segunda-feira, maio 20, 2019

NÃO HÁ AGRICULTORES TRISTES








Somos natureza. Uns mais respeitadores que outros pela essência, mas vimos e vamos para lá. Nos meus 20 anos de televisão é pouco provável que me falte entrevistar pessoas de determinado sector laboral, e nunca entrevistei um agricultor triste. Acreditem, já entrevistei muita gente de áreas de sucesso, gente de palmarés sociais e que estavam afogados em tristezas. Mas agricultores não, sempre serenos, ponderados e felizes com a vida que fazem. Acertaram o relógio interior com o ciclo da natureza, e aprenderam que nem tudo depende nós, a aprenderam a viver do que a terra dá. Eu sei, nem todos os agricultores vivem este sossego de espírito, nem respeito pelo ciclo da terra, mas são poucos.
Sou, também, um jovem agricultor. Há 4 anos que me dedico às abelhas e sim, estou a operar e a sentir uma grande revolução no meu jeito de ser. A vida é rápida, mas as estações do ano cumprem-se no mesmo tempo, a chuva e o sol, são o que sempre foram e dão o que sempre deram. Eu sei que, infelizmente, a natureza reclama a sua ordem natural, porque nós metemos o nariz onde não eramos chamados.
É… a vida pede ciclos de calma à lareira do inverno, doçuras de primavera, relaxe de verão, reconversões de outono. Basta ouvir-nos com a natureza por perto. Há muita gente feliz com o bater do coração da terra.

quinta-feira, maio 16, 2019

TORRE DE BABEL. STOP.

                                                                                              ÁFRICA.2019


Haveria o sonho de uma torre com nome de Babel, onde a língua era entendida por todos. O Senhor assim não quis, para que o homem fosse diferente e universal, tal como comunicacional. Conta-nos o livro dos Génesis, sobre a torre de Babel e a Babilónia. Vale a pena aprofundar. Agora só lhe quero perguntar, quantas vezes sentiu que falava para uma parede, que nem torre chegava a ser? Quantas vezes usou de toda a sua eloquência e a sua mensagem nem penas nas asas ganhou? Pois é, nem sempre falar é conversar. E há milhões de vezes, tal como as estrelas, em que é muito mais fácil conversar e ser entendido por estranhos do que por conhecidos. Certo?

O problema das múltiplas línguas não é não as sabermos, mas sim não as sentirmos. A palavra que se expressa pode ter carne, músculos e pele. Não há nada de mais fascinante do que comunicar com um cego, um surdo, um estranho estrangeiro. Tudo ganha mais intensidade, força, dimensão. Ganha porque queremos MESMO chegar ao outro. No dia a dia sucede-se a coisa. Chegamos quando queremos e quando não estamos para aí virados, somos tijolos a falar para paredes. Afinal de contas, até sabemos o que é um STOP, mesmo que dentro dele se escrevam outras letras e outras palavras. Basta saber não parar a vontade de comunicar. Ser Babel seria não ter fronteiras, línguas nem identidades. Nem o Senhor quereria, porque antecipou, no princípio do homem, o medo que um mundo global acarreta. A mim, não me metem numa forma.

quarta-feira, maio 08, 2019

ONDE GUARDAS A LIBERDADE?




                                                                                    ano 1998


Há uma liberdade, ou muitas liberdades que cabem na grande e única liberdade? E o que é ser verdadeiramente livre? Podes ser livre preso ao corpo inerte, ou és livre numa mente sem amarras? Somos livre porque nos vestimos como queremos, dizemos o que pensamos, agimos com a vontade, não nos reprimimos, somos sexualmente o que somos e somos gente na plenitude do ser-se? É isto?
E chega-nos? Claro que não. Temos a liberdade, conquistamos a liberdade, ou vai-se adquirindo liberdade com o tempo? Nascemos livres, ou condicionados logo à nascença? E onde, onde é que nos sentimos verdadeiramente livres? Dentro ou fora de nós?

Eu sou um pensador assumido. Fraco filósofo, mas dou tempo ao pensamento... E estas questões batem-me à porta dezenas de vezes ao dia. Não tenho respostas para quase todas. Mas exercito a minha liberdade diariamente. Não me contrario na felicidade e na tristeza, deixem-me estar. Não me obrigo a quase nada que não me faça bem. Não estou com quem não gosto, sempre que posso escolher. Faço o que me apetece fora das conveniências. Sim… ando no caminho da liberdade. Honestamente, acho que há uma liberdade, a maior de todas, que se chama maturidade. Infelizmente com a adultez vem os desprendimentos do que até era agradável, mas não me fazia bem. Vem o luto. Vem uma série de dores. Não acho nada que a vida seja sofrimento, mas acho que, claramente, há uma dose de sofrimento inerente ao ser-se maduro, por conseguinte, ao ser-se livre. Tudo, mas tudo, é um exercício. Acredito profundamente. Nós podemos ser tudo, na dose do bom, na dose do mau. A liberdade é um grande e pleno exercício. Usufruir dos direitos à liberdade, pede de nós a maior das provas, a mais inteira das responsabilidades e seriedade. Não há pessoas sérias que não sejam livres. Não há pessoas imaturas livres.
Onde somos livres? Eu, definitivamente, na praia.

Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade
.
Sophia de Mello Breyner Andresen


PS As fotografias foram tiradas na minha praia, a de Esmoriz. ano de 1998. Pelo meu amigo Juca. Numa das fases mais negras da minha vida. E sim, a praia fez-me sorrir e recomeçar-me. E sim, o cabelo estava horrível!! :))))))

quinta-feira, abril 25, 2019

HÉLDER, JÁ NÃO ÉS QUEM ERAS !




Na verdade, não sou nada quem era. Porque criei uma opinião que, orgulhosamente, não é sempre a conveniente, porque penso no que digo e quando pertinente, digo; expresso-me, porque vejo e retenho, porque ouço e destrinço. Porque não alimento verdades que servem interesses.

 Pobres aqueles que não sabem o valor dos olhos, da boca, das mãos livres, dos ouvidos astutos. Antes deste saber dos meus sentidos, recolhia-me dentro de mim, com um certo medo da afirmação. Mas caramba, que medo pode haver em ser fiel a mim e não andar ao sabor da opinião dos outros, como bailarina de vontadinhas que não as nossas? A sociedade, a família, os amigos, os colegas, têm uma certa habilidade em nos esmagar o eu, e só nós podemos salvar a nossa identidade. Só nós.

A vida exige atenção, a atenção pressupõe mudança, e quem não nos acompanha fica pelo caminho, aquele caminho que visualizamos para a nossa vida, e tantas vezes o retratamos em belas fotografias, selfies incríveis e frases feitas, ditas por outros. Não acredito em caminhos solitários, mas também sei que deixamos no passado quem não nos acrescenta para futuro. Sei bem do que falo. E estou certo que quem me lê também já sentiu este desapego para a demanda do avançar caminho!

A vida das pessoas livres não é fácil, mas é tão mais intensa, sedutora, perfumada, rasgada, autónoma, descalça, serena, revolta, levantada, independente.

Tenho 43 anos. Nunca usei tão bem da razão livre dos meus sentidos, da minha inteligência emocional, como agora. Esta liberdade não tem preço. Não vale a pena taparem-nos os sentidos com fitas coloridas ou camufladas de bondade e inocência. quem tentar abafar-nos a existência é como que um assassino de carácter. Matar um carácter é um crime indefensável no tribunal que julga as almas pesadas de culpa e de falsa moralidade. Nem todo o ladrão que rouba para comer, deixa de ser ladrão por ter fome.

Natália Correia escreveu tão bem: Não há revolta no homem que se revolta calçado. Tenho a sorte de desde muito cedo gostar de andar descalço; agora percebo porquê!

António Variações deixa nesta canção uma bela lição!


Divirtam-se.

sexta-feira, abril 12, 2019

AMOR DE ALECRIM






Com o risco do excesso, não vivo sem alecrim. É um arbusto, abunda em Portugal, gosta de lugares secos, e se o tempo for quentinho, dá flor todo o ano. A medicina e a farmacêutica gostam do seu uso. Das flores do alecrim retira-se uma água destilada que se chama: água da rainha da Hungria, sorte da rainha que desta água faz uso. A flor é singela e de um azul apaixonante. Uso a flor na minha cozinha, o alecrim nas minhas infusões, nas batatas assadas, no pão torrado com azeite; coloco-o na mesa, para receber visitas, e ofereço-o sempre a quem mais gosto. Um vaso de alecrim, é o amor plantado. Os romanos faziam coroas de alecrim e com elas celebravam divindades. Para o cristão é símbolo de fidelidade. Para mim, é a melhor expressão da festa.

O alecrim serve a dor e a alegria. Nos países nórdicos, os caixões são cobertos de alecrim. Acredito que para perfumar e perpetuar a vida. Eu uso-o sempre para celebrar. Há um provérbio que nos diz. Quem pelo alecrim passou e dele não colheu, ou nunca teve amor, ou dele se esqueceu. Eu tenho uns 10 alecrins em casa, e quando na rua passo por um, apanho sempre um raminho. Enquanto lhe escrevo, bebo uma infusão perfumada de alecrim. Tenha alecrim perto de si, porque rapidamente se vai aperceber que aos molhos, só mesmo os de uma vida boa!

até já

quinta-feira, abril 04, 2019

OS LIMÕES DESTA VIDA!!






Quando olho para um limoeiro olho para um lugar perto da perfeição. Frutos que me fazem lembrar o verão de todos os anos, um aroma a liberdade, a perfeição na cor. Apanhar um limão é a soberania da vontade própria. Afinal é fácil ser soberano de nós mesmos. Não que o limão seja o tesouro que nasce nas árvores, mas é a melhor personificação que tenho do tempo. O meu tempo de infância, quando fazia limões espremidos na água fresca do poço; o meu tempo de espera para que o limão ganhe a cor certa para ser colhido, o tempo de o descascar, espremer, para usar à volta de uma mesa.

Limão e solidão rimam, provavelmente andam juntos, neste movimento animal da existência. Honestamente, casam-se bem. Precisamos de limão para uma boa limonada, e de solidão para o crescimento. Não há outro remédio para a maturidade, uma boa dose de solidão. Olhar para a janela, perder-se nas paredes de casa, viver no horizonte mais infinito que avistamos da varanda. Incomodarmo-nos com os nossos pensamentos até que eles sejam pronunciados. Confrontar a ideia. Chegar perto de um limoeiro e apanhar um cesto de solidão, e só depois fazer com ela a vida, como se fosse limonada, como se tudo fosse um solene limão. Da mão ao pensamento, da boca ao sumo, do corpo à inteligência.



Arranjo gráfico David Reis

segunda-feira, março 25, 2019

DÁS AS MÃOS OU QUE TENS NAS MÃOS?




- O que fica quando dás?
- Ficam as mãos.
- Mas se dás as mãos com que mãos voltas a dar?
- As mãos voltam a crescer, para darem de novo.
- Portanto, o que dás não é o que está nas mãos?
- Não, isso é só para embelezar, o que dou são, mesmo, as minhas mãos. Mas como estão velhas, coloco-lhe sempre coisas bonitas. As pessoas precisam de coisas bonitas para animar os dias.
- E as mãos que dás nunca te fizeram falta?
- Às vezes fazem, e peço umas a quem gosto.
- E nunca deste à pessoa errada, ou que não merece?
- Isso já não é da minha responsabilidade. Eu dou. Depois, não depende das minhas mãos; isso já compete às mãos que recebem, o saber receber. Não basta precisar...
- Está bem, e se não precisarem, nem souberem?
- Provavelmente deixarão de receber. Ou não. Enquanto se dá não se pensa em mais nada
- E deram-te sempre as mãos?
- Já me aconteceu ficar muito tempo sem mãos. São dias tristes. Mas fica-me a felicidade por ter dado. Quando volto a receber mãos, dou-lhes mais valor, pela ausência que lhes senti, e redobro a vontade de dar, porque nunca sabemos o que não fizermos, nem dissermos.
- Isso é interessante, mas um pouco bizarro. E o que recebes por dar?
- No início queria sempre algo em troca, com o tempo aprendi a esperar que a felicidade chegasse.
- Que felicidade?
- A de dar livremente. Dar o que nos faz falta, o que até queríamos para nós, o que vem do nosso âmago, o que nos esvazia o peito. Dar e só esperar pela felicidade.
- Mas ela pode não vir.
- Muitas vezes não vem, é verdade. Mas estou a aprender a esperar mais. Cada dia mais. Quanto mais souber esperar, mais saberei dar. A espera é a mais sapiente das ciências. Esperar é saber responder, saber respirar, saber cumprir a generosidade, a paciência, a observação. Há um pássaro chamado andorinhão preto e que voa 10 meses seguidos, à procura de um novo destino. Esperar a voar! A forma perfeita de qualquer espécie de espera!!
- Impossível para nós.
- Se só se te achares nesse corpo, sim. Mas se cultivares a profunda dimensão da tua mente, és capaz de conseguir.
- Acho que caia.
- Tens de emagrecer os teus pensamentos, eles são o mais pesado que há em ti.

Legenda da imagem. A minha bota de quando tinha 2/3 anos. Perdida numa arrecadação. Foi-me dada pelo meu pai num dia de primavera e de muita luz. Encontrou-a sem querer, e arrumou-a num lugar à chuva e ao vento, onde eu a via sempre, e não lhe dava grande significado. Esperou que eu percebesse o sentido da bota com a qual aprendi a andar seguro, a fazer caminho. Esperar o momento para dar, e que se perceba o sentido limpo da dádiva!


Tratamento de imagem: David Reis