terça-feira, março 12, 2019

RIR DA BARRIGA AOS OLHOS





Aprendi a sorrir desde muito novo. Aprende-se a rir como se aprende a comer. Não duvide. A minha mãe foi a minha ensinadora. Ria-se tanto. Quando ria, os olhos choravam-lhe de alegria, a boca não se fechava de gargalhadas, era uma festa constante. Ria-se com as brincadeiras dos cães, com os sonhos que lhe saiam muitas vezes um pesadelo. Ria-se quando me via a andar de bicicleta, de tão torto que ia. Ria aquele rir de doer a barriga e fechar os olhos. Que saudades.

O melhor sorriso é o que tem ligação da alma aos olhos. Este não se aprende facilmente. Educa-se. Cultiva-se como as flores. Trata-se como o diafragma na respiração.

Sou de sorriso fácil. Mas rio cada vez da alma para os olhos. A vida ensurdece os nossos sorrisos. Às vezes o sorriso anda em subsistência, certamente já vos aconteceu. Mas há um sorriso que é secreto, sorrir por dentro. É a maior proximidade da paz que eu consigo ter. Esse sim, é uma arma poderosa, indomável, dilacerante, destruidora de cérebros carregados de maldade.

Para culminar a roda gigante e complexa do sorriso; há  a felicidade na tristeza. Aquela mesma que só sente quem a tem; não é essa que nos tira o riso. Os que sabem rir por dentro. Porque felicidade não é alegria, e tristeza não é infelicidade. Fiz-me entender?

Eu cá continuo. Entre dias felizes, sorrisos de ventre e com os olhos a espelhar o que só por dentro se sente.

Até já

sábado, março 09, 2019



Imagina que o barco é o que sobra ti
Navegas no único lugar da sobrevivência
Sem foz de mar
Sem âncora de areia que seja
És tu e os teus braços
Que serão remos
A tua língua será leme
E a tua alma uma corda seca
Agastada pelo sal e pelo sol
Agora só contas tu
Para a tua salvação
Para a tua navegação 

quinta-feira, março 07, 2019

MENDIGAR POR AMOR




                                                                                auto retrato


Mendigar reciprocidade de sentimentos é pisar a alma com um sapato de salto alto. Já pela sua natureza de significado, o verbo mendigar pressupõe uma acção que vai viver da caridade de um segundo ou terceiro elemento da história. Ou seja, sem o outro, essa pessoa nem a quem mendigar tem, portanto irá mendigar-se a si própria, até que a sua vida interior esteja mirrada e consumida pelo monstro de não ter quem. Sim, a frase termina assim, não pense que me esqueci do resto do texto!

Ter quem, é o melhor da vida. Ter quem te ouça, quem te queira, quem goste de fazer sexo contigo, quem te pergunte sobre ti, quem invista na tua carreira, quem te acrescente e te meta no lugar; ter quem de ame com defeitos que sabe que ainda irá conhecer, quem te mime, quem te acompanhe em silêncio, quem te abrace, chore contigo, ria contigo, vibre, te critique, te aumente, qual fermento; ter quem te diga a verdade, seja honesto, não faça fretes contigo, te pergunte se dormiste bem e se o almoço foi bom, quem te olhe para dentro dos olhos, quem te veja em potência e acto, te acredite, te mova e demova, te conheça as frase de conveniência para esconder tristeza, te sinta feliz sem o teres de dizer, te ouça calado, quem te ouça sem falar dela própria à tua terceira palavra, ter quem é quase o melhor da vida. E todos estes quem... não se aplicam só a amigos e amantes. Há tanta gente que nos passa na vida e num destes modos de estar, ficam para a vida toda. E tudo isto é amor ou desamor. Nem mais, nem menos.

Mendigar por qualquer um destes "ter quem", é simplesmente, o maior nojo da nossa existência. A lesma e homem distinguem-se pela coluna, também. Andam curvados os mendigos, e os que nem a quem mendigar têm, quase que tocam com a cabeça no chão. São contorcionistas do desespero.

sexta-feira, março 01, 2019

Deixa-me

Deixa que a minha solidão se veja
Que o meu corpo se mude
Que os olhos se fechem
Deixa-me estar aninhado em mim
Nos cantos todos de mim
Deixa me calado
Sem voz
Sem luz
Sem expressão
Deixa-me mudo e com fome
Deixa-me sem compreensão
Esquecido no meio de uma casa
Não olhes por mim
Nem olhes para mim
Deixa-me estar quieto
Parado de sangue e saliva
Deixa-me nu
Que vestidos andam os cívicos
E eu, hoje, não me pertenço
Nem te pertenço
Deixa-me na raiva e no sossego simultâneo
Deixa-me nesta paz mansa e na guerra que se segue
Deixa-me na minha loucura
Porque loucos somos poucos
E eu já fui muitos.
Deixa-me estar
Por aqui
Ou por sítio nenhum
Para que nem eu me possa encontrar

quarta-feira, fevereiro 20, 2019

O ESPÍRITO DAS COISAS


Que nome dão a cada coisa da vossa casa? São só coisas, ou são a memória que se aviva, a energia de um tempo passado? Esta chaleira da fotografia, era onde a minha mãe fazia o café da manhã, durante uns bons 40 anos. Há tempos ela decidiu desfazer-se dela, quando eu soube, corri para o lixo e só parei quando a encontrei, perdida entre restos de vidas. Lá estava ela, a cafeteira que me ensinou o sentido das manhãs, do acordar cedo, do café delicado e rigorosamente medido, com amor e cevada! Como posso eu olhar para este objecto e chamar-lhe chaleira?! Não, esta chaleira é a manhã ensinada pela minha mãe, a vontade dilacerante de começar os dias, vencer dores e problemas, sorrir para os primeiros raios de sol.

Sou teólogo de formação e academicamente jornalista. Ou seja, a fé inundou-me o conhecimento, e a inquietação da duvida e da curiosidade enchem-me os dias. Nunca embalei nas energias das pessoas, muito menos na dos objectos. A única energia que o mundo se me apresentava era a de Deus e da Fé. As voltas da vida. Hoje, a minha fé no divino multiplica-se pela energia radiante, ou não, de algumas pessoas, e rodeio-me de objectos que espicacem a corrente positiva da vida; objectos que me falem directamente à mente e ao coração, me despertem boas memórias e com elas boas vibrações, mesmo de um passado que nunca regressa ao ponto de partida, mas que me foi fascinante, num determinado dia e lugar. A espiritualidade tão metafisica que me ensinaram na teologia clássica, converteu-se também em poemas, fotografias, quadros, músicas, rendas, móveis, roupa, livros, e esta chaleira. Cada uma das minhas coisas só tem sentido na minha cronologia espiritual e carnal, e são essas coisas que me alimentam o maior dos meus segredos e tesouros, a memória. E se Deus nos fala ao subconsciente, as coisas de amor falam-me à memória. 

Por isso as coisas que têm historia, têm também espiritualidade, porque não pode haver transcendente sem haver objectos que reflictam o que a mente quer conhecer. Uma casa não é acolhedora pelo que compramos para a encher, mas pelas coisas que ela tem de espiritual e de memória. As coisas da nossa vida e que só fazem sentido na nossa mesma vida. Falam de nós. E sim... já entrei em casas belissimamente decoradas e soaram-me a vazia e geladas, algo falhou na ordem das coisas. Podemos comprar tudo, menos as coisas que reflictam memórias energéticas de momentos felizes e únicos. Honestamente, até podem ser momentos menos felizes, sabemos que de tristeza também nos erguemos.

Sophia de Mello Breyner, escreveu em 1972 o magnânimo livro: O nome das coisas. Com ele aprendi a importância da Grécia, dos deuses, do trigo, da solidão, da revolução, dos retratos e dos museus. Ela nomeou espiritualmente as suas coisas. E eu só a percebi 20 anos depois de a começar a ler. As coisas têm um nome que vai para além do próprio nome, e sem elas vem a maior das solidões.


                      CORTARAM OS TRIGOS. AGORA
                      A MINHA SOLIDÃO VÊ-SE MELHOR

                                            SophiaM.B. Andresen in O nome das Coisas

domingo, fevereiro 10, 2019

SOBRE A MÚSICA DE MIM






        

       




A música nasceu na minha vida, quando me apercebi que as palavras podiam ser um som harmonioso, musical. Um poema cantado é das expressões artísticas mais plenas que posso consciencializar.
Estudei canto gregoriano, e aí, ao ler uma pauta, apercebi-me da força de uma sílaba dita com a escala de uma nota, numa sintonia de vozes, cantadas por gente que nem sempre estava em plena harmonia. Cantar uma peça de gregoriano na Sé Catedral do Porto, é das experiências mais conciliadoras que alguma vez experimentei. Deus despojado de arranjos.

Quando abandonei a minha vocação, a música continuava a vibrar-me No sangue, estudei canto na escola de jazz do porto, tive professores de todo o mundo. Aí apercebi-me da universalidade da música e da identidade da mesma. Uma professora alemã, de uma rigidez atroz, onde a regra fazia sentido. Ou era ou não era, como na vida. E uma doce professora brasileira, de candura no poema a lembrar uma Elis de sempre. A minha banda, Pólen, surge por estes anos, já lá vão mais de 20. Pelo caminho estudei piano e guitarra, um péssimo músico instrumental!

A música era a parte mais expressiva da minha comunicação. Anos mais tarde estudei canto à capela, quanto menos, melhor. Eduquei a afinação. Ouvi-me. Há um autismo de discurso que perdemos quando ganhamos consciência da voz. Dei o tempo necessário e passei para para canto lírico, sempre fui barítono, havia que abrir os pulmões e explorar a minha cabeça, como difusora de som e não só de ideias. Tornei-me caixa da minha própria voz. Eu era dos que falava baixo. No lírico aprendi que o corpo não é o que te define, é a tua voz, chegar ao fundo da sala sem gritar, colocar-me na acentuação musical certa e determinada. Ainda uso esta técnica para fazer televisão e para ir ao mercado, temos de saber o que queremos, muda a escala!

Anos mais tarde voltei ao jazz, mas com aulas privadas, queria um professor a olhar para mim e dar-me o ritmo libertino, africano e americano, das boas regras do jazz. Educar a abertura de boca, a colocação da simplicidade nas palavras, um despir-me de adereços. E eis-me no ponto que sempre quis. Faço da minha voz o que quero, como quero. Sei dos meus limites, sei da minha estética vocal, conheço o meu aparelho. A música, tem menos palco nos meus dias, mas ganhou mais ouvido, mais recato. Nem sempre ter é conquistar. Sou mais homem, na plenitude da humanidade e espiritualidade que me constitui, porque sou músico. Não pelas músicas que fiz, poemas de musiquei, ou palcos onde cantei; sou mais porque pela música percebo o silêncio, o único lugar a partir do qual a música e a vida se compõem. 

Abraço

HR





segunda-feira, janeiro 28, 2019

A força da lareira





Há um momento em senti, agora sou adulto. Quando tive a minha lareira, a acendi, abri um vinho tinto, e usufrui sozinho, à hora que eu quis. Fiz-me homem. É, não foi preciso muito mais.

A liberdade do fazer tem um preço inquestionável. A determinação em conquistar essa liberdade é a prova dos nove de que se é capaz, até pode não apetecer mais. Nunca o lume me aqueceu tanto. Acender uma lareira tem ciência. A lenha miúda no princípio, depois um ou dois paus bem secos e mais adiante um tronco que lhe dê o sustento para o tempo.

Mas o mais importante é que a lenha que vais usar foste tu que a conseguiste. Neste momento és independente.  Porque o fogo que te aquece a casa foi gerado por ti.

Parece simples. Eu sei. Mas não é. Há muita lenha verde a ser vendida como seca e tanta lareira que se abafa no próprio fumo.

HR