domingo, maio 13, 2012

A CASA

Ora viva

Lembras-te da casa onde nasceste e te fizeste..e desfizeste daquilo que não querias ser? Lembras-te das tardes de sol, dos lanches apressados porque a vida era uma brincadeira de levar a sério? O jardim bem arrumado, as escadas quentes do sol...à espera de ti para as desceres e subires vezes sem conta. Nem pensavas...para onde me levam as escadas?

E as portas, as janelas, a chaminé, tudo o que nos nossos desenhos ganhavam uma espécie de vida com olhos e boca, e era a nossa casa. E o cheiro!? Da cozinha no Natal? Dos almoços de domingo, melhorados por ser dia solene. E lá permanecia a casa...a ver o tempo passar e nós nem pensávamos que o tempo passava para outra coisa que não fosse a brincadeira que se seguisse, e o tempo passa da luz para as sombras, da morte para a vida, da vida para outra coisa chamada saudade e que tem uma insaciável fome.

E quando cresces e vês esta casa envelhecida, com o tempo a fazer das suas. As coisas lá estão, paradas e pousadas. Carregadas de sombras e de memórias. Malditas e benditas memórias sejam vós! Agora somos nós que vemos a casa, desejosa que o tempo regresse aos almoços de domingo. E tudo vai longe. E o longe não volta. E nunca nos disseram isto enquanto perdíamos horas a brincar com o tempo, o mesmo que um dia nos faria falta à juventude.

E como havemos lidar com esta dor do fim e do perto do fim. Do adeus e do quase adeus. Arranha-nos, não os joelhos das brincadeiras, mas a alma, porque agora somos gente séria de alma dolente e madura, e gente de poucas brincadeiras. Tem de ser. Tem que ser. Tenho de Ser.Eu e a casa. A que fica e a que não volta.

Até breve

Hélder

6 comentários:

Bi eL disse...

Volta, sim, Hélder e fica... por inteiro. Às vezes somos "a casa" em memórias que nos teceram no tempo, em vultos, fios invisíveis que habitam a infinitude da luz. Às vezes somos "a casa"... e somos água... ou pedra... E somos sempre "a casa" e a saudade e o silêncio em que nos tornamos e que só nós entendemos.

Hélder, muito obrigada por ser quem é e partilhar este sentimento tão genuíno, numa escrita que eu leio e releio, sempre com a mesma emoção.

Boa semana

B. Luz

(P.S. Onde posso adquirir o seu livro? Diga-me, por favor)

Bi eL disse...

Olá, Hélder.

Começo por pedir desculpa por estar a incomodar novamente. Sei que dispõe de pouco tempo livre e terá certamente excelentes formas de o preencher.

De seguida, peço para eliminar ou bloquear este comentário. Guarde apenas o seu teor.

Sou uma senhora antiga, venho de um tempo feito de longes. Aposentada, adoro ler e escrever, para lavar a alma e purificar a dor, mas também para ativar as sinapses, que são cada vez mais preguiçosas:)

Não tenho grande espaço de mobilidade, por razões que não interessará referir.

Neste cenário, criei um pequeno blogue de poesia, onde passo grande parte dos meus tempos livres. Se tiver 5 minutos disponíveis, agradeço a visita

http://guardosilenciosdebaixodapele.blog.com

E se tiver mais 5 minutinhos livres, peço-lhe que me envie um mail [ penso que o meu endereço fica no comentário :) ] a dizer-me onde posso adquirir o seu livro, por favor.

Eu gosto muito de poesia. O meu blogue tem sido um desafio e uma aprendizagem, dentro das minhas limitações.

Adoro poemas curtinhos, "compactinhos", já tentei alguns, mas são muito difíceis :)

Hélder, perdoe o tempo que gastou comigo. Sei que tem um grande coração e vai atender os meus pedidos.

Mais uma vez, muito obrigada e muitos parabéns por ser quem é.

Desejo-lhe uma excelente semana.

B.Luz

Anónimo disse...

Lembro pois. Da cabeça partida. Das brincadeiras de irmãos! E das ligações fortes! Do novo computador! Das sestas na janela, sem pensar na queda! Dos grandes filmes gravados em cassete! Nas voltas de bicicleta pelo fim do mundo! E nas quedas! No tempo que não deixava um minuto! do telhado com vista para a aldeia! da comida com tempero de amor! …agora restam as paredes… e o cheiro que se entranha nas paredes! Mas é diferente! Não sai das paredes! Não sabe como antes! Mas sentimo-lo! Depois a separação, os brinquedos arrumados, o quarto, os sorrisos e guardados em caixas, as nuvens por cima da casa… o sol deixou de bater! Cada entrada pela porta é uma alegria de estar, mas uma tristeza de não poder estar! É muito triste saber não poder voltar à casa grande! E porque somos gente sem tempo, deixámos de ver a relva a crescer e a nespereira a secar! Agora é sempre o tempo! Já ninguém o tem!
Um grd abr.A82

Anónimo disse...

Lembro pois. Da cabeça partida. Das brincadeiras de irmãos! E das ligações fortes! Do novo computador! Das sestas na janela, sem pensar na queda! Dos grandes filmes gravados em cassete! Nas voltas de bicicleta pelo fim do mundo! E nas quedas! No tempo que não deixava um minuto! do telhado com vista para a aldeia! da comida com tempero de amor! …agora restam as paredes… e o cheiro que se entranha nas paredes! Mas é diferente! Não sai das paredes! Não sabe como antes! Mas sentimo-lo! Depois a separação, os brinquedos arrumados, o quarto, os sorrisos e guardados em caixas, as nuvens por cima da casa… o sol deixou de bater! Cada entrada pela porta é uma alegria de estar, mas uma tristeza de não poder estar! É muito triste saber não poder voltar à casa grande! E porque somos gente sem tempo, deixámos de ver a relva a crescer e a nespereira a secar! Agora é sempre o tempo! Já ninguém o tem!
Um grd abr. A82

disse...

A CASA... um verdadeiro album de fotografias. Já li vezes sem conta as tuas palavras e em cada leitura uma nova fotografia registei da minha "casa".

Beijinhos fotográficos.

O;D

Lálá disse...

Que liiiiiiinnnndoooooo...!!! :) Parece que andaste a viajar pela minha infância na aldeia da minha mãe...! Adorei!! As descrições levam-me para lá! Beijos. Lálá :)