quinta-feira, fevereiro 11, 2021

LEVANTA-TE.





- Anda, levanta-te.

-Para quê?

- Não é para quê, é porquê.

- E então? Tenho sono e não tenho mais nada. Está a chover, não tenho roupa de chuva. Mesmo que tivesse não posso sair, mesmo que pudesse sair, não tenho para onde ir.

- Só bons motivos para te levantares, não teres motivo e teres tempo.

- Tempo para?

- Tempo para viveres com tempo.

-Isso é para filósofos.

-Isso é para os inteligentes.

-Não sou nem uma coisa,... nem outra! Vês?! Deixa-me em paz. Andor.

-Um dia um rei mandou o seu povo plantar amoreiras. O povo estranhou. Porque haveriam de estourar o tempo morto? O rei era severo nas suas vontades. O povo obedeceu. O povo vivia gretado do sol e dizia que as suas terras eram de nada e de ninguém. O povo usou o tempo.

- Estou a dormir...

- Passaram duas gerações. O rei morreu. O povo morreu com ele. A terra passou a ser conhecida pela seda, pelas amoreiras, e pela sombra. O novo povo saia de casa só para a sombra das amoreiras, e pelo aroma do seu fruto que pintava o chão. Deixou de ser gente gretada pelo sol.

- Durmo... Vá lá, que queres com estas tretas de histórias?

- Podes ser o povo do rei. Usa o tempo e planta. Planta o que nunca imaginaste poderes plantar.

- Já te disse. Para quê e para onde?

- Para viveres e seres feliz no tempo que o tempo te está a dar.

Levantou-se, abriu a persiana, abriu a janela, deixou a mão molhar-se. E decidiu plantar um livro, depois um disco, mais tarde uma árvore e no fim a própria vida. Diz quem o conheceu, que todos lhe recorriam para salvar as suas plantas, tornou-se curador de plantas. Mesmo em dias de chuva e sem sair de casa.

terça-feira, janeiro 19, 2021

DEUS, ONDE ESTÁS?


 

Onde estás, Deus? Onde vives, energia positiva, focada, enraizante? Para onde foste parar corrente otimista e plena de orientações? Vivemos dias que para muitos já foi um filme de cinema, ou uma série incrível, e agora é a realidade. Vivemos dias de medo, isolamento, desconfiança, incerteza, e uma luta esgotante por nos mantermos saudáveis no corpo e mente. E tenho toda a legitimidade em perguntar pela fé que me sustenta. Tenho a certeza que sairei mais forte na resposta, mesmo que não seja a que eu quero. Sempre gostei da dúvida, o que nunca gostei foi de viver nela.

Esta não é uma viagem fácil.

Este 2º confinamento é um insulto, porque mais vale um sacrifício de vida do que a vida em sacrifício. Escolas fechadas, igrejas fechadas, grandes centros de comércio fechados, cultura fechada. Todos por igual, até para sentirmos que todos estamos em pé de igualdade. Estão-nos a morrer mais de 200 pessoas por dia e milhares em urgência, e não sabemos o que será dos infetados daqui a uns meses. Tanta dúvida face à certeza inquietante que temos de ser rigorosos, severos no agir. Isto aplica-se aos que andam de máscara no queixo, aos jantares de políticos, a eleições desorganizadas e que em nada evoluíram, aos que ainda se escapam para casa uns dos outros, aos que se juntam para um cigarro. Estão-nos a morrer amigos, familiares, vizinhos, conhecidos. Os nossos idosos estão mais sós, e são vítimas de um tempo que lhes deveria dar paz e serenidade, mas que lhes traz amargura e desorientação. E todos somos culpados, sempre que não respeitarmos com sacrifício o que nos é exigido, somos cúmplices da morte e da doença.

Não me atrevo a sentir desânimo, stress, angústia. Que dirão os profissionais de saúde, os professores, os agentes de autoridade. Principalmente, o que sentirão? Eles, as suas famílias, os seus amigos… Queria andar para frente estes dias, mas não posso, pelo contrário, eles parecem-me mais lentos e magoados de se viverem.

 

Mantenho-me à tona, claro que sim. Confio no futuro. Confio neste minuto em que escrevo. Mas desconfio do presente, deixei de me iludir, de entrar em piadas bacocas, de responder que está tudo bem. Vivo o que nunca sonhei viver. Todos os dias pergunto, Deus, o que queres de nós? Vou encontrando respostas… aprendi que nos quer no essencial.

Longo caminho, que merda de tempos, o que havemos dizer destes dias, no futuro que virá?

domingo, janeiro 10, 2021

Desliguei o Natal



 Este foi o Natal mais duro, arranhado, ferido e doloroso que eu poderia ter. A minha Margarida não esteve comigo. Não vi os seus olhos pequeninos e brilhantes a olharem para a árvore de Natal, as suas mãos de pele de seda a ajudar-me no presépio, e os seus conselhos na receita certa dos doces da época. 

Estive sempre em esforço para não desabar. Estou cansado da sua ausência. E será para a vida, para todos os natais que terei, a Margarida não estará presente. Nunca mais. E ainda não sinto que ela esteja num outro lugar. O que sinto é falta, ausência, vazio, espaço. 

Sem mãe. Nunca terei outra forma de viver. A amar a vida, mas sempre órfão. Todos os dias. Todos os Natais. E tenho medo de me habituar. Eu quero sentir a necessidade de a ter, porque assim o amor dói menos na solidão de não a ter.


Até já 


sexta-feira, dezembro 25, 2020

BOM DIA, SR GOUCHA



 O meu Manel vai deixar de dizer bom dia a Portugal. Para mim, como cidadão, profissional de televisão e amigo, esta despedida marca uma era. Mais de 25 anos a acompanhar o despertar de um país, a desembrulhar entrevistas, emoções, surpresas, sorrisos e lágrimas, tradições e memória. O Manel é um apresentador com a lembrança do tempo, a delicadeza da dedicação, a preparação de cada conversa como se fosse a primeira.

 Receber tantas manhãs um programa dirigido pela batuta deste homem, merece-nos um Obrigado. Um gigante obrigado. No seminário eu fugia para espreitar a Praça da alegria. Gostava do jeito como o Manel arrumava as palavras, com ironia, e um linguarejar tão criativo. Depois, trabalhei ao seu lado, 2 anos. Já a vida nos havia ligado. Ver o Manel fazer televisão, é assistir ao ensaio dos melhores espetáculos do mundo. Tudo é um detalhe importante. Da roupa à pergunta.

O Manel vai deixar de nos dizer bom dia, e tudo será diferente, porque é de manhã que nos ajeitamos para o dia que vem, e o Manel arrumava-nos a curiosidade, o saber, a estória da história, e lá íamos para o nosso dia, um pouco mais completos. Ter um profissional de televisão que se delicia com o trajar de uma minhota em romaria ao mesmo tempo que nos esmiuça o novo livro (que leu sublinhou) de um ilustre autor da nossa praça, isto tem um nome, grandiosidade intelectual; porque somos feitos de todas estas matérias, e pobres daqueles cuja vida passa ao lado deste todo.

Sempre gostei da vida de manhã, muito graças ao Manel, que me ensinou que o dia e a sabedoria aproveitam-se desde cedo. Obrigado Manel, por mais de 25 anos de bom dia  (estou certo que chega aos 30).

Porque hoje, dia 25 de dezembro, é o teu dia, e detestas despedidas e homenagens, este texto é só um obrigado e parabéns. És um homem a quem a VIDA não deve nada, graças a ti!!

Teu, Hélder

domingo, dezembro 20, 2020

QUANTO MAIS NU MELHOR

 


Os dias passam e as casas ficam. As casas, as árvores, os rios e o mar. São os permanentes. O resto das coisas da vida vão com o tempo. Aos 45 anos pergunto-me sobre o que me fica... na verdade sinto que resiste o mais simples, autêntico, frontal, cru e despido de papeis.

Já vos aconteceu? Precisarem de sentir a areia nos pés, a terra nas mãos, o musgo nos dedos, o vento no pescoço, a água na pele? Ou de vazarem os armários da casa, tirarem a tralha das prateleiras, das gavetas, da alma? Vazar como vaza a maré. Ou tomar banho no mar, nu, nu, mil vezes nu, até que a nudez chegue aos ossos?

No CAOS será sempre o simples e o despido que vencerão, até no cérebro das coisas da vida, acreditem.


Até já




domingo, novembro 22, 2020

O melhor do pior

 



Olá


Que dias estes, eramos tão felizes e não sabíamos. Agora passo, passamo,s mais tempo em casa, isolados, sem calor dos outros, sem a pele que se tocava e os beijos que dávamos, a torto e a direito. Agora até acho estranho quando vejo um filme onde há toque e cumprimentos... é, outros tempos.

Aproveito o tempo para purgar os dias, arrumar as folhas velhas dos vasos e da minha vida, deixar a luz entrar com janelas abertas, não vá o bicho me estar em casa, pelo menos arejo. Aproveito para me deliciar no tempo mais estendido, perder-me cá com os meus botões, arrumar e arrumar-me. Trabalhar na terra, fazer uma televisão distante, e voltar a casa, onde me sinto seguro e sempre em paz.

Sapatos à porta, sinto o meu chão, às vezes deito-me nele e deixo que a luz faça o resto, me recomponha. Chego cansado, cada vez que saio. Não sentem o mesmo? Andamos a fugir, alguns, de algo que nos pode derrubar o corpo. O melhor? Mais tempo, e usa-lo dignamente, com solenidade, porque o tempo é irreversível. Por isso, faço dele tudo o que a minha vida ainda me permite. 

Recomendo.


Protejam-se


Hélder

quarta-feira, outubro 14, 2020

ATÉ BREVE, PRAÇA DA ALEGRIA



É sempre difícil deixar a casa onde nascemos. Sair para voar, como se costuma dizer. Fui convidado da Praça da Alegria há 23 anos. Apresentei o meu primeiro livro de poesia, Rostos do mar. Era seminarista. Já saído do seminário voltei como convidado musical, com a minha banda Pólen. Se eu queria fazer televisão? Nem pensava nisso. Era vigilante no museu de Serralves, estava a acabar a minha tese de licenciatura em Teologia... e a fazer vida a partir do 0.

A minha amizade com o Manuel Luís nasceu entre entrevistas. Fizemo-nos amigos. As conversas sobre Deus e deuses... o silêncio... cinema com filmes que nos inquietam, víamos entrevistas de gente que nos emociona. E a amizade alimentava-se disto tudo. Um dia o Manuel perguntou-me se eu gostava de ser o empregado de mesa do programa... Eu? Claro que sim, o ordenado MUITO MELHOR do que Serralves. Ensaiei o uso da bandeja em casa ( nunca tinha servido à mesa), e lá fui. O empregado de mesa da Praça da Alegria, que servia cafés e laranjada e apresentava os carrinhos de compras do passatempo. A Praça fez o meu coração vibrar por conhecimento, humildade, evolução, história, amor. Tanto disto... é a tal casa, é a minha vida.

Nestes tempos de empregado de mesa muita gente ia acreditando em mim. Eu falava de modo claro e com boa linguagem ( um padre deveria assim ser). O público da Praça dizia-me que um dia eu iria longe. Eu? O empregado... nada disso, quero fazer o meu trabalho. A verdade é que fui voando, com muito trabalho, ensaios em casa, conselhos do Manuel ( o maior da televisão). E comecei com reportagens, e a ser empregado de mesa ( ao mesmo tempo), eu queria era trabalhar. De coração cheio, obrigado. Direção, administração, técnicos, produção, realização, maquilhagem, assistentes, câmaras, seguranças, técnicos de limpeza. Colegas e amigos! Todos me fizeram até hoje.

Uns 4 anos depois de começar como empregado, desafiaram-me a apresentar o programa. Eu? O que ainda tinha o avental guardado? Claro que sim, ora com a mulher mais doce da televisão, a Sónia Araújo, ora com a mulher de coração na boca e na pele, a Tânia Ribas. Sempre que o Jorge Gabriel não podia, lá ia eu, com dignidade, muito trabalho, e consciência do meu lugar, estava a substituir.. Meu Deus, que voltas da vida... A minha mãe deliciava-se, chegou a ser várias vezes convidada do programa, que linda senhora vaidosa de sentimento pelo filho, e eu feliz com a alegria dela.

Tornei-me o repórter. Um dos primeiros repórteres de entretenimento da televisão, eu e a Tânia Ribas. E assim fui, uns bons 20 anos. A fazer muitas outras coisas em TV, mas com a gana de repórter, esse género televisivo tão nobre, onde vamos à casa e à rua de quem nos vê. As festas onde estive, as feiras, as viagens aos portugueses emigrados, as histórias de vida, os sorrisos, as lágrimas. Devem imaginar... todos os dias, uma terra diferente, uma nova história. Caramba... era o coração sempre em vibração. Tanta gente linda com quem trabalhei, tanta gente maravilhosa que entrevistei.

Este ano foi ano de dizer adeus à Praça da Alegria. E lá ficou a casa, cheia de luzes e aplausos, e sigo caminho. Pleno de gratidão por quem me deu a mão no caminho ( os que sabem que fazem parte da minha história, e que olhei nos olhos e agradeci vezes sem fim). Mas ninguém faz a vida como nós mesmos, afinal ela é nossa. E há sempre um ou outro a quem falta agradecer, aqui fica. Para sempre.

Fico-me pela gratidão. Não olho muito para trás. Para quê? Só para lembrar a minha mãe, acho que é a única vez que o pescoço da minha alma se vira para trás. De resto, perdi toda a saudade que tinha pelo tempo da minha vida.

Agora digo-lhe boa tarde, todas as sextas feiras, no programa da minha Tânia Ribas. Uma equipa nova, e que parece que já lá vivo há muito. Vou contar histórias, de gente que nunca ouviu, de gente que já viu algumas vezes. Não são entrevistas, são conversas pelos campos da vida, sem complicar, só deixar rolar as palavras. Como eu gosto e sempre quis fazer. Com tempo e calma. Mais gratidão. A vida é um extraordinário presente. Sempre. Obrigado.


Até já