terça-feira, outubro 24, 2023

Sê forte quando te apetece ser fraco?

 

Pessoalmente, estou cansado dos otimismo, do aqui e agora, vive o momento, aproveita as dores e constrói-te, isto estava destinado para a força que tenho para enfrentar. Porra para tudo isto. Estou com a Joana Marques... do contra. Porquê? Porque temos o direito e a normalidade de chorar baba e ranho, de baixar os braços, de dizer uma carga de palavrões, perguntar por Deus, porquê a mim, e deitar no sofá, para além do nosso corpo, deitar a alma, o passado, o presente e até o futuro. O que não podemos é ficar aí para sempre, mas se precisamos disso, qual o mal? O pior que me podem dizer quando estou no pior de mim é dizerem:  força, vai passar. Como sabes? E onde vou buscar força se não tenho nenhuma, e que tal dares uma canja e um abraço.

Não estou desacreditado, estou sereno, confiante e esperançoso, mas farto das teorias de positividade e de gente que sei que chora baba e ranho por não ter companhia na cama da vida, um emprego de sonho, uma paz de família. Na verdade, problemas de todos os nós, só que vende bem estar bem, ou sem conhecer o bem o que é estar em paz consigo mesmo. Entrem em guerra por dentro e depois... depois de cansados, experimentem a paz e o silêncio da reconciliação. Porque a vida é difícil, mas é incrível, e difícil.

Hélder


terça-feira, setembro 26, 2023

A VIDA É BOA

 


A vida é boa, não é uma boa vida. Porque a vida está difícil, financeiramente, socialmente, no trabalho, ambientalmente, internacionalmente... nós sabemos, e mais do que isso, nós sentimos. Contudo, tenho de olhar para minha vida, também. Ela é boa, porque me permite usufruir da luz, do sossego, da concretização, da paz, do amor, da solidão voluntária, da casa, das viagens, do crescimento interior, da saúde. Só tenho motivos para ser grato. Metade luz, metade vida.

Também é boa porque sei lidar com a dor de quem já não tenho, com a malicia, com as desilusões, com o medo, com a frustração, com a minha falha; tudo isto, sabendo lidar, faz da vida... boa.

É incrível a sensação da luz no rosto, o sal do mar na boca, um bom vinho com o céu estrelado, a liberdade do campo, a liberdade da vontade, o vento nas mãos suadas, os casacos em dias de frio, a água fria com sede, as maçãs frescas e rijas, a fruta da árvore, uma nova viagem, uma lareira a acompanhar um jantar, um abraço honesto, um beijo na boca, observar os pássaros, as mãos na terra, os pés descalços, alongar os músculos, espreguiçar-me de manhã, ter calma no dia, as árvores nos seus tempos... a vida é boa, a minha vida é boa porque tem estas vidas. Sorte a minha, sempre que não a sei complicar e me fico com a luz, naquela metade de mim.

Até já.


quarta-feira, junho 28, 2023

OS COMENTADORES E EU

 




A vida não anda fácil. Sabem bem disso. Há uns anos decidi mudar, o que como, com quem estou, quem ouço, as escolhas, mais desporto e como me informo. É tão importante a informação que escolhemos ter. Confesso, não alinho em comentadores. Respeito total, mas não quero que me metam a pensar nas ideias que eles criaram, e por vezes profundamente alarmistas, e acabam, na sabedoria do tempo, por serem ideias só populista e vazias na verdade da história. Nem todos os comentadores, claro, mas bastantes caem na tentação do futurismo alarmista. É o que sinto.

Eu não quero que me encham a cabeça de ideias, eu quero ter a minha ideia, leio um jornal credível e tio as minhas conclusões, se tiver dúvidas, aumento o leque de informação. Não leio opiniões nem ouço debates de opiniões. É a minha escolha, quero factos, não quero projeções.

Sinto-me menos poluído, menos alarmado e mais sereno. Porque para caos, já me basta o mundo em que vivo.

Esta é só a minha opinião, com total respeito por quem opina e por quem escolhe ouvir comentários.

Abraço, Hélder

terça-feira, maio 30, 2023

ALEGRIA DE VIVER


 Estão à frente do nosso nariz bons motivos para cultivar a alegria de viver. A vida não anda fácil, mas anda possível. Certifique-se que vê o sol brilhar, ou a chuva cair, que sente o perfume de um alecrim e consegue dar uma caminhada à beira mar. Veja como está a sua planta, se está regada, se tem pó, se precisa de mudar de janela. Já reparou, ao abrir a janela, que o ar anda fresco? E que as árvores da sua rua estão mais crescidas? Não é incrível molhar as mãos e sentir a frescura da água escorrer pela pele, e aproveitar e passar essa água no rosto, sentir que estamos acordados para sentir a vida, e não a deixar passar nos intervalos da nossa atenção. Tenho a certeza que vai encontrar alegrias de viver em tantos destes detalhes...


Abraço

Hélder

segunda-feira, maio 15, 2023

E SE CHOVER?


 Seja em que altura for, a chuva é sempre limpeza, rega, fertilidade. O país vive seca, nem lhe vou dizer o que dizem os estudos, decerto devia, mas este blogue é de palavras livres, não de factos, contas e jornais. O mundo não está de saúde, Portugal está empoeirado, não chove, há pouca água... e não se faz nada? Fazer com que chova... não dá, mas há centenas de formas de poupar água e estabelecer modos de distribuição da água pelos grandes utilizadores da mesma... os políticos estão à espera que lhes falte na torneira para tornar isto um problema a ser resolvido. Quando faltar na torneira, as alfaces morreram, os lagos secaram, os rios morreram novamente, os pomares secaram, enfim... a vida murchou.

Eu uso a água que antecede o meu banho para regar as minhas plantas. Lavo a varanda com regador e não com mangueira. E lá vou dando o meu contributo. Não sei fazer com que chova, mas sou agricultor, gosto de uma natureza verde, e não há verde sem água. Não há agricultura sem água, não há turismo sem água, nem parlamento, nem campanhas eleitorais, nem carros, nem eletricidade. A vida desidrata-se.  A terra tem a garganta seca.

A chuva é um fenómeno maravilhoso, na dose certa, acalma-nos, chama-nos para dentro de casa, apela à observação e.. torna o mundo mais saudável. Se não chove, valorize a água que gasta. A água é o ouro do futuro, acredite.

segunda-feira, abril 24, 2023

CALA-TE UM BOCADINHO


 Quantos de nós, mesmo lá no fundo das ideias, já não quis dizer a isto a alguém que não tem o mínimo de noção de quando se deve calar, para ouvir, ou porque já contou, exaustivamente, a história que estava a contar ou o interesse morreu nas primeiras frases? Eu, confesso, dezenas de vezes. E há dias em que não me consigo controlar, mesmo, porque há pessoas descontroladas nas palavras.

Há os que perguntam se está tudo bem? Tudo... a horta, o chuveiro entupido, a humidade lá de casa e já agora a depressão ou aquela crise no trabalho, vai tudo dar ao mesmo, tudo bem? E pronto, está manifestado o interesse. E depois... somos metralhados por palavras, sem dó nem piedade.

Caramba, é assim tão difícil te aperceberes que só estás a falar, e que a vida não é um monólogo. E depois há gente que adora detalhes, muitos detalhes, todos os detalhes do mundo numa conversa. Deve ser defeito meu de profissão e formação, mas gosto de síntese. Claro que há situações, raras, que exigem detalhe, mas tanto..., é que há pessoas que é uma saturação de pormenor. E o silêncio, ouvir e falar devem cumprir os votos de silêncio, só assim se ouve, só assim se fala. Mas... há pessoas que na conversa metem telemóvel, piadas, comentários sobre outras coisas, cruzam conversas e descruzam a atenção. 

Se é por mal, acredito que não, mas por bem não é certamente.

segunda-feira, abril 03, 2023

FELICIDADE PARA QUE TE QUERO

 Ora Viva



    Estamos numa má lista de felicidade, mais uma. É estranho uma lista de felicidade, confesso. O que dita a felicidade?... Mas isso são outros 31. Quanto a nós, estou entre o perceber e o não entender de todo; olho para Portugal, que conheço bem, e acho-nos plenos, contudo privados. Sinto que nos falta olhar para cima e receber o sol, mas isso não enche barrigas, ganhamos mal, mas também não sei se quando ganhavamos mais eramos os tais felizes da lista. Não sei. Por outro lado, estou cansado dos pregadores da felicidade, onde tudo é fácil, simples e está dentro de nós, como um ovo com brinde. E saltitam teorias e livros como pipocas... Não é assim, para ninguém. Conheço ricos miseráveis de infelicidade, pobres super realizados, empresários radicalmente tristes, gente que escolheu viver com pouco e estonteantemente feliz. A fórmula? Não percebo nada disto, e acho que ronda cá nos nossos interiores, e também pelo modo como usamos a carteira, prioridades, para quem as pode considerar. Viver, no global, não é fácil, mas é incrível. Tenho a percepção que a classe política não faz a mínima ideia de quem são os portugueses, vivem de agenda mediática, e muita da nossa vida está nas mão deles, dos bancos, das seguradoras, das empresas... e por aí fora. Soluções? Viver a nossa vida pessoal do modo mais intenso, bravio, espesso, denso, picante, pacífico, livre, íntimo e sereno. Porque ninguém nos rouba a interioridade, íntima e sagrada, e aí a felicidade não tem lista. Cultiva-se. Como?... eu sei a minha teoria, e isto não é coisa de se partilhar...


Abraço

segunda-feira, fevereiro 06, 2023

O MEU EQUILÍBRIO

 

                                                                             Fotografia Arlindo Rego


Equilíbrio. Uma palavra estupenda, um exercício complexo. Estou longe da perfeição, mas perto do que não quero. Desde a morte da minha mãe que a minha vida assumiu diretrizes diferentes. Os problemas relativizaram-se, os objetivos de vida tomaram outro caminho, as minhas relações mudaram. O meu equilíbrio começa em mim. Sozinho. Calado. Contemplando. Mais ninguém pode fazer isto por mim, e há gente que atrapalha este caminho. Não é por mal, claro. Mas são pessoas complexas, com egos grandes, raramente olham para o lado e quase nunca abdicam de si pelos outros. São o maior ruído da minha vida, e um obstáculo ao meu equilíbrio. Não são nem mais, nem menos que eu, mas não podem fazer parte da minha balança. Do meu equilíbrio faz parte muita vida que não só pessoas, claro, mas agora é delas que falo.

Raramente me perguntam como estou depois da morte da minha mãe. Já lá vão 3 anos. É um problema meu. Como sabem, o luto demora anos a sarar. Sinto que estou no caminho certo, mas era reconfortante sentir interesse de quem até parece interessado, mas não. Tal como outras felicidades ou tristezas, que devemos perguntar, querer saber, mostrar interesse. Sermos interessados revela a maior humildade relacional da humanidade. E as pessoas... as próximas e as outras podem erguer e poluir, ao mesmo tempo.

Não é um: estás bem? ou fixe? ou qualquer outra generalidade, que me vai dar vontade de partilhar. A uma pergunta geral... respondo com generalidades, e fico a conhecer melhor o interesse do outro. Para o meu equilíbrio escolho os pesos para a minha balança, e como até treino mais o meu corpo, começo a conhecer bem os limites dos músculos da minha carne e da minha alma.

A atenção, exercício fulcral na vida, é muito difícil para quem a vida é camuflada de um umbigo gigante e plena de bons argumentos desiquilibrantes... :) precisei de criar esta palavra!!!


Divirtam-se e estejam atentos... a quem importa, MESMO!

Hélder

terça-feira, janeiro 03, 2023

 


Ano Novo... os meus votos, são... não ter votos. Eu explico. Já todos percebemos da rapidez da vida, uma água que ferve e rapidamente se esfria. Não fazer grandes planos é o maior plano da vida, da minha vida, entenda-se. Baixar todas as expectativas, sobre pessoas, relações, trabalho, conquistas... tudo em níveis bastante modestos. Isto é o que eu quero para o meu ano de 2023.

Porquê? Assim não alimento a frustração, e deixo que a vida me surpreenda. Farei o que me compete, é isso, ser competente no dia a dia, mas não mais do que isso. Quanto aos sonhos, permito-me sonhar, mas sem grandes voos, tal qual os pássaros quando ainda não estão no ponto para sair do ninho. Proteger-me. Prefiro assim, enquanto puder. 

Isto não significa resignação, perda de ambição, acomodação. Nada disso, isto é o maior desafio da minha existência, não planificar tanto e tudo, até estragar os planos que a vida teria para mim. ( mestre Agostinho da Silva)... deixar acontecer, estar focado, ser eficiente, e respirar...


BOM ANO

segunda-feira, outubro 10, 2022

SAÚDE MENTAL

   

Há muitos anos tive um esgotamento nervoso e uma depressão, ainda não estava na televisão. A depressão repetiu-se anos mais tarde. Nunca me falaram de saúde mental, nem eu nunca falei disto. Sinto que para vivermos a vida de hoje, temos de ter uma grande estrutura mental, familiar, física. Isto é basilar para a saúde mental. Eu nem sempre tive estes pilares. Quem nunca? Hoje? Sinto-me forte, seguro, sereno, por dentro e por fora. Não inabalável, mas consciente da minha fragilidade e com isso erguer a minha força.

    No seminário era normal a prática de longos tempos de silêncio e reflexão. Isso ajudou-me muito a encontrar-me cá por dentro e entrar no caminho da meditação pelo silêncio e pela respiração. Sou muito grato ao meu passado, à ajuda da minha Cristina Alves, instrutora certificada de meditação e à minha Joana Teles, que criou um projeto incrível, a DAOQUI, que além de tudo, promove a saúde mental. A vida é assim, vai-nos orientando. Eu salvei-me da depressão. Cultivei a minha saúde mental, inteirei-me do que é uma boa e uma má saúde mental. Não acho que o país esteja totalmente preparado para a doença mental, mas já esteve pior. E se não for pelo estado, há muitos sítios que podem ajudar, mas saibam escolher... há muita charlatanice. O que faço hoje?

Medito, ouço a minha música, respiro conscientemente, faço desporto, uma boa alimentação, durmo, cultivo o tempo, reduzi os meus contactos a pessoas que me fazem bem, procuro fazer o que me realiza, acrescenta valor e dá futuro, cultivo plantas, sou agricultor, escrevo. Realativizo. Se consigo sempre? Não; mas para isso é que serve o dia seguinte.

    Cuidem da vossa saúde mental

terça-feira, setembro 06, 2022

VIVO COM A DOENÇA DE MÉNIÈRE

 

Ora viva

É, sou doente ménière. Não é grave, mas, por vezes é violento. Há muita gente a padecer desta doença. Zumbidos, vertigens, perda de audição. Não é um drama, mas não é canja. Solução? Não há. Medicação, bons médicos, dieta, muito desporto e reduzir o stress. Não cura, mas atenua. Assim tenho de viver, com o que a vida dá, e não dá, e fazer disso coisas boas. Como ver na doença coisa boa? Pois, não sei, mas vejo coisas boas em fazer mais desporto, ter mais cuidado com o que como, ouvir mais o meu corpo, cultivar a calma, relativizar. Ter mais atenção, isso é bom. Não?

Não só minimiza o ménière como ajuda na vida toda, e eu gosto de olhar para a minha vida como um todo. Não temos tesouro maior do que a saúde. A que temos, não é a que adorávamos ter. Estimar o corpo, ter tempo para amar, viver, ter calma na respiração. Parar. Só tenho este corpo, esta vida, e este momento; não posso dar cabo de tudo com inconsequências e perdas de tempo. A minha vida é agora. Não é só no ménière, aplico a tudo, TUDO. Que se lixe a correria e o era para ontem. Nada está primeiro do que a minha saúde, porque sem ela, tudo o resto não rola...

Quem está comigo? :)

segunda-feira, julho 25, 2022

Nunca gostei de homenagens, mas...

 


É a mais pura das verdades. Não gosto de festas surpresa, homenagens e elogios. Mas apercebi-me que a recusa a quem nos quer fazer este agrado é um sinal de muita arrogância e pouca humildade. Como cultivo a gratidão e a humildade, aceitei a recente medalha de mérito cultural, oferecida pela câmara de Ovar, na pessoa do presidente Salvador Malheiro. Aceitei porque o Salvador Malheiro é um homem por quem nutro muito respeito. Aceitei porque era uma forma de eu cultivar os valores da responsabilidade, da capacidade de criticar, de me envolver, de ser mais humilde e melhor cidadão. Aceitei porque assim sou chamado a dar mais pela terra do meu pai, e concelho do meu berço, a cidade de Esmoriz. 

Ovar é a cidade do azulejo, do mar, do cantar dos reis, do carnaval. É uma cidade feita de cor, praças pequenas com árvores antigas, recantos que apetece guardar e comércio tradicional. É um encanto de uma cidade. Quando era filho, ia com os meus pais fazer vida em Ovar, que dias felizes. Foi na biblioteca de Ovar que preparei grande parte da minha tese de Teologia. O furadouro, a sua praia. Os vareiros, a sua gente, nós que lhe conhecemos o sal.

Aceitei. Recebi a medalha e ficou a vontade de abrir as muitas ideias que tenho para esta terra, como cidadão. Tenho críticas a construir. Por tudo isto aceitar foi importante, é uma vaidade boa, a que incentiva a ser melhor. É preciso saber receber, tão importante como saber dar.

quinta-feira, maio 26, 2022

O SILÊNCIO CALA


 Comecei a ler o incrível livro A BIOGRAFIA DO SILÊNCIO. Recomendo, pensava eu que sabia muito desta arte! Sempre fui dado a esta prática. Tive uma infância muito feliz, cheia de amigos, na rua, na praia; mas lembro-me bem de passar belas tardes sozinho, com as minhas coisas, a desenhar os meus sonhos, calado e sossegado. Não sou dos calados, sou dos que fazem silêncio, como prática, como estratégia, como arma. O silêncio é uma singela e pertinente luz de presença na nossa mente. Eu acho que a voz da alma é o silêncio, por isso nunca fica rouca. Tenho a tentação de falar sobre as pessoas que disparam palavras, atropelam a conversa dos outros, e são péssimos ouvintes, mas satisfaz-me referencia-los...

No seminário fazíamos uma semana de retiro em silêncio, mais do que uma vez por ano. Na altura, não percebia a validade; curiosamente, hoje, olho para esses dias como períodos de elevada maturação, como se fossem a estufa do meu ser. Estar calado tanto tempo, tantas vezes, tantos anos, edificou-me. Nunca tenham receio do silêncio, recomendo prevenção face aos ininterruptamente barulhentos.

Até já.

terça-feira, abril 12, 2022

A vida pela metade?


 

A vida não tem medidas para ser metade.

Ou é inteira ou não é nada.

Ou sofremos ou sorrimos.

Não podes sofrer e rir ao mesmo tempo.

Não podes viver a meio tempo e o outro meio morreres.

São poucos os que vivem mortos, mas ainda os há. 

Ou morreram de amor, ou lhes mataram o amor. Neste caso, a vida pode ser metade.

O amor é o único apocalipse das metades permitidas.


Hélder Reis



segunda-feira, março 07, 2022

MORREU UMA PLANTA, NASCEU UM JARDIM



Há anos que cultivo a prática de ter plantas em casa. Recomendo. Não tenha muitas, tenha as que consegue cuidar. Que até podem ser muitas! Mas uma basta. As plantas enchem-nos a casa de raízes de amor, pureza, resiliência, sabedoria, paciência, pureza e serenidade. A minha mãe sempre teve muitos vasos de interior, e exterior. Era um amor às folhas, à terra, à semente. Quanto mais envelheço melhor percebo. Pouco depois da morte da minha mãe, fui buscar um vaso da sala. Chamei-lhe Margarida. Eu só queria que a margarida vivesse. Vivesse tudo o que a minha mãe já não viveria. No mês em que fez dois anos sem a minha mãe, a margarida em vaso começou a morrer, e morreu-me. Faz parte, eu sabia. Hoje decidi semear margaridas e procurar uma planta igual à minha margarida, em vaso. Irei conseguir. Para já as margaridas estão na terra para nascer. Porque da terra nasce a vida. E hoje, sem saber, ou até sabendo, um amigo do coração ofereceu-me uma toalha de mesa... com margaridas. É para isto que nos servem os amigos. Não para nos serem úteis, mas para serem atentos, delicados e oportunos no amor. 
A amizade não substitui nada, enganei-me durante anos. A amizade não é a  família que escolhi, porque perdi o conceito de família. A amizade dá-nos flores que não morrem mas que enchem uma casa de vida e festa, à volta de uma mesa e de um coração, mesmo que o coração ainda esteja ferido pela ausência eterna, aqui sei que a eternidade existe.
Sorrio, porque tenho um vaso com sementes de margaridas, e uma toalha com margaridas estampadas, e um amigo que sabe da respiração luminosa de uma flor.

Até amanhã.

quinta-feira, fevereiro 03, 2022

UM DIA FELIZ...

 

O que é um dia feliz? É aquele em que ganhas, em que arrumas, ou até em que perdes? O que é? Como se faz de um dia, um dia feliz? As coisas esfumam-se, é como quando recebíamos os presentes de natal em criança, eram incríveis até tirar da caixa, depois... nada. Então, o que fica para um dia feliz?

Nos meus 40 anos, um dia feliz, era cheio de trabalho, planos, projetos, a correr, muito muito muito. Agora, quase nos meus 50, é o tempo que me faz feliz. Nem sempre, mas quase sempre. Ter tempo é o maior luxo que a vida nos pode dar. Porque se tens tempo, tens vida para o gozar, e com a vida vem tudo. Não precisa de ser muito, só precisa de vir com calma. Como um colchão de ar numa água transparente...


Até já.

Hélder

domingo, janeiro 30, 2022

DE QUE NOS VALE A SAUDADE

 



Se não vale a pena, não vale. A saudade ata-me ao que já não sou, não tenho, não estou. Principalmente a quem já não tenho. 2 anos sem mãe. Desde que me morreu, e que nunca perguntei porquê, só sinto que as mães nunca deveriam morrer. A ciência devia também conseguir uma vacina de permanência das mães junto de nós. A dizerem para vestirmos o casaco antes de sairmos, a saberem se já almoçamos, para onde vamos e que estamos muito magros. Caramba, que saudades de me perguntares o que fiz hoje, para onde vou amanhã, o que vou vestir. Saudades de me olhares em silêncio, a saberes dizer tudo em silêncio. Que saudades de ver os teus olhos pequenos, do tamanho do mundo e de estares sempre inquieta com as ondas do mar, do teu mar. Mãe, as tuas margaridas, da porta de entrada estão quase em flor, mãe, não à tua espera, porque já não vais entrar em casa, mas a dizer que nunca saíste dela.

 2 anos é muito tempo sem ti e tão pouco para me curar da tua falta.

quinta-feira, janeiro 06, 2022

Dia de REIS...


                                                  

 Neste dia, o meu avô, que era negociante de vinho, ia ao Porto mandar fazer um novo fato, no alfaiate de sempre, escolher o seu chapéu de novo ano, e comprar tudo para a ceia de família, o bolo de frutas e o bacalhau. O meu avó era um homem de família, gostava da boa mesa, de vida confortável, do seu trabalho e da sua família, amava muito da sua família. Um avó de riso fácil e de rigor no coração e na palavra.

 A noite era de reis, da família, ele tocaria na sua guitarra, a minha avó estaria aflita na cozinha, com tantos detalhes de dia solene, e no final todos jogavam às cartas e falavam, necessariamente, dos outros dias de reis, com saudades e gargalhadas à mistura, a quererem adivinhar o próximo ano.

Nunca conheci o meu avó materno, mas recebi tantas histórias da minha mãe que sinto que o conheci e com ele vivi estes dias de festa e família, quando tudo fazia um sentido diferente, ou até mesmo sentido, na totalidade da palavra.


Chamava-se Augusto Reis, o nome que eu gostaria de ter, ou que os meus filhos tivessem, um dia...

Bom ano. Bom dia de reis...


Até já.

quarta-feira, dezembro 22, 2021

COMPROMISSO

 

                                             

Nunca vos aconteceu falharem convosco de tal forma que até vocês têm vergonha de dizer o que quer que seja? Parece parvo, mas é verdade, há gente com essa hábil capacidade, colocar o animal selvagem à solta e  o ser humano na jaula. Ainda que alguns homens merecessem uma bela de uma estadia numa jaula, e nenhum animal deveria de ser enjaulado. Mas serviu só para o exemplo. Dar a volta à questão, é o que é.

Para mim tudo se resume ao compromisso. É tramado dizer a verdade, chegar a horas, dizer que não, dizer que sim, querer e não querer, ser honesto, perder e assumir culpas, dividir e perdoar. É tudo uma questão de compromisso, acredite. 

Há tempos ofereceram-me um serviço, implicava horários, dias, e tudo foi falhando. Na verdade ofereceram-me, mas deixei de querer, senti que se tornou num favor, inconveniente para mim, e não suporto que me façam sentir como que toma lá porque é de graça, e por isso aguenta. Para isso pago, vou aos sítios e está feito. Tenho um amigo que não aceita borlas, cada vez o percebo melhor. Até na oferta o compromisso falha ou é interesseiro...

Mas isto aplica-se ao trabalho ( onde é difícil dizer a verdade e assumir consequências), às amizades ( onde nem tudo é como queremos), aos namoros, aos jantares de amigos ( onde uns atrasam-se, outros pagam, e outros não a tudo).

Às vezes apetece-me "descompromissar" com uma série de gente, contratos, serviços, e afins. Pode ser que seja a resolução para 2022.


Divirtam-se





terça-feira, novembro 02, 2021

O SILÊNCIO ASSUSTA-TE?

                                                                                           eu...

O silêncio. Que opinião têm das pessoas que gostas do silêncio? Não são as que cultivam agora o silêncio, com a descoberta dos retiros, meditações e afins. E que bom que assim seja. Mas não, falo das pessoas que sempre gostaram do silêncio. As que falam baixo, mesmo que se queiram impor, as que preferem cafés sem música, shoppings sem música, e sentem que um restaurante barulhento, azeda qualquer vinho.
Sorte a minha nunca cultivei o silêncio, sempre estive casado com ele. E todos confundem o rapaz calado com o rapaz tímido, frágil, inexperiente; foi assim toda a minha vida, e na verdade sou o oposto, e na verdade (novamente) rio-me muito destas atabalhoadas avaliações. Eu só gosto do silêncio e lido com dificuldade com as metralhadoras de palavras, ditas e escritas. Para mim, também há livros cheios de ruído.

Gosto do silêncio porque me faz bem, é só isso. Tal como gosto de vinho tinto, roupa, praia, viagens, fotografias, massa, chuva, árvores, terra, séries, livros, plantas, cobertores, mel. Simples, não é? Mas eu sei, há os que não acham, e confesso que lhes vejo uma certa piada. Porque é tão fácil analisar o outro ao contrário do que aquilo que ele realmente é. 

Até já.