quinta-feira, janeiro 06, 2022

Dia de REIS...


                                                  

 Neste dia, o meu avô, que era negociante de vinho, ia ao Porto mandar fazer um novo fato, no alfaiate de sempre, escolher o seu chapéu de novo ano, e comprar tudo para a ceia de família, o bolo de frutas e o bacalhau. O meu avó era um homem de família, gostava da boa mesa, de vida confortável, do seu trabalho e da sua família, amava muito da sua família. Um avó de riso fácil e de rigor no coração e na palavra.

 A noite era de reis, da família, ele tocaria na sua guitarra, a minha avó estaria aflita na cozinha, com tantos detalhes de dia solene, e no final todos jogavam às cartas e falavam, necessariamente, dos outros dias de reis, com saudades e gargalhadas à mistura, a quererem adivinhar o próximo ano.

Nunca conheci o meu avó materno, mas recebi tantas histórias da minha mãe que sinto que o conheci e com ele vivi estes dias de festa e família, quando tudo fazia um sentido diferente, ou até mesmo sentido, na totalidade da palavra.


Chamava-se Augusto Reis, o nome que eu gostaria de ter, ou que os meus filhos tivessem, um dia...

Bom ano. Bom dia de reis...


Até já.

quarta-feira, dezembro 22, 2021

COMPROMISSO

 

                                             

Nunca vos aconteceu falharem convosco de tal forma que até vocês têm vergonha de dizer o que quer que seja? Parece parvo, mas é verdade, há gente com essa hábil capacidade, colocar o animal selvagem à solta e  o ser humano na jaula. Ainda que alguns homens merecessem uma bela de uma estadia numa jaula, e nenhum animal deveria de ser enjaulado. Mas serviu só para o exemplo. Dar a volta à questão, é o que é.

Para mim tudo se resume ao compromisso. É tramado dizer a verdade, chegar a horas, dizer que não, dizer que sim, querer e não querer, ser honesto, perder e assumir culpas, dividir e perdoar. É tudo uma questão de compromisso, acredite. 

Há tempos ofereceram-me um serviço, implicava horários, dias, e tudo foi falhando. Na verdade ofereceram-me, mas deixei de querer, senti que se tornou num favor, inconveniente para mim, e não suporto que me façam sentir como que toma lá porque é de graça, e por isso aguenta. Para isso pago, vou aos sítios e está feito. Tenho um amigo que não aceita borlas, cada vez o percebo melhor. Até na oferta o compromisso falha ou é interesseiro...

Mas isto aplica-se ao trabalho ( onde é difícil dizer a verdade e assumir consequências), às amizades ( onde nem tudo é como queremos), aos namoros, aos jantares de amigos ( onde uns atrasam-se, outros pagam, e outros não a tudo).

Às vezes apetece-me "descompromissar" com uma série de gente, contratos, serviços, e afins. Pode ser que seja a resolução para 2022.


Divirtam-se





terça-feira, novembro 02, 2021

O SILÊNCIO ASSUSTA-TE?

                                                                                           eu...

O silêncio. Que opinião têm das pessoas que gostas do silêncio? Não são as que cultivam agora o silêncio, com a descoberta dos retiros, meditações e afins. E que bom que assim seja. Mas não, falo das pessoas que sempre gostaram do silêncio. As que falam baixo, mesmo que se queiram impor, as que preferem cafés sem música, shoppings sem música, e sentem que um restaurante barulhento, azeda qualquer vinho.
Sorte a minha nunca cultivei o silêncio, sempre estive casado com ele. E todos confundem o rapaz calado com o rapaz tímido, frágil, inexperiente; foi assim toda a minha vida, e na verdade sou o oposto, e na verdade (novamente) rio-me muito destas atabalhoadas avaliações. Eu só gosto do silêncio e lido com dificuldade com as metralhadoras de palavras, ditas e escritas. Para mim, também há livros cheios de ruído.

Gosto do silêncio porque me faz bem, é só isso. Tal como gosto de vinho tinto, roupa, praia, viagens, fotografias, massa, chuva, árvores, terra, séries, livros, plantas, cobertores, mel. Simples, não é? Mas eu sei, há os que não acham, e confesso que lhes vejo uma certa piada. Porque é tão fácil analisar o outro ao contrário do que aquilo que ele realmente é. 

Até já.

sexta-feira, setembro 24, 2021

RI-TE PORQUE AMANSA

                                                                           fotografia José Gageiro

Ri-te porque abranda a vida.

 A minha mãe ria-se tanto que fechava os olhos e deixava de ver, e ria-se ainda mais com isso. Lembro-me das tardes passadas com a prima Mimosa, entre chá e costura, e grandes gargalhadas. Ao ouvi-las, eu criança, sentia que a vida estava perfeita e nada de mal poderia acontecer, nem naquele momento, nem nunca.

Sabemos que não é assim. O riso não apaga tudo, mas que alisa as coisas complicadas, ai isso sim. Na escola, por muitas vezes, fui expulso da sala de aula porque me estava a rir, perdidamente. Saiu-me cara a gargalhada, mas não me importava, só me estava a rir, até doer a barriga. O professor é que estava azedo, e o meu diretor, pouco melhor. Mas eu... já tinha rido para limpeza total, e quase me tornava impenetrável ao raspanete e castigo, porque só me estava rir, ora bolas!

 Ainda hoje, tenho várias crises de riso, fosse toda a crise vestida de sorriso. Quem me conhece bem sabe que gosto do riso, e digam lá que muito riso, pouco juízo, porque só isso me faz rir mais um bocadinho. Com o tempo desenvolvi um sorriso com os olhos, tenho-o posto muitas vezes. Aligeira-me a vida, por dentro e por fora. Acreditem.

Experimentem.... rir um pouco mais, até mesmo para aqueles que mereciam a nossa melhor tromba. Porque o sorriso, quando vem de dentro, é, alarmantemente, poderoso.

sábado, agosto 07, 2021

A VIDA É SEMPRE FÉRTIL

 


A vida é sempre boa. Fértil, como um ventre materno. Nele cabe o futuro, e não há futuro mirrado de sonhos e alturas. Somos feitos da matéria do dia, o dia seguinte.

Sugiro que o próximo dia seja visto sempre no lugar que mais amamos. Na praia. No quarto do filho. Nas mãos da mãe. No abraço do pai, do irmão, do amor. Na varanda branca. Nas escadas luminosas. Escolham o lugar seguro,  como se faz na meditação, e olhem para o vosso futuro, se for preciso vistam-se de esperança, porque amanhã tudo será melhor, vai ver que sim. O nascer do sol é o momento mais Fértil de todas as horas do dia. 


Até... amanhã 

segunda-feira, julho 05, 2021

O QUE QUERES FAZER?


 Há dias, numa entrevista à minha querida Cristina Ferreira, ela perguntou-me: mas o que queres ser? Só a astúcia pura, delicada e inteligente da Cristina Ferreira para me despertar para os meus caminhos... Tão bom. Tenho 46 anos, e abri na minha vida lugares que me permitem perguntar, afinal, que sítio queres para a tua vida? Onde vais-te cumprir, que ofício, que lugar? Não sinto que haja sempre necessidade de escolher, a vida vai-nos dando e tirando, e a coisa torna-se clara. Ou seja, a vida vai-nos escolhendo, também, caminhos que plantamos, como árvores.

O importante è dar à vida opções... o resto acontecerá. Eu sei.

 Tenho-me dedicado à meditação, por convite sereno da minha tão delicada e preciosa amiga Cristina Alves ( já lá vão 20 anos de nós). A Cristina tem-se erguido, numa vida alucinante, pela meditação. Mente sã, corpo forte, e coração limpo, é assim a Cristina. Tão minha, e quem a vai tendo, nunca mais a quer deixar, porque nos acrescenta. A meditação a que ela me seduziu, tem-me serenado, feito olhar ainda mais para dentro de mim, fechar os olhos e fortalecer-me; e tudo isto levo para os meus caminhos. Apresentador da RTP, apicultor e escritor. A música está-se a diluir. E aqui ando eu, feliz nos trilhos, a ser e a fazer tudo isto, sem optar, mas a exercer. Serenamente. Com felicidade. Se um dia tiver de escolher? Eu sinto que serei escolhido por estes caminhos, não vou precisar de ser eu a escolher. Até lá... faço o caminho, a assobiar de alegria. 

Duas Cristinas fizeram-me pensar em tanto disto. A Cristina que pergunta e observa, e a Cristina que medita e contempla. Que bom, que sorte a minha! Eternamente grato.


Hélder

domingo, junho 13, 2021

A TIRANIA DA LIBERDADE

 


Não há maior liberdade do que a de poder. Poder recomeçar, acabar, fazer silêncio, rir alto, andar nu pela casa, vestir como se quer, comer fruta das árvores, abrir as mãos numa serra alta, apanhar chuva, apanhar sol. Calar-se durante uma discussão. Olhar. Dizer não. Dizer sim. Dizer o que ninguém estava à espera. Ter opinião. Expressar-se.

 Uma tirania livre; a tirania é cruel, injusta, e a liberdade também é, para com todos os que não sabem o verdadeiro grito do que é ser-se livre. Tenho pena dos amarrados; amarrados a complexos, a favores, a compromissos ridículos, amizades distorcidas, vergonhas, medos, palmadas nas costas, mal dizeres, enfim... tenho pena dos medíocres, um medíocre nunca será livre. Vai ser sempre pequeno, atado à pequenez. Um Portugal dos pequenitos em forma de alma, e para sempre, e sem encanto, muito menos ...com liberdade.