e ansiedade, só pelo simples facto de estar a conseguir reduzir a minha vida ao que defini como essencial. E sorrir, sorrir de dentro para fora.

Saúde, desejo-vos muita saúde


Hélder

segunda-feira, outubro 14, 2019

Sobre a vida




A vida não é leve.
É intensa
Analítica
Indefinida.
Na verdade, a vida também é suave.
Branda
Transparente
Fresca.
A vida, é mutante.
Nós somos inconstantes.
Progredimos
Regredimos.
Somos o melhor rosto que a vida conseguiu.
E sabemos que nem sempre conseguimos o melhor que queremos.

HR