domingo, fevereiro 10, 2019

SOBRE A MÚSICA DE MIM






        

       




A música nasceu na minha vida, quando me apercebi que as palavras podiam ser um som harmonioso, musical. Um poema cantado é das expressões artísticas mais plenas que posso consciencializar.
Estudei canto gregoriano, e aí, ao ler uma pauta, apercebi-me da força de uma sílaba dita com a escala de uma nota, numa sintonia de vozes, cantadas por gente que nem sempre estava em plena harmonia. Cantar uma peça de gregoriano na Sé Catedral do Porto, é das experiências mais conciliadoras que alguma vez experimentei. Deus despojado de arranjos.

Quando abandonei a minha vocação, a música continuava a vibrar-me No sangue, estudei canto na escola de jazz do porto, tive professores de todo o mundo. Aí apercebi-me da universalidade da música e da identidade da mesma. Uma professora alemã, de uma rigidez atroz, onde a regra fazia sentido. Ou era ou não era, como na vida. E uma doce professora brasileira, de candura no poema a lembrar uma Elis de sempre. A minha banda, Pólen, surge por estes anos, já lá vão mais de 20. Pelo caminho estudei piano e guitarra, um péssimo músico instrumental!

A música era a parte mais expressiva da minha comunicação. Anos mais tarde estudei canto à capela, quanto menos, melhor. Eduquei a afinação. Ouvi-me. Há um autismo de discurso que perdemos quando ganhamos consciência da voz. Dei o tempo necessário e passei para para canto lírico, sempre fui barítono, havia que abrir os pulmões e explorar a minha cabeça, como difusora de som e não só de ideias. Tornei-me caixa da minha própria voz. Eu era dos que falava baixo. No lírico aprendi que o corpo não é o que te define, é a tua voz, chegar ao fundo da sala sem gritar, colocar-me na acentuação musical certa e determinada. Ainda uso esta técnica para fazer televisão e para ir ao mercado, temos de saber o que queremos, muda a escala!

Anos mais tarde voltei ao jazz, mas com aulas privadas, queria um professor a olhar para mim e dar-me o ritmo libertino, africano e americano, das boas regras do jazz. Educar a abertura de boca, a colocação da simplicidade nas palavras, um despir-me de adereços. E eis-me no ponto que sempre quis. Faço da minha voz o que quero, como quero. Sei dos meus limites, sei da minha estética vocal, conheço o meu aparelho. A música, tem menos palco nos meus dias, mas ganhou mais ouvido, mais recato. Nem sempre ter é conquistar. Sou mais homem, na plenitude da humanidade e espiritualidade que me constitui, porque sou músico. Não pelas músicas que fiz, poemas de musiquei, ou palcos onde cantei; sou mais porque pela música percebo o silêncio, o único lugar a partir do qual a música e a vida se compõem. 

Abraço

HR





segunda-feira, janeiro 28, 2019

A força da lareira





Há um momento em senti, agora sou adulto. Quando tive a minha lareira, a acendi, abri um vinho tinto, e usufrui sozinho, à hora que eu quis. Fiz-me homem. É, não foi preciso muito mais.

A liberdade do fazer tem um preço inquestionável. A determinação em conquistar essa liberdade é a prova dos nove de que se é capaz, até pode não apetecer mais. Nunca o lume me aqueceu tanto. Acender uma lareira tem ciência. A lenha miúda no princípio, depois um ou dois paus bem secos e mais adiante um tronco que lhe dê o sustento para o tempo.

Mas o mais importante é que a lenha que vais usar foste tu que a conseguiste. Neste momento és independente.  Porque o fogo que te aquece a casa foi gerado por ti.

Parece simples. Eu sei. Mas não é. Há muita lenha verde a ser vendida como seca e tanta lareira que se abafa no próprio fumo.

HR

terça-feira, janeiro 15, 2019

Liberdade

Deixa que os pássaros te alimentem de liberdade
Deixa-te ter as asas dos bandos que te invocaram
Abre o peito à loucura de seres tu
Mais pássaro que homem
Mais homem que animal
   HR

segunda-feira, janeiro 14, 2019

ROSTOS DE S. TOMÉ






Leve leve. Quem vai a S. Tomé não ouve outra coisa. Um povo doce, um país que explode de verde e tropicalidade, uma pobreza que dói, e sempre um leve leve na boca, como se fosse um credo. Olhos sempre meigos e generosos. Sorriso no lábio escuro e um ritmo acesso no pé.

Quando lá cheguei consegui um guia, na verdade era um jovem que conhecia bem a ilha, e mostrou-a como se fosse a sua casa. Leve leve é o que diz a gente dele. A vida é dura, muito dura, mas levam tudo leve, um mergulho na baia, uma fruta da mata, e amanhã logo se verá. Mas como pode ser leve quando vos falta tanto... Falta? Não falta não, nunca tivemos, não pode faltar. leve leve

Tentei cumprir este leve leve no meu regresso, como se fosse resolução de novo ano. Não consegui. Tenho coisas a mais, na casa e na alma, o que me faz parecer que tudo me faz falta, e sem isso... é pesado o peso da vida. Tenho mesmo de fazer uma limpeza para dar espaço ao leve leve de S. Tomé e Príncipe.

terça-feira, janeiro 08, 2019

CONVERSAS DE ALMA

                                                                                      nos meus 9 anos

O que levas na alma? A minha é pequena, cada vez mais pequena. Disse-me um homem que a alma encolhia com o tempo. E o que levas nela? Levo o essencial, os essenciais, na verdade amor e pouco mais. Disse-me uma mulher que na alma se pode plantar... Pois isso não sei bem, ou até sou capaz de saber, agora que penso. Plantei há dias umas raízes de humildade e honestidade, têm se dado bem, e até parece que a minha alma ganhou outro brilho. Pois foi, plantei na alma, e pegou, como se fosse terra fértil. Achas que a alma é um barco ou um pássaro? Sempre a imaginei como um barco com asas, mas há dias em que é um barco com raízes, olha, depende dos dias. E tu o que levas na tua alma? Eu? Nem sabia que se levavam coisas na alma. Não são coisas. Então? São alimentos para o mais eterno de nós. Queres dizer-me que agora a eternidade também come. É uma outra fome, como a que temos em criança de sermos o que havemos de ser. E a alma, terá fome? Isso não sei. Só sei que tem tempo, tempo tem; tem o tempo para deixar passados e encher balões para o futuro. Tudo na mesma alma? Sim. Só temos uma. Os gatos é que têm 7 vidas e 7 almas. Estás a falar a sério? Claro. Não brinca com coisas da alma!!

quarta-feira, dezembro 19, 2018

CASA, CHÁ, BOLACHAS E LIMÃO.



A desilusão é o ponto mais alto da expectativa. As pessoas peritas na arte do desiludir são os amigos, a família, a cara metade, e nós mesmos. Há lá pior desilusão do que a nossa para com o próprio ego?  Dói que se farta e não aprendemos a lição. Por acaso, e pensando bem, até pode haver, e não aprendemos a lição na mesma. A solução que encontro para esta maleita da alma? A casa.


Vivo na mesma casa desde que a decidi ter. Entra nela quem me diz muito, já tenho alguns arrependimentos. Da minha casa só eu sei, incluindo o que se passa nela! ( sorrisos) Entrar na minha casa é o antídoto que encontrei para a desilusão, os dias aflitos, as palavras engasgadas, a dor dos que amamos e nada podemos fazer, a construção dos sonhos, as alegrias que só cá dentro quero partilhar, a festa que faço sem alaridos sociais. Um retiro, é isso que gosto de fazer da minha casa e nela. Respirar as coisas do meu tempo, as minhas histórias, as plantas que cuido para ver se elas cuidam de mim, as almofadas com livros, as músicas de sempre, a cozinha à espera da receita, as mantas de inverno e até as de verão, as velas mornas que aquecem o coração. A luz, sobretudo gosto de olhar para a luz que só da minha casa vejo, como o principezinho ( mais sorrisos).

Gosto do silêncio, da oração que faço, do repensar o dia e antever o próximo, jantar com toda a calma do mundo, fazer bolos tarde, muito tarde, abrir vinho, ler vários livros numa hora, ver séries seguidas, tomar banho demorado. Parar dentro de mim. Amar. A casa é o único sítio para ser amado e amar, do coração para fora da boca e dos olhos. Não sei se já sentiram este amor.

Recomendo. Vivam a casa, para mais do que um sono rápido. Quanto ao chá, as bolachas e o limão( do titulo deste texto) é uma receita para quem gosta da prática do "sofazar"!

Casem muito! :))

PS: a obra da foto é da artista plástica Iva Viana, e a mesma vive nas minhas paredes! 

HR


segunda-feira, dezembro 10, 2018

Quando és adulto?




                                                                                       eu.10 anos



Lembro-me de ser pequeno e pensar, quando é que serei velho? Senti que era adulto quando assinei, no hospital, a responsabilidade de acompanhar o meu pai e quando lhe recolhi o saco de pertences. Senti que era adulto no dia em que dei o primeiro jantar, na minha casa, aos meus pais. Fui adulto no funeral do meu pai, e abracei a minha mãe. Senti-me velho, quando me coube decidir regressos do hospital de um dos meus pais. Fui adulto na hora de sair de casa, de deixar o seminário e descobrir um caminho novo, nos caminhos do meu tempo. Senti-me incomensuravelmente adulto quando soube aquilo que não queria para a minha vida, mesmo não sabendo o que queria. Fui adulto ao perceber o valor da cafeteira que há 50 anos fazia o café de casa, porque afinal era amor que ela fazia, e não só café! Sou adulto ao plantar e regar as árvores da minha vida. Senti-me velho quando completei a minha cozinha, e nela se faz tudo como na da minha mãe.

Fui adulto, quando na RTP, há uns bons anos, uma direcção me disse que eu já era velho para uma carreira, e usei da minha "adultez" e provei que cabe-me a mim decidir o meu futuro, não aos outros.  E aqui estou. Fui adulto quando escrevi o meu primeiro livro e enviei para a RTP, e assim me descobriu o Manuel Luís. Fui tão adulto quando adoptei o meu primeiro cachorro. Senti-me velho, quando abracei a minha mãe para a colocar na cadeira de rodas, mesmo não sendo o filho mais velho. Fui adulto ao fazer o presépio de casa, desde que a minha mãe já não consegue assegurar a magia do Natal. Fui adulto ao deixar para trás as pessoas que me arrastavam para baixo de uma vida que não era a minha. Sou velho todos os dias que seguro as mãos da minha mãe. Fui adulto no primeiro amo-te que disse, e dura até hoje. Sou velho nas lágrimas que já não sei chorar e sou adulto ao pensar em tudo o que digo, mas deixar pouco por dizer.

Sou velho ao amar as coisas do antigamente e adulto ao querer perpetua-las. Sou adulto no amor que alimento e nos nãos que aprendi a dizer. Fui adulto no dia em que abandonei um dos maiores sonhos da minha vida. Sou velho para sonhar fazer coisas que devia ter feito em novo, mas sonhar nas que a minha vida de agora pede.

Sou velho para perceber que nem todo o meu sorriso vem da alma, porque nem sempre vale a pena saber o que a minha alma diz. Sou adulto ao saber o que sou, e mesmo assim, reconhecer que nem tudo o que sou vale a pena, para isso envelhecerei para me ser maior.

HR

segunda-feira, dezembro 03, 2018

COMIDA DA ALMA, COMIDA DO CORPO

                                                                                                                   HR



Eu gosto de comer, e o melhor lugar onde como é em casa, na minha casa. Sem falsa modéstia, e convicto de que não sei cozinhar o suficiente. Mas, na verdade, a melhor refeição que posso ter, não exige grande cozedura. Um bom queijo, ervas frescas, um pão de trás os montes, Mafra ou Alentejo. Azeitonas bem curtidas, um vinho (de qualquer lugar nosso ou do mundo), umas ameijoas à bolhão pato (ricas em coentros e alho), azeite para molhar o pão (prefiro o de trás os montes), uma alheira, tomate fresco e rúcula (só com sal, limão e azeite) e um mel de rosmaninho para equilibrar sabores.

Mas a melhor receita que posso dar, é a de chegar a casa. Tirar os sapatos, sentir o chão que é meu, receber um abraço, abrir as janelas e deixar-me respirar; acender velas e as luzes mornas de cada espaço, e depois, estou pronto para o jantar. Deixar que os sabores tomem conta da boca e o pensamento sentir-se livre na liberdade que só encontro em casa. Na minha casa. O meu pai dizia-me sempre, boa festa faz quem em sua casa está em paz. E não há paz maior do que a que encontro na casa que fiz, que me faz e com quem a faço.

Até já.

HR

domingo, novembro 18, 2018

PALMADINHAS NAS COSTAS








                                                                                           HR




Todos sabem que na vida há o homem rato de esgoto, e os que mandam o rato homem para o esgoto. Acho que não preciso de definir uma pessoa rato de esgoto, alguns até usam boas roupas e roçam-se no poder. Gosto dos segundos, os que mandam para o esgoto este chiqueiro de gente. Quem pisa estes ratinhos de esgoto, são sempre inconvenientes, porque não jogam pelos corredores. São chatos , porque criam confronto de opinião, e hoje tudo quer palmadinhas nas costas, e que não se levante muitas ondas. Ter opinião dá trabalho para quem tem de as ter em conta.

 Um bom rato de esgoto é o que julga que não cheira mal, mas fala do cheiro de todos os outros, mesmo que não sejam do esgoto. Há os que também são de esgoto, mas usam uma espécie de saltos altos para não tocarem nas águas podres, e assim julgam-se menos do esgoto que todos os outros. Até há os que não andam no esgoto, mas mandam outros por esses caminhos; o que acontece, é que podes tirar um rato do esgoto mas nunca tirarás o esgoto de um rato, nem de um homem que só sabe ser rato.

A liberdade do voo, sempre deu muito trabalho, a vantagem... é que anda-se longe do que tresanda.

domingo, novembro 11, 2018

SOBRE A FELICIDADE



                                  fotografia HR


Deixei a tristeza no ventre da minha mãe. Disse-me hoje um senhor, que me perguntou se eu estava bem, e devolvi-lhe a mesma pergunta.

Eu? Sou um homem feliz. Não sou sempre feliz. A felicidade habita acima da alegria e do estar bem, a felicidade é um cimo das escadas, um final de metas, um chegar a destinos, um agarrar com força. Nunca confundi felicidade com alegria, já estive tantas vezes com alegria e tristeza. São intensidades diferentes. E não meio termo. Ou estás ou não estás feliz. Aliás, não suporto os meios termos, ou sim ou sopas.


A felicidade dá trabalho, como o sucesso, o amor, a paz, a serenidade, o silêncio, a reconciliação. Não acredito nada na sorte, no destino, no já tinha de ser... Eu já recomecei algumas vezes do zero, em nome da felicidade, já fechei portas, encerrei ciclos; e muito em breve voltarei a fazer. E dói. Dói muito, sofro e faço sofrer, mas eu tenho de estar em primeiro lugar na minha história, para conseguir amar e estar na história dos outros.

A tristeza é um mal que nos rompe as membranas da felicidade, e mais vale deixa-la no sítio de onde vimos. A vida é um movimento cheio de voltas, destinos fracassados, saudades eternas, casas vazias, dores no corpo sem remédio, e tanto mais. Por tudo isto, entendo que a felicidade dá trabalho e que a tristeza é uma raiz que devemos deixar na terra de onde nos fazemos.

HR

domingo, novembro 04, 2018

SOU DO RISO

 

 Rio por tudo. Rio por nada. A minha mãe, nas doses longas de educação, quando me perdia nas mesmas gargalhadas que ainda me perco, bem me dizia: muito riso... pouco juízo. Saio-lhe a ela, mãe. As vezes que a vi perdida de gargalhadas, que nem os olhos abria, porque a cara os serrava. 

Acontece-me tantas vezes, com amigos que basta um olhar para que se solte a gargalhada como se fosse uma cascata de doces e nós as crianças a querer provar de todos. Eles sabem uem são...

Quero lá saber o que dizem os outros por me verem rir tanto... os outros serão sempre só os outros. Mas falam e acham-se sérios por não se perderem no riso. Chatos na ilusão do seu juízo... loucos na aborrecida seriedade. Não é isso que nos faz...

Não me rio sempre. Mas rio sempre que me apetece... mesmo sozinho. E chega-me. Descobri a força do meu sorriso de sempre na televisão. Primeiro veio o meu riso e depois a minha forma de fazer televisão. E o juízo é o de sempre. Na vida? Na vida, rir tem sido uma bela arma nuclear.

Muito riso... bendito juízo

HR




                  




segunda-feira, outubro 29, 2018

PASTORES DE SILÊNCIO

                                                                                               fotografia HR


Deixa-me ser pastor, rebanho, pasto, nuvem. Deixa-me ser o que eu quiser. Mas olha para mim e por mim, sozinho acho que perco o caminho. Preciso de um cajado. O que é um cajado? Podes ser tu. Ou só metade de ti. É possível sermos metade de nós em tanta coisa da vida. Até para os outros.

Ser pastor, expressão bíblica que eu sempre venerei, pode ser o melhor sinal de companhia, abrigo, silêncio e dedicação. Pode ser Deus e podes ser tu, claro que também posso ser eu. Ainda há pastores de pessoas, porque todos precisamos que nos guiem. Mente quem disser o contrário. Ás vezes perco os meus, sorte a minha que os encontro, no meio das coisas da vida, que são piores que as ervas mais altas. Ervas daninhas... essas dariam outras palavras.

Hoje fico-me pelos pastores, de gente e de silêncios.

HR


quinta-feira, outubro 25, 2018

DESISTIR É UM PODER ABSOLUTO


Desistir não é para os fracos. Desistir é ambição dos valentes.

Desistir de uma relação é uma decisão inegavelmente importante e que só os casais determinados têm a coragem de não se arrastarem em falsos e adiados amores, em nome de um futuro que já é passado.

Desistir de um trabalho e mudar a rota é prova de elevada capacidade de querer outra coisa que não a que estamos a fazer... pela felicidade do exercício. Não há ordenado para a felicidade.

Desistir de enfrentar uma terrível doença terminal é um gesto de elevadíssima ponderação, maturidade, seriedade e amor pela vida que se quer qualitativa.

Desistir de maquilhar a dor e assumir que se vive uma depressão e está na hora de parar, chorar, gemer alto e sem pudor; cuidar da mente que por não se ver, não é menos orgânica do que os nossos pulmões ou coração.


Desistir é só mudar a rota de uma vida que é navegação de uma viagem onde somos livres de escolher o caminho, o transporte, a companhia e o destino. E isto é um poder inatingível.

Para todos os que já desistiram... só vos digo: valentes!

HR

domingo, outubro 21, 2018

AMOR DE ALECRIM



Alecrim. A melhor materialização que tenho do amor. O alecrim é uma planta resiliente, determinada na existência. É difícil que uma planta de alecrim não sobreviva numa terra perto de si. Aromática. Relaxante. Com flores comestíveis que me lembram o céu. Uma infusão de alecrim perfuma a sala e só me dá momentos felizes.

A minha vida não é complexa. É simples e intensa como o alecrim. Por razões que só eu sei, o alecrim foi escolhido para ser a planta que cria raízes na terra da minha vida, para dar corpo a tudo o que é bom e feliz no meu tempo. O amor precisa de outros corpos que não os nossos... pelo menos o meu precisa. E escolhi um outro corpo para o amor respirar, e tinha de ser verde, sereno e mais forte do que o que parece. Assim é o alecrim... que para os romanos lembrava o mar.

A vida é assim... precisa de outras raízes para além dos nossos pés. O meu amor assim...

E bebo-o, todos os dias, serenamente, como se deve beber o amor. Que sorte tem a minha vida por ter raízes de alecrim.


HR

segunda-feira, outubro 15, 2018

Empresta-me o teu azul

Empresta-me um pouco de azul
Porque hoje estou vazio
Vazio é sempre que estamos descolorados
Descoloradas são as pessoas que estão sem lugar
Empresta-me do azul dos teus olhos
Ou então deixa-me afogar nessa tua cor
Porque hoje nada me pinta a alma.
Pelo azul dos teus olhos                      eu recuperava a respiração.
Coisa que me falta na tua ausência.
Sacana da morte que nos leva quem amamos e nos deixa o amor sem termos quem amar.
E o azul... emprestas-me ou não?
Hoje não garanto que te devolva.
Amanhã. Talvez amanhã

         
                     HR conversas com o céu

segunda-feira, outubro 08, 2018

NU NA PRAIA



 fotografias HR 2018






Foram 9 dias de praia. Água tão morna como transparente. Areia fina a engolir a água meiga do mar . Um sol dourado, a querer dourar. Cheguei aqui um caos de pessoa. A precisar de um silêncio acolhedor e espaçoso, que só a praia teria. E teve. Uma casa de janelas para chaminés brancas e porta para o mar. Uma cama de rede. A vida haveria de ser uma cama de rede. Debussy, que parece sair da minha seiva, e a vida fez-se.

Vi gaivotas em banhos pesqueiros. Incríveis mergulhos. Os delas e os meus. Porque o mar me proibia de não o experimentar, repetidamente. Havia ainda maçãs. Roer maçãs na praia, a lembrar os GNR, é um alimento para o palato da alma.

Li 5 livros. A poesia de Sophia, porque a praia manda; Tolentino, era obrigatório para a liberdade; Miguel Esteves para me dar um Portugal dele; Ishiguro para receber mundo, e a biografia de Nevada Hayes. Substitui as pessoas por livros e as redes sociais pelas conchas. Correu-me bem.

Grelhei peixe todos os dias e com ele grelhei as correrias do dia a dia, ainda que todos os dias eu corresse, no meu tempo, uns saudáveis 8 km, para suar o corpo e a alma. 

Bebi esta vida toda com um bom vinho do norte ao sul. E em 9 dias... despedi-me do Verão e despi-me de mim, para me vestir de serenidade de maresia. Porque da vida o melhor que recebemos... sabe a mar e a amar. E fui forte. Mais forte do que eu. Mais forte do que o mar... como canta Cristina Branco.

O titulo deste texto era só para chamar a atenção. Não me levem a mal. Mas as vergonhas são para serem tapadas. Mas despi-me de confusões ... ai isso sim... e sem pudores, porque para ser livre e inteiro, tem de ser agora, amanhã será tarde.

Divirtam-se .

HR



























quinta-feira, setembro 27, 2018

SEPARAÇÃO

Inevitável. É o que é. Dramática. É o que não é. Não separe o homem o que Deus uniu... e até que a morte vos separe. Sabemos que não é verdade, não pode ser, não depende de nós, e falhamos logo à nascença. Felizmente, cortam-nos da nossa mãe, e na primeira respiração já somos nós, aqueles que se separam. Separamo-nos das coisas de criança, dos nossos pais, de irmãos, de vícios e hábitos antigos, separamo-nos de caminhos e modos de ser. Separamo-nos da comida preferida, dos sonhos antigos e até de trabalhos seguros. Separamo-nos da roupa preferida, da canção que era a de sempre, e do ídolo que seria eterno. Separamo-nos de quem havíamos escolhido para o sempre... E até nos separamos de convicções. Porquê? Porque queremos ser mais, ou ser menos. E não vejo mal nenhum.

Separamo-nos de amigos, para os encontrar, se resistirem à separação, em nome do reencontro. Porque o que se separa e é unido pelo amor, está no caminho do reencontro; nem sempre acontece, não tem de acontecer.

Mas não vos sabe bem a possibilidade de reencontrar o conforto do que nos separamos e voltamos a encontrar com vontade de unir?

Para mim, a separação é o jeito mais doloroso de criar a união mais duradoura. Não faz sentido? Se um dia se ligarem ao que alguma vez se separaram, vão ver que o sentido é total.

Pior do que não separar, é fingir que se está unido.

Até já.

Hélder

segunda-feira, setembro 24, 2018

SORRISO NO CANTO DA ALMA

Sorri para mim, sorrirei para ti. Um sorriso é tão meigo como poderoso, mas a mim importa a meiguice, que de poder o mundo está cheio. Quando era criança convivi com o sorriso mais rasgado do mundo, o da minha mãe. Quando íamos de bicicleta para a praia, o mundo não era mais nada, sorrisos, areia e mar. Barrigadas de sorrisos, que ocupavam todos os cantos da alma.

Ficou-me para a vida que um sorriso não só pode fazer um Verão, como faz uma vida. A dinâmica é fácil, sorri para mim, sorrio para ti. Ligeiro, leve leve, como em Santo Tomé, afinal a vida descobre-se num lábio que ri e nos mostra uma alma com vontade de ser feliz, sabemos que não somos felizes, estamos felizes e queremos ser felizes, sempre na caminhada.

Mas fica-me o exercício. Sorri para mim, sorrio para ti.

quinta-feira, setembro 20, 2018

O MEDO QUE NOS LEVANTA


O medo não é coisa má. O medo assenta-nos os pés no coração. Provoca-nos. Sempre gostei da provocação, que venha para me acrescentar e sou todo ouvidos. Já tive medo, já tive medos. Já desisti e levantei-me e já me levantei sem desistir. No final do rosário dos medos... o balanço foi sempre positivo. Fortaleci a alma, que é o músculo mais importante da minha emoção.

Quando tive de enfrentar os meus maiores medos, curiosamente, foi quando me tornei indomável, focado, sereno, livre, e a querer prolongar-me em tudo o que amo. E amo, amei, fui amado, sou amado. Porque no fundo, tudo se resolve com o amor que damos, porque será o amor que recebemos; e neste movimento do amor, o medo, qualquer tipo de medo, fica a perder, porque nos erguemos, levantamo-nos, estamos de pé para ele.

até já


HR


segunda-feira, setembro 17, 2018

NÃO NASCI PARA SER ESTRELA

Nasci para comunicar. Da minha vida 12 anos são de seminário. O adivinhar de uma vocação para ser sacerdote. Falhei. Ou a fé falhou-me. Ainda não sei. Sei que segui outro caminho. Ser padre é um ritual complexo de comunicação. Longe eu de saber o meu futuro, no seminário ensaiei-me em contacto com multidões, cantorias a solo e solenes, altares, que são uma espécie de palco sagrado. Ensaiei-me para comunicar.

Quando deixei este projeto, sempre convicto que era o que eu nao queria. Não há melhor garra do que a de saber o que não queremos para nós.  Fiquei perdido. E agora? O que vou fazer? O que sei fazer? Tinha as cantorias... surgiu-me a RTP. Era, orgulhosamente, empregado da Praça da Alegria. Comunicava com a minha presença, que sempre quis que fosse humilde e afirmativa. Não era para falar. Mas sempre gostei da palavra. Um dia... falei. Outros dias depois começaram responsabilidades de apresentador. Estudei jornalismo. Acabei Teologia. Li e leio sobre o tema. Observei quem faz TV. Aprendi com os melhores. Fiz-me. Fizeram-me.

Hoje, a televisão é o meio pelo qual atravesso mensagens construtivas, palavras pensadas, gestos delicados, carinho por quem abraça. Fiz e faço uma televisão de rua, sem rede de estúdio, mas com o amparo de uma gente de Portugal que só é imensa.

É dos meus convidados anónimos para o público que eu amo construir uma entrevista. Contar histórias Todos temos uma bela história. Comunicar sentidos e sentimentos. Esta minha vida de falar em televisão afastou-me de um outro tipo de televisao; mais charmosa, do recato de um estúdio, mais pomposa e ilustre. O meu caminho foi outro. É outro. Sou outro. Com o preço que tem.

Não tenho vocação de estrela. Tenho vocação de comunicador. Longe da perfeição e mas muito perto da felicidade.

Obrigado por estes anos. Cada um.

HR

terça-feira, setembro 11, 2018

SOBRE A PELE...


BALCÃS\HR

As mãos. Os olhos. A pele. O abraço. O compromisso. A cor. Não sou dos que acham que já foi o tempo dos valores, sou dos que sentem falta de tempo para os valores. Às vezes, a vida pede-nos jogos pessoais, artimanhas sociais, velocidades interiores que atropelam os valores. Barreiras. Errado, tão errado. É quase legítima defesa. E depois? O que nos fica?

Continuo esperançado na força de um aperto de mão e de um abraço. Cada vez menos sentidos, eu sei. Cada vez mais precisos, eu sinto. É como ousar necessitar escutar um outro coração, para que o nosso bata com a mesma intensidade. O som compõe-se de multiplicidade.

Até já

HR


domingo, setembro 09, 2018

CANSADO

Cansado. Às vezes sento-me cansado e parece que o meu corpo e a minha cabeça não se sentam comigo. Nunca sentiram? Eu quero que tudo o que é meu pare, respire fundo, relaxe, e o movimento não permite.

O mundo tem muito movimento.

Podem ser os meus 43 anos e muitos outros de algumas coisas na minha vida, mas há dias de muito cansaço. E sabem que mais? Não vejo nisto um problema. É uma realidade desta nossa curta existência. Há muito barulho na rua, nas lojas, nos restaurantes, nas igrejas, no trabalho. A vida pede-nos tudo. O erro é impossível. As pessoas iludem e desiludem... e tudo isto cansa... ou vai cansando.


Eu não me sento no cansaço. Isso seria grave. Sento-me no descanso e na vontade,  para depois me levantar. Tal como o faço há 43 anos. Levantar-me.


Saúde

HR

terça-feira, setembro 04, 2018

Quem vê portas...

                           Fotografia HR


A glória e as portas são-nos dadas todos os dias. Ou entramos. Ou ficamos à soleira... a meio da escada... a meio da rampa... ou não entramos de todo.

Em bom da verdade... não temos de entrar em todas as portas que vemos. Mesmo as tentadoras. O não também serve ao movimento. Às vezes, muitas vezes, basta contemplar a porta e imaginar o que vive dentro da sombra daquela casa. Há casas erradas para nós mas com belas entradas.

Quem vê fachadas... não vê corações, mesmo os mais religiosos.

HR

Conveniente

A vida é  conveniente mas não é uma conveniência. Amar exige esforço. Trabalhar é um desgaste. Os amigos são uma dedicação. A luz desilude. A noite ilude.

A vida seria bem melhor sem a expectativa da conveniência. Eu sei. Todos sabem. Mas somos seres que vivem do elevadíssimo luxo da conveniência. E agora?

Até já

HR

domingo, setembro 02, 2018

Definição

Orgulha te de todo o silêncio que conquistares
Um dia serás colecionador de silêncios
Portanto, um observador.
           
HR/2018

O silêncio que queremos calar

                     
                             Mourão|2018|HR


Ora viva. O silêncio. Os Silence 4 têm a melhor canção sobre o estado desta quietude auditiva. O mundo está cada vez mais barulhento. As pessoas falam alto, sem saberem que a afirmação vem da atitude e não do volume.

As criancas gritam porque os pais acham saudável a libertação pulmonar dos miúdos. As musicas estão altas nas lojas, nos bares, nas ruas...

E falam e falam falam falam falam. Sem pontos e virgulas e .muito menos parágrafos. Estar calado é uma virtude. Eu sou dos calados. Não dos que as fazem pela calada. Sempre confundiram o meu silêncio com timidez. Porque falaram sempre mais do que me ouviram e olharam. Uma boa conversa é feita de silêncio. Partilhar silêncio numa relação é a maior idade da mesma. Só grandes amigos sabem estar juntos e calados.


Experimentem o silêncio que o mundo tem e que nós tanto queremos calar.

Até já.

sábado, setembro 01, 2018

A tua carreira acabou... sem nuvens

                  HR 2018

Quem nunca passou um bocado a olhar as nuvens e a perceber-lhes a forma. Elas só podem nascer de uma máquina que lhes dá a geometria. Seja de onde vierem... eu sempre as acreditei... tal como nos meus sonhos.

Há uns bons anos, já era eu um rapaz da televisão, um diretor disse que por eu já ser velho, devia encarar a minha carreira por findada. Nesse dia as nuvens ganharam forma de tempestade. Caramba... ainda tinha céus por conquistar. Julgava.

Não desisti. Mantive a rota do querer... nem muito nem pouco... só querer. E aconteceu. O senhor diretor saiu... eu mantive-me... às vezes a olhar as nuvens... e fiz novos programas... confiaram me emissões especiais, delegaram me representações internacionais em nome da RTP... Eu e todas as nuvens que ainda insistia agarrar, dar lhes nome e forma.

Eu acredito que quando se quer... a culpa é da vontade. E há uma nuvem para todos nós .

HR

sexta-feira, agosto 31, 2018

Sobre portas e telhados

                  Alentejo.2018.HR

Ora viva


Uma porta é um inegável banquete de possibilidades. Uma porta no telhado coloca-nos ainda mais perto dos lugares altos e possíveis.

Tenho um fascínio por as fotografar. Portas e janelas. Imaginar quem vive nelas. Nas casas que mais não são que gente vestida de cal e sítios permanentes.

O primeiro poema que escrevi foi sobre uma janela. Um entendedor metido no seu conhecimento achou-o mediano e sem tema. Nunca mais parei de escrever. Nunca mais parou o meu fascínio pelas geometrias que se desenham nas casas, que deixam ver a forma da luz, mas que podiam bem se desenhar nos nossos corpos.

Até já.

HR


quarta-feira, agosto 29, 2018

Preciso de asas que me levem para longe de mim.

HR

Observar. Não há melhor verbo para acompanhar a beleza e a sabedoria. Esta flor nasceu me em casa. De um cato que não é para brincadeiras. Longe de o saber sensível na cor. Hoje encontrei o assim... despido de vergonha e abusado na cor. Não reparei entre uma selva que crio na varanda. Escapou me.

Por isso... observar. Não há melhor forma de conhecer um bom ou mau ouvinte. Um amante da estética. Um bajulador. Um lambe botas e um ardiloso. Um cato de uma flor... ou os dois em um. Observem... 5 minutos. Quando era novo... sim... 43 já me dão velhice. Diziam me: a forma como olhas até magoa... parece que estás escavar.

E estou. Sempre a escavar para perceber. Escavar com os olhos... para se chegar ao lugar onde tudo nasce. E mesmo assim escapou se me este cato em flor.

Fotografei o. Para guardar  a sua beleza e a minha distração.

Experimentem.

Até.

terça-feira, agosto 28, 2018

Senta-te naquele banco daquele mesmo jardim
O jardim que sempre pensas
Quando pensas num jardim
Arruma-te no teu lugar
Observa o tempo passar por ti
Dentro de ti
Por fora de ti
Ao teu lado
É para tudo isto que serve um banco
Um jardim
E toda a imaginação que tens de ti
E das horas da tua vida
Observa-te
Como se fosse agora o teu princípio
Nesse mesmo jardim
Nesse mesmo banco
HR

segunda-feira, agosto 27, 2018

Ora Viva


Hoje arranquei ervas de alguns vasos da minha varanda. Arranquei-as como se arrancasse as mesmas da minha vida. Folha e raiz, para não lhes deixar fôlego para renascerem. Semeia-se para se colher e arrancam-se ervas para se plantar em terra limpa.

Quando era muito garoto, e vivia num campo que era perto da praia, passava os dias descalço, havia sapatos, mas não existia melhor sensação do que a de sentir o sítio onde se planta na palma do pé, na raiz do meu corpo. Tudo, mas tudo faz mais sentido quando mais velhos e com a nobre capacidade de eliminar as daninhas da vida, nem que se comece por um vaso.

até já

HR

domingo, agosto 26, 2018

Agarro na palavra
Como se fosse músculo e folhas
Seguro-a com os dentes
Vontade de comer
Trinco as letras e construo sentidos
Mastigo as frases
Engulo as verdades
Cuspo as mentiras
Sou um comedor de conversas cartas bilhetes e outros alimentos
Sobrevivo à custa da palavra
Da que é dita com os olhos e a pele
         HR 2018

sexta-feira, agosto 24, 2018

A REDE

Ora viva

Fiz contas, confesso-me mau contador, e gasto 55 minutos por dia nas redes sociais. Gastava. A rede furou. Já todos ouvimos e lemos sobre a intoxicação das redes, já há os detox da rede. Percebo. Não quero. Prefiro não usar.

Entras na rede e vais na faina, és robalo do facebook, sardinha do instagram, e usas um whatsup que te revela se a pessoa leu ou não, está online ou já esteve e por aí fora... Eu quero as cartas de volta, os selos de correio, as chamadas de telefone em vez dos emojis. Quero ouvir e escrever, quero conhecer a verdade de quem me fala e não a verdade que nos engana na rede que nos apanha.

Tudo bem para quem as usa. Permitam-me desligar. Até que não seja para sempre, mas que seja o tempo que o meu tempo quiser. Para estar feliz não o tenho de gritar ao mundo e nem quero esconder lágrimas em fotgrafias de arquivo onde naquele dia estava de sorriso posto

Preciso de paz, compromisso, perceber a verdade, sem grandes fotografias, e que quase sempre revelam o oposto do estado. Quero a democracia do não querer as redes.

Para os que, simpaticamente me seguem, o mais fácil... é encontrar-me. Ainda recebo cartas na RTP... isso seria outra conversa!

Até.

Hélder

segunda-feira, março 21, 2016

O AMOR NUM PALAVRÃO

Ora viva



O amor é fodido, quem o diz é Miguel Esteves Cardoso. Ele pode definir assim. Eu não. Mas posso citar. Por pudor, usarei o F. sempre que parafrasear o Miguel. O desamor ainda é mais F. E quem sofre de desamor é uma pessoa F. Todos conhecemos gente não amada e isso criou-lhes amargura no peito, rancor no olhar, ações medíocres. 

O amor cura tudo, a falta de amor tudo adoece. Não há melhor do que ser amado, chegar a casa e ser abraçado, ter janelas cheias de beijos, bilhetes de surpresa, mãos dadas na aventura e nos sonhos, uma cama quente. Amar é pleno de quem nos cuida e de quem cuidamos. O amor passa a ser F. quando é tanto que não nos cabe no peito, o excesso de amor não estraga, purifica. A falta de amor azeda, fede a rancor e a vómito. 

Pessoas mal-amadas cheiram mal, tresandam a uma espécie de solidão merecida porque nunca souberam o que é a maravilha de amar e ser amado. Por tudo isto, o Amor é fodido quando o lugar do amor está vazio, carregado de pó. 

Quem não tem amor, quem não é amado é só um poço seco, um buraco no meio da terra que não serve para nada, a não ser para ser perigoso. Cada um tem o amor que merece!

divirta-se

segunda-feira, fevereiro 15, 2016

INVEJA

Ora viva


Constatei que a felicidade cria inveja. Se a felicidade do outro não interferir na minha, tudo bem, mas se toca na minha alegria, eis que se torna um problema. Medíocres. Sermos medianos na capacidade de ser feliz, corta-nos as asas de um universo construtivo. Quanto mais saudável e feliz o mundo for, mas eu serei também. O sucesso dos meus colegas de trabalho, será o meu. A realização dos meus amigos no amor, será a minha. A prosperidade do negócio do meu vizinho será a minha prosperidade. 
O mundo não é a minha circunstância. 

Eu acredito na boa vontade, nos bons valores, no dar que recebe, no recebe que dá. Eu incluo-me nos invejosos. Mais tarde ou mais cedo… Odeio a inveja. Amo a felicidade. Mas a verdade é que tenho tropeçado em muitos invejosos. Ainda estou a pensar se os contorno, na indiferença; ou se passo por cima, para ver as vistas!

abraço

quinta-feira, dezembro 17, 2015

O Natal passou a ser irritante

Ora viva



O Natal é irritantemente bonito e bom. Só porque permite que sejamos bonitos e bons uma vez, com a justificação de que mais vale uma vez bom, do que nenhuma. E lá nos deixamos levar pelas ondas solidárias, os cabazes de consoada, as mantas para os sem-abrigo, os jantares bem querentes. Dia 1 de Janeiro. Não temos tempo, adorava ajudar mas…, as luzes pisca pisca apagam-se e o nosso mundinho fica às escuras, o nosso e o dos que no Natal beneficiaram da solidariedade das Marias que vão com as outras. Batemos palmas e somos todos felizes no Natal.

As empresas ganham fortunas com a solidariedade. As pessoas ganham fortunas por ajudarem e os designados necessitados ficam felizes uma vez por ano. E batemos palminhas.
Eu não sei se concordo com a ideia: antes fazer o bem uma vez, do que nunca. Eu não sei se gosto da solidariedade calendarizada e natalícia.

Contudo, ajudar é sempre ajudar. Quem precisa, uma única ajudada é abissalmente melhor do que nenhuma. Se gosto do circo à volta tudo isto, e com presépio e árvore de Natal? Este ano acho que não gosto. Acho mesmo que odeio, e odiar é tão feio numa altura de paz, amor e esperança (citação de um postal de Natal).

Há ilhas humanas que são Natal todos os dias, e que estão caladas, resguardadas das bocas do mundo, e são Natal sempre. Eu sei. Mas longe de serem a maioria. Longe de contagiarem o mundo por esta bondade.


Eu faço parte de todos estes esquemas estratégicos de ser solidário. Não sei é se me apetece para o ano. Todas as palavras que escrevi são para mim, também. Os 40 são tramados.

Feliz Natal

Palminhas! J

domingo, novembro 29, 2015

MUITA CONVERSA

Ora viva


Globalmente as pessoas falam muito. Eu falo muito, nos dias de hoje. Contrario-me, mas falo. Portanto, as pessoas ouvem pouco. Sempre fui uma pessoa na linha das pessoas caladas, e virei apresentador, o tipo que fala. Falar para televisão, não é falar socialmente. Estas minhas palavras refletem sobre as conversas sociais, entre amigos, a família, conhecidos, trabalho. Eu gosto de gente sintética, intensa e sintética. 

Podemos ser objetivos sobre qualquer assunto sem dar a volta o mundo para voltar ao mesmo dito assunto. Ser rápido na conversa, não tem de ser atabalhoado, a despachar. Nada disso. Ser rápido na conversa incentiva a atenção do nosso ouvinte. Óbvio, ninguém tem paciência para quem usa os verbos e adjetivos de todo o dicionário para falar de uma ida à mercearia.


Há também os que falam muito e de tudo. Não. Silêncio. Por favor. Um pouco de silêncio que nos ensine a ouvir. Calados também estamos bem. Nem tudo precisa da nossa opinião. Silêncio, porque se pode cantar o fado, a qualquer instante.

abraço

domingo, novembro 22, 2015

Paris

Ora viva

Todos podíamos ser Paris. Estive, pela RTP, em reportagem onde 7 atentados mataram gente como nós. Nunca terei palavras para um cenário de morte num sítio onde deveria haver luz e festa. As pessoas que morreram estavam a viver, tranquilamente, e morreram, aterradoramente.

O que aconteceu em Paris, acontece em todo o mundo, num mundo mais pobre, menos político, menos interessante mediaticamente. As mortes por atos de terrorismo cresceram muito. Mas nem de todas as mortes ouvimos falar. Outras mortes, longe de Paris, de gente como nós. Nem sabemos os sítios, nem vos digo agora, porque não escrevo aqui para informar, mas para pensar alto. Pesquisem, vão ficar assustados, e tristes por não se aperceberem que Paris é uma entre tantas feridas.
Ver os rostos de quem morreu, e que só estava a jantar com a namorada, é inquietante. Morrer porque se estava no sítio errado; provavelmente era um casal que tinha primos muçulmanos  e que naquela noite, juntos, iam fazer uma vigília contra a violência.

O mundo é pequeno. Na dor e na paz. Nós não estamos longe de nada disto. Estamos perto e fazemos parte desta história.




Abraço

terça-feira, outubro 13, 2015

SOL

Ora viva



A vida podia ser menos que o sol, mas não é. Com o sol, vem as coisas e pessoas que encontramos e olhamos. Com o sol vem o alimento do lado feliz da vida, uma vida em flor. Com o sol vem a casa luminosa, o brilho dos objetos, a transparência, o sabor do mar, a pele morna. 

O sol de todo o ano sabe-me a vida, a vontade de abrir janelas e portas. O sol alimenta-me a vontade. A luz é solene e mostra caminho.



Um dia luminoso é um dia com certezas e confiança. O sol amansa a alma. Convida a esticar a pele e deixar que a luminosidade nos aqueça. O sol é uma melodia constante de boas vontades; não será isto tudo o que precisamos para conseguir a felicidade?

abraço

terça-feira, outubro 06, 2015

A minha mãe

Ora viva



A minha mãe é um mundo, as mães são um mundo. A minha vai à luta, tem 79 anos de vida dura, nunca lhe deram nada, tudo o que tem foi conquistado por ela, até a vida de cada dia. A minha mãe enche a minha alma de segurança, a mesma que eu precisava quando chegava de um dia de escola e, com urgência, precisava do colo da minha mãe. 

Quando tinha 12 anos fui para o seminário, passava uma semana longe do regaço da mãe; lembro-me, como se fosse hoje, das despedidas semanais. A minha mãe dava-me um beijo e um abraço, nesse gesto colocava o amor que não podia dar-me durante a semana em que eu estava no seminário. Essa injecção de amor durava-me toda a semana; em bom da verdade a quarta-feira era o dia em que eu precisava do seu amor, porque já ia longa a semana. Era à quarta-feira que a minha mãe me podia ligar para o seminário e nesse dia recebia novo carregamento de amor. 

Ainda hoje é assim. A minha mãe abastece o meu coração de amor, determinação, garra, responsabilidade e perseverança. Aquilo que a vida nos dá, é aquilo pelo qual lutamos; foi sempre o que aprendi da minha mãe, Margarida de nome.

Um abraço

quinta-feira, setembro 24, 2015

A MINHA VARANDA

Ora viva

Da minha varanda vejo o mundo. Hoje, a meio da tarde, estava saturado de ideias, confusões do dia, leituras…enfim, precisava de ar. Fui até à minha varanda, fechei os olhos, desliguei-me. Consegui ouvir os sinos de uma Igreja que nem sabia haver perto, um avião, o mar, os pássaros no adeus do Verão, a rua, o silêncio. Ouvi isto tudo, e deixei de ouvir as minhas confusões que me torravam o cérebro. 

Pensar é um movimento tramado. Exige tudo de nós. Depois precisamos de varandas que nos levem para outro lado da nossa vida, onde até pode haver silêncio e outras coisas que nos fazem falta. Haja uma varanda que nos aproxime de tudo o que é realmente importante.

 Qual é a vossa varanda?

abraço

segunda-feira, maio 04, 2015

TODO O TEMPO QUE O MUNDO TEM

Ora viva



Perante o tempo…somos impotentes. Todo o tempo, da meteorologia ao relógio. O tempo mostra-nos o nosso lugar. Somos instantes pequenos no infinito universo da história universal. No meu dia-a-dia, no que ao tempo do relógio diz respeito, sou organizado e só gasto tempo com quem gosto, naquilo que gosto. O tempo é precioso, irrepetível. 

Quanto à meteorologia, tirem-me da frente nevoeiro e ventanias. Mas o que nos adianta não gostar, se não pudemos mudar, não adiantamos nem atrasamos. Perante o tempo somos aquilo que somos sempre, frágeis. De que vale a correria, se na corrida passamos ao lado de tanta coisa que pode distinguir a nossa vida. De que me vale amuar em dias de vento e nevoeiro, se a roda dos dias avança na mesma? 

Viver é o melhor remédio. O melhor e o maior remédio que temos. Extraordinária oportunidade diária. Momentânea. Aproveitem. Tudo. Ao máximo.

ABRAÇO

Hélder

segunda-feira, abril 27, 2015

OS OUTROS

ORA VIVA


Os problemas dos outros são sempre dos outros, ainda que amemos profundamente os outros antes dos seus problemas. É sempre um conflito entrar na história da outra pessoa. Não há um livro que registe a memória, as emoções, as estratégias. Não há um livro de estilo. Por mais que nos esforcemos a história nunca será a nossa. Honestamente, acho que não deve ser. A objetividade é sempre uma ferramenta para lidar com a crise.
Esta distância sobre os problemas que não são os nossos pode fazer de nós maus ouvintes, e até insensíveis para com a dor dos outros. Nunca percebemos bem o que é um dia complicado de um amigo se não vivemos o dia desse amigo. Fazemos uma ideia.
Nunca entenderemos a morte de um pai de um colega de trabalho porque não sabemos da dinâmica que havia entre ambos, e nem conhecemos o lugar mais secreto da afetividade que os unia ou desligava. Os outros serão sempre os outros e nunca nós, por muito amor que lhes tenhamos.

ABRAÇO

sexta-feira, abril 10, 2015

Laranjeiras em flor

Ora viva

Laranjeiras em flor é o melhor e maior sinal de verão, frescura, liberdade e sabor a vento. Uma ida ao nosso Alentejo ou Algarve, por esta ocasião, é dar o melhor mergulho na infância. As correrias pela rua, a bicicleta, as casas muito brancas, as escadas dos jogos sem fim. Tudo isto é, para mim, laranjeiras em flor. A par do aroma, que me fica na boca, a beleza da flor. Tão bonita como frágil, dura tão pouco e marca tanto. 

No fim do perfume e das flores, vem o fruto, que fresco recebe o verão. Uma laranja fresca no fim de um almoço de verão, entre amigos e abraços, é a melhor forma de celebrar a criação da cor, da amizade, da sede saciada, da memória de antigamente. Tanta coisa numa flor de laranjeira, que as grandes perfumarias bem tentam eternizar mas não conseguem, ninguém consegue pôr tanto num frasco. 

abraços

sexta-feira, março 06, 2015

perder e vencer

Ora viva

Perder pode ser uma incrível forma de vencer. Tenho várias derrotas na minha vida, algumas ainda não engoli bem. Grande parte delas deram-me vitórias nos dias de hoje. É assim comigo, é assim com o mundo inteiro. Dar a volta. Fazer do velho novo. Reconverter. Recomeçar. São verbos que gosto. Perder alicia a nossa paciência, a nossa resistência, fortalece o sopro da nossa vontade. Perder é tramado, dá a volta à tripa da nossa existência. 

Eu nunca daria tanto valor às minhas vitórias se não tivesse as minhas derrotas, as minhas quase tragédias. Mas não é tudo estrada à frente. Perder pode ser uma pedra no sapato e na mente. Perder esgota, gasta e consome. Perder derrete-nos por dentro. O bom é agarrar na lama dessas derrotas e dar músculo à vida, limpar a cabeça, limpar a casa da alma, perdoar e avançar. Não há outra, nem melhor, forma de vencer.

abraço

terça-feira, fevereiro 10, 2015

O frio

Ora viva

Podia custar menos, mas custa muito, passar frio! Podia não me saber tão bem, mas sabe-me a vida, músculos, palpitações. Sou fascinado por dias de Inverno, frios, cheios de sol, com árvores despidas e gente agasalhada na rua. Sabe-me melhor a bebida quente, as camadas de roupa, a luz abrigada, a forma das coisas, a mesa. O frio chama-me ao centro de mim, concentra-me. É assim, nem mais nem menos. 

Por norma levanto-me cedo. Como repórter tenho uma vida exposta ao frio, chuva, calor, desconforto, conforto, tudo num mesmo dia. Custa, muitas vezes, mas gosto, quase sempre.
A par de tudo isto há o olhar a natureza e saber que ela está abrigada dentro de si mesma, a preparar-se para sair, mostrar a sua beleza numa primavera que se quer sempre morna e com os dias a crescer.


Por tudo isto, o inverno sabe-me bem. Leva-me para o melhor de mim, o melhor de tudo o que ciclicamente vai nascer. E recomeçar pode ser tudo o que é esperança.

Bons dias de inverno

até já.

HR

terça-feira, janeiro 27, 2015

JANEIRO


Ora viva


Janeiro é o mês das concretizações. Em dezembro desejamos, em janeiro cumprimos. Pode ser? A ser, janeiro é um mês difícil. Todos falhamos nas concretizações e por conseguinte todos ficamos aborrecidos cá por dentro, é o pior dos conflitos. Eu gosto do inverno, muito. Gosto do frio, da regeneração, das mesas fartas, da lareira, do vinho tinto, de tisanas quentes, das malhas e blusões, do sol de inverno, da luz das manhãs frias.
Para mim, todos estes gostos inspiram à concretização dos meus votos de dezembro. Um dia, uma possibilidade, e com um cenário meteorológico excelente. Provavelmente é por isto que gosto tanto do inverno, de janeiro e de falhar com objetivos; sei que posso sempre voltar a tentar amanhã, porque amanhã ainda é janeiro e um ótimo dia de inverno: a altura ideal para recomeçar.

até amanhã

hélder

segunda-feira, dezembro 08, 2014

Espreitei para uma casa

Ora viva



Há dias, enquanto passeava a minha cadela e as minhas ideias, vi uma senhora a decorar a sua árvore de Natal. Sim, espreitei para dentro de uma casa. A mulher estava sozinha, mas feliz. Ajustava, com detalhe, cada brilho da árvore. Foi a melhor imagem que tive deste Natal. Preparar a casa para a época. É como quando nos aperaltamos para uma ocasião especial. Mas no Natal todos os dias são ocasião solene.

O meu Natal é sempre maravilhoso. Mesmo depois de saber o que é não ter alguém para sempre…na nossa mesa. O fabuloso do Natal é mesmo isso, persistir. Persiste à dor, à morte, à guerra, à derrota, à tristeza, ao luto, à pobreza, às dívidas, ao desamor, a toda a espécie de fins. O Natal mantem-se, fiel a si. Solene. Provavelmente aquela mulher teria marido e filhos, para os quais vestia a casa. Provavelmente aquela mulher vivia sozinha e enfrentava a maior dor da sua vida. Mas o Natal mantem-se, digno de si mesmo. Haja o que houver, seja para quem for. Feliz Natal

Abraço

segunda-feira, novembro 17, 2014

AS SAUDADES

Olá gente boa


As saudades. Nunca percebi este sentimento. Confesso, não me dou muito à saudade. Há coisas boas de nos recordamos, pessoas, momentos. A saudade, a mim, parece-me sempre coisa do passado, e que não volta, e que dificilmente ajudará no futuro. Não quero ser injusto com o sentimento mais português que o mundo conheceu. 

Há vezes em que a saudade até me parece injusta. Eu explico: lembrar-se de uma pessoa que amamos, que já não está entre nós; alimentar esta saudade é dano para a alma, dor para o coração, e a pessoa nunca voltará. Ficam os bons momentos. Pois ficam, isso é um facto, mas não voltam os momentos. Não regressam as pessoas.

É…acho que afinal de contas não gosto da saudade. É tristeza para a alma, e ausência para o coração. Não consigo gostar daquilo que me faz sentir falta.

Até amanhã

Hélder

quarta-feira, outubro 08, 2014

perder

ora viva

Saber perder exige tanta humildade como saber ganhar. Quando perdemos há sempre uma revolta, um certo desejo de vingança, uma vontade de desistir. Tudo na escala da perda que sofremos, claro. Mas que há sempre um frio de indignação, isso há. Pois bem, eu tenho perdido, como todos vocês. E com o tempo que o tempo me tem dado, tenho-me apercebido da necessidade de humildade para receber a derrota. Não é resignação, é humildade. Quando perco, olho para o que perco e pergunto: e agora? O que vou fazer contigo? Antes disso, vasculho dentro de mim os motivos, as culpas, as soluções. 

Este é o esqueleto de como lido com a perda. Nem sempre chego às respostas, e eu que tanto gosto de boas respostas. Mas, até à data, tenho resolvido quase todas as minhas perdas. Nem sempre fáceis. Nunca públicas. Coisas minhas, de mim para mim e depois de mim para o mundo. No fim de contas fica a humildade, a minha humildade sai sempre mais forte depois de cada derrota.

abraço

quarta-feira, setembro 24, 2014

O silêncio

Ora viva

No princípio era o silêncio e o silêncio tornou-se no princípio de todas as coisas. Quanto mais vivo, mais gosto do silêncio. Quanto mais gosto do silêncio, mais vivo. Como profissional da comunicação, cabe-me saber perguntar, mas também saber ouvir a resposta. Nunca farei uma boa pergunta, com toda a preparação e concentração que perguntar exige, se não me dedicar à resposta do meu convidado. Para tal tenho de me calar, é simples. Nunca conseguirei fazer uma nova canção se não me calar e ouvir o silêncio, que é o espaço onde existe a criação. Para vos escrever este texto, estou sentado, em silêncio, na companhia de uma luz morna, uma janela aberta, no sossego da casa.


O mundo é falador. Cada vez mais. Há gente que não se cala. Por todas estas contas, gosto de gente calada, não dos sonsos, mas daqueles que se calam para ouvir, ou porque não têm nada a acrescentar. Quem disse que temos de ter sempre opinião? Ou que para se ser sincero tem de ser dizer tudo o que se pensa e não pensar no que se diz, ou se vale a pena dizer?


 O silêncio é de ouro, diz quem sabe, e há muitos anos. Eu gosto do admirável mundo do ouvir calado. Experimentem. Vale mesmo a pena!

Abraço

terça-feira, setembro 16, 2014

O tempo que faz lá fora

Ora viva

O tempo que faz lá fora nunca é o tempo que faz dentro de mim. Falo de meteorologia. Gosto do tempo todo. A chuva embala-me o corpo, apetece-me quente. O calor amolece-me a alma, desejo as árvores e a sua sombra. O vento acorda-me os músculos, espevita-me por dentro. O nevoeiro adormece-me os sentidos. A trovoada acorda-me os olhos. Gosto da luz do outono, das manhãs de primavera, das noites de verão, da morrinha do inverno.


 Do frio na pele e chegar a um sítio quente. Gosto muito da minha vida cá por dentro, e acho que ela fica agradada com qualquer tempo que faça cá fora. Isto é bom. Nunca estou sentado no constante do mesmo tempo. O meu corpo, o meu dentro, surpreende-se sempre com cada estado de tempo…e a monotonia morre entediada. Sempre gostei das coisas de dentro para fora. Parecem-me sempre mais resolvidas. Neste movimento, quando o meu dentro se confronta com o tempo cá de fora, a surpresa e o agrado são sempre constantes. Experimentem!

abraço
Hélder

sexta-feira, agosto 29, 2014

Meu querido mês de setembro

Ora viva

Setembro era um mês que eu adorava. Dias mornos. Molenguice. Vontade de nada. Fins da tarde na praia, a apetecer uma toalha enrolada no corpo. A areia a suspirar de alívio depois das enchentes de Verão. Preparar o regresso às aulas, à altura sem esta especulação de mercado! Enfim…dias serenos do meu querido mês de Setembro. 

Bom…agora setembro parece o mês em que se concretiza tudo aquilo que uns e outros andaram a preparar entre julho e agosto. Pois é neste mês nove que tomamos conhecimento de tudo. Muito muda. Muito aumenta. Muito se despede. Muito se contrata. Muito se espera e desespera. Até parece que os dias apetecem menos com medo do mês em que todos os ventos se conhecem. 

A verdade é que quando eu vivia os suaves dias de setembro dos tempos idos, a vida não me fazia tanta aflição como me faz hoje. Crescer tem destas coisas. Emancipa-nos e dá cabo da nossa inocência. 

até amanhã
Hélder