quarta-feira, outubro 14, 2020

ATÉ BREVE, PRAÇA DA ALEGRIA



É sempre difícil deixar a casa onde nascemos. Sair para voar, como se costuma dizer. Fui convidado da Praça da Alegria há 23 anos. Apresentei o meu primeiro livro de poesia, Rostos do mar. Era seminarista. Já saído do seminário voltei como convidado musical, com a minha banda Pólen. Se eu queria fazer televisão? Nem pensava nisso. Era vigilante no museu de Serralves, estava a acabar a minha tese de licenciatura em Teologia... e a fazer vida a partir do 0.

A minha amizade com o Manuel Luís nasceu entre entrevistas. Fizemo-nos amigos. As conversas sobre Deus e deuses... o silêncio... cinema com filmes que nos inquietam, víamos entrevistas de gente que nos emociona. E a amizade alimentava-se disto tudo. Um dia o Manuel perguntou-me se eu gostava de ser o empregado de mesa do programa... Eu? Claro que sim, o ordenado MUITO MELHOR do que Serralves. Ensaiei o uso da bandeja em casa ( nunca tinha servido à mesa), e lá fui. O empregado de mesa da Praça da Alegria, que servia cafés e laranjada e apresentava os carrinhos de compras do passatempo. A Praça fez o meu coração vibrar por conhecimento, humildade, evolução, história, amor. Tanto disto... é a tal casa, é a minha vida.

Nestes tempos de empregado de mesa muita gente ia acreditando em mim. Eu falava de modo claro e com boa linguagem ( um padre deveria assim ser). O público da Praça dizia-me que um dia eu iria longe. Eu? O empregado... nada disso, quero fazer o meu trabalho. A verdade é que fui voando, com muito trabalho, ensaios em casa, conselhos do Manuel ( o maior da televisão). E comecei com reportagens, e a ser empregado de mesa ( ao mesmo tempo), eu queria era trabalhar. De coração cheio, obrigado. Direção, administração, técnicos, produção, realização, maquilhagem, assistentes, câmaras, seguranças, técnicos de limpeza. Colegas e amigos! Todos me fizeram até hoje.

Uns 4 anos depois de começar como empregado, desafiaram-me a apresentar o programa. Eu? O que ainda tinha o avental guardado? Claro que sim, ora com a mulher mais doce da televisão, a Sónia Araújo, ora com a mulher de coração na boca e na pele, a Tânia Ribas. Sempre que o Jorge Gabriel não podia, lá ia eu, com dignidade, muito trabalho, e consciência do meu lugar, estava a substituir.. Meu Deus, que voltas da vida... A minha mãe deliciava-se, chegou a ser várias vezes convidada do programa, que linda senhora vaidosa de sentimento pelo filho, e eu feliz com a alegria dela.

Tornei-me o repórter. Um dos primeiros repórteres de entretenimento da televisão, eu e a Tânia Ribas. E assim fui, uns bons 20 anos. A fazer muitas outras coisas em TV, mas com a gana de repórter, esse género televisivo tão nobre, onde vamos à casa e à rua de quem nos vê. As festas onde estive, as feiras, as viagens aos portugueses emigrados, as histórias de vida, os sorrisos, as lágrimas. Devem imaginar... todos os dias, uma terra diferente, uma nova história. Caramba... era o coração sempre em vibração. Tanta gente linda com quem trabalhei, tanta gente maravilhosa que entrevistei.

Este ano foi ano de dizer adeus à Praça da Alegria. E lá ficou a casa, cheia de luzes e aplausos, e sigo caminho. Pleno de gratidão por quem me deu a mão no caminho ( os que sabem que fazem parte da minha história, e que olhei nos olhos e agradeci vezes sem fim). Mas ninguém faz a vida como nós mesmos, afinal ela é nossa. E há sempre um ou outro a quem falta agradecer, aqui fica. Para sempre.

Fico-me pela gratidão. Não olho muito para trás. Para quê? Só para lembrar a minha mãe, acho que é a única vez que o pescoço da minha alma se vira para trás. De resto, perdi toda a saudade que tinha pelo tempo da minha vida.

Agora digo-lhe boa tarde, todas as sextas feiras, no programa da minha Tânia Ribas. Uma equipa nova, e que parece que já lá vivo há muito. Vou contar histórias, de gente que nunca ouviu, de gente que já viu algumas vezes. Não são entrevistas, são conversas pelos campos da vida, sem complicar, só deixar rolar as palavras. Como eu gosto e sempre quis fazer. Com tempo e calma. Mais gratidão. A vida é um extraordinário presente. Sempre. Obrigado.


Até já