sábado, março 01, 2025

O SILÊNCIO NÃO TEM RELIGIÃO

 

Nos 12 anos que tive de seminário estudei, muito, 6 anos na universidade católica onde a Teologia me deu a história universal, a história de arte, a lógica, antropologia, sociologia, filosofia, história das religiões, análise do eu e o maiores pensadores e filósofos do mundo, Aristóteles, Kant, Descartes, Hegel, Hume, Sartre, Ortega Y Gasset. Cresci a lê-los.

 Não podemos falar de interioridade, contemplação, meditação, sem estudar os clássicos, e ler os contemporâneos só me faz pensar na genialidade dos clássicos e nos lugares comuns de alguns dos atuais. E tudo isto leva-me ao silêncio. No seminário fazia 8 dias de silêncio absoluto por ano, sem religião, ou com, conforme a nossa vontade. Não havia conversa nas refeições, nas caminhadas, NADA, e o silêncio. No silêncio levava todos os nomes que estudava e com eles a profunda reflexão sobre o ser, a humanidade, e a interioridade. Ou então estava calado dentro de mim. 12 anos desta prática. No final... o meu caminho era ainda longo.

Hoje? Parece que a estrada é ainda mais longa... Estes dias saí de casa para um retiro de 3 dias de silêncio. Numa casa de silêncio e longos jardins, uma casa que não é um negócio. O objetivo... limpar-me com silêncio, e provavelmente um ou outro filósofo clássico, ou nada. O nada é um bom mergulho no tudo.


Recomendo. CALEM-SE UM BOCADINHO, POR FAVOR.


Abraços

Hélder

quarta-feira, fevereiro 19, 2025

A TRISTEZA DE NÃO TER INTERIOR




 O interior dá-nos interioridade. Estou inabalavelmente certo. Estou muito cansado de gente, fora da RTP, que trabalha comigo, há anos, e que me diz: tens de sair do registo dos velhinhos e do interior, ser mais urbano e falar para a malta mais ... nem sei o quê ( penso eu). Já desisti de explicar que tenho a sorte de a RTP me ter percebido e me permitir fazer televisão fora das cidades, junto de quem vive a vida sem deslumbre pela tontaria que, por vezes, a vida de cidade nos encaminha, e não são só os nossos mais velhos, ainda que os ame de paixão. 

Não é por eu ser agricultor de Trás-os-Montes que agora é que gosto do interior. Não, eu gosto do interior desde que me lembro de ser gente. Desde criança que viajo por Portugal. O sol do Alentejo, quando ainda havia girassóis e me deitava perto deles, do frio da serra da estrela, da neve no Marão e do silêncio do branco, do cheiro das laranjeiras do Algarve, da firmeza das beiras, do riso aberto e festivo do minho... E sim... sinto tudo isto mais autêntico quando saio das cidades. Conheço gente de uma cultura avassaladora, na proporção da humildade, gente que vive feliz na grandeza que a simplicidade tem, gente livre, gente serena, gente que enfrenta a dificuldade com determinação porque nunca se está sozinho no interior. A vida não é mais fácil no interior, até é bem difícil para alguns, mas é mais suculenta. Sabem quando abrem uma laranja e o sumo vos molha as mãos... é isso o interior. Nem todos percebem, fico feliz, porque não vão para o interior carregados com as suas dúvidas, medos e ironias palermas. Quem vive no interior tem interioridade, porque sabe que a vida é muito maior que um apartamento e uma fila de trânsito. Obviamente que conheço gente de várias cidades do mundo e estão cheias de interior, não faço a apologia de viva o campo e fora as cidades, nada disso. Mas é mais fácil dizer-se que quem vive no interior tem menos, do que quem vive numa cidade.. teoria tão errada. As pessoas do interior, as que ficam, percebem as cidades, mas a cidade, a política, não percebe o interior.

Não podemos viver todos no interior. Não temos todos os perfil de viver no interior. Mas todos deviam ter o conhecimento suficiente para perceber a grandeza da interioridade de quem vive no interior seja novo, seja menos novo, o fascínio é o mesmo.

terça-feira, janeiro 28, 2025

Solidão não é estar sozinho


 

Estar sozinho e sereno é o expoente da felicidade. Não tem nada a ver com solidão. Solidão é angustiante, depressiva, e leva a nossa cabeça por caminhos obtusos. Ter a capacidade de estar sozinho e usufruir da vida é maravilhoso e aumenta a maravilha quando partilhamos. 

Saber ocupar o tempo com o que nos enriquece, mesmo que seja a não fazer nada, é crucial para uma boa saúde mental. Quem está bem sozinho, está bem consigo. Não ter medos, duvidas maiores, culpas assombrosas. Nada de errado com quem vive nestas circunstâncias opacas da vida, mas recomendo que as tente resolver. 

A vida tem de ser leve, como diz a gente boa de São Tomé. Se pensarmos bem... o que é um problema grave, sem solução? Sem janela no telhado? É mesmo muito pouca coisa, e mesmo essas coisas complexas, com ajuda... podem levar uma volta. Eu já andei pela solidão, há anos, resolvi-me e hoje, quando estou sozinho... sou feliz, como que a preparar todos os momentos em que estou acompanhado, porque estamos bem sozinhos e estamos incríveis quando bem acompanhados! Concordam?


abraços



segunda-feira, janeiro 06, 2025

O MEU AVÔ DOS REIS

 


Augusto Reis, era o nome do meu avô. Augusto era como eu gostaria de me chamar, sempre o foi. O meu avô era negociante de vinho, nasceu em Estremoz, filho de tanoeiros. O meu avô gostava do seu mar de Esmoriz, apreciava uma boa mesa, gostava de bons fatos e chapéus, ia ao Porto comprar as fatiotas. O grande prazer da vida dele era ver a família reunida na mesa de jantar, da sua bonita casa em Esmoriz. Era um homem tão exigente como bondoso. Nunca conheci o meu avô. Conheci a sua filha, Margarida, que teve a generosidade de ser a minha mãe e dela eu ficar a conhecer profundamente o homem da vida dela, o seu pai, o meu querido avô Augusto.

Homem organizado, de bonita caligrafia. Gostava de tocar na sua guitarra aos serões de família. Homem de família e para a família. A minha mãe viveu toda a vida com saudades do seu pai, mas recordava-lhe sempre o melhor, haveria de ter os seus muitos defeitos, mas para a minha mãe era o melhor da sua vida, e sorria com isso, e quase que sinto que o meu avô sorriria também. 

O Sr Augusto Reis era um homem de celebração. Os anos dos filhos, a Páscoa, o Natal e os Reis, sempre e muito os Reis. Na verdade, levava os reis tão a a sério que quase roubavam o protagonismo do próprio Natal. A casa era limpa de fio a pavio, o chão de madeira deveria ficar a brilhar, a melhor toalha era colocada na mesa da sala, para receber o rei bacalhau que ele iria comprar ao Porto, entre o Natal o o novo ano. Porque os reis seriam a festa da sua família, do seu nome, e o nome e a honra, no tempo do meu avó, eram meia vida.

Feliz dia de Reis, meu querido avó Augusto


Hélder

domingo, dezembro 29, 2024

UM FIM QUE É PRINCIPIO






Fim do ano é princípio do novo. Não é incrível? Não há pausa entre um e o outro e, contudo, há uma refrescante novidade, o princípio. Uma imaculada manhã de 1 de janeiro abre o novo ano, para nos recomeçarmos. Recomendo por dentro, depois na casa, seguimos caminho pelo nosso corpo e depois o trabalho. Alinho a vida por esta ordem, tudo faz parte, e tudo tem a sua prioridade. É ótimo fazer planos de novo ano, mesmo que metade fique pelo caminho, e daí? 

Pobres os que não têm sonhos nem planos, mesmo que seja ter menos confusão, menos gente, menos caos, menos ruído, menos coisas, menos correrias, menos tanto, menos presença, menos conquistas, menos dar nas vistas e mais sossego, serenidade, tempo, luz morna no corpo, amor e paz, de dentro para fora; cuidar do corpo para que a alma goste da casa onde vive. Cuidem de vocês, com menos, para terem mais.


Abraços


Hélder



domingo, dezembro 01, 2024

A TRISTE SINA DAS LUZES DE NATAL

 


Quando era criança havia um tipo de luzes de natal, o pisca pisca cheio de cores, em que as lâmpadas fundiam e tinham de ser trocadas para que voltasse a funcionar. Nada mais, e o Natal estava bem iluminado assim. 

Agora são centenas de tipos de luzes, e centenas de aberrações natalícias... nem vou descrever, mas tudo o que não seja simples e discreto entra no lote de cegueira natalícia. Eu acho que reflete como vivemos o Natal... histericamente. NA VERDADE, COMO VIVEMOS A VIDA NO GERAL. Amo o Natal, e cansa-me o Natal com ar de disco dos anos 80. Eu sei... são gostos, mas obviamente que, como tudo, os gostos discutem-se. A culpa não é de quem vende, a culpa é de quem compra sem referências ao que é o verdadeiro espírito iluminado de Natal.


Feliz Natal

terça-feira, outubro 08, 2024

A BELEZA DO INVERNO

 

É no inverno que acontece a mais alta confrontação de nós para nós. Os dias mais curtos, vivemos mais a casa, temos frio, resguardamo-nos, convivemos menos, saímos menos. Tudo menos. Mas, na verdade, pode ser tudo mais. Há melhor do que um passeio numa praia deserta, com um bom casaco, e só nós e o grandioso mar? Uma manhã em casa, resguardado numa confortável manta de sofá, na companhia de um livro, de um bom programa de tv, a fazer uns telefonemas com calma, para gente que se gosta? Beber um chá quente em frente a uma janela de chuva e frio? Usar roupa quente e confortável, quando o dia quase nos diz que é impossível sair. Organizar um jantar, com comida de conforto, para quem nos conforta na vida... Tanta coisa, muitas delas sozinhos, mas igualmente interessantes quando acompanhados por quem nos faz bem, acrescenta a alma, e alimenta o frio dos dias. Não tenham medo do inverno, olhem para ele com a maior potencialidade de nos acolhermos dentro daquilo que nos apazigua.


Até já

segunda-feira, setembro 23, 2024

NÃO



Quando era muito criança a minha mãe disse-me que das palavras mais importantes que tenho de aprender é o não. Claro que na altura não percebi bem, mais tarde, no tarde de hoje, faz todo o sentido. Dizer não, é assumir a nossa mais alta atitude, contra o esperado de nós, e ter a capacidade de dizer não é a revelação de uma elevadíssima maturidade. Porque não há pessoas que estejam na lista dos intocáveis do não. Era o que faltava. Família, não, não nos podem contrariar a levar com almoços para marcar ponto, emprego, não podem falar de qualquer modo, somos empregados, ou patrões, mas não, comigo não fala assim. Amigos, não me apetece sair, não estiveste bem, não estás magro... lamento. 

O não revela verdade, verticalidade e pensamento. Obviamente pode ser um não errado, e aí surge a outra verdade, afinal estava enganado. Humildade. Confesso-me farto de submissos, lambe botas, gente que vive pela cabecinha dos outros, que tem pânico de contrariar, castrando a vontade própria. Digam não, porra!! Não quero, não vou, não gostei, não fale assim comigo, por favor. Tão bom.

Não, comigo não, sempre educadamente não, mas a mim não fazem o que contraria a minha essência, sem que isso afete em modo nenhum a essência dos outros.

Experimentem, é libertador. Queres vir jantar? Hoje não, obrigado. Porquê, preciso de tempo para mim.

E de um não virá um bonito sim ao saber com quem contamos.


Abraço

terça-feira, julho 30, 2024

INTENSO





 Sou intenso. Não foi uma definição que eu encontrasse para mim, mas um amigo caracteriza-me assim, intenso. Na alegria, nas experiências, na tristeza, na vibração, nas ideias. Enfim... na vida. Se gosto do adjetivo? Não. Porque associo intensidade com falta de sossego e serenidade, não será bem assim, mas é o que me lembra.

Mas... sendo eu uma pessoa que gosta da vida, e respira os momentos, porque não sei quando se repetem, é com teimosia que aceito a intensidade. E que mal vem ao mundo olhar para os dias com a vibração de algo por estrear? Recomendo intensidade, muita, e a dose certa de serenidade. É uma balança incrível de se viver. Usufruam...


Hélder

quarta-feira, maio 15, 2024

O NÚMERO DE UMA VIDA


 Este era o meu número de roupa no seminário. A minha mãe bordava toda a minha roupa com este número, todos os anos, devotamente. Só fiquei com esta peça, um guardanapo. 241... Éramos centenas de alunos, esta era a única forma da lavandaria não perder a minha roupa. E como eu gostava de ir à lavandaria, era uma pavilhão, a cheirar a lavado, gerido por um grupo de senhoras cheias de simpatia, iam substituindo a mãe que não tínhamos connosco. Fazia sentido. 

Tinha 12 anos quando entrei no seminário e saí com 24, as duas situações por minha vontade, as duas situações muito difíceis de gerir, muito mesmo. Mas sempre, sempre por minha vontade. Há poucas coisas na minha vida que são contra a minha vontade, de momento nem me lembro de alguma. 241... parece que foi noutra vida. As despedidas ao domingo, uma a 2 semanas sem ver a minha mãe. Ela fazia-me a cama aos domingos, e quando me deitava procurava o cheiro dela para afogar a saudade. Quando se ia embora, eu subia ao ponto mais alto do seminário para a ver apanhar o autocarro e regressar a casa, onde a praia vivia bem sem mim. Aprendi teatro, poesia, canto, estudos rigorosos. Fiz-me homem. Com 12 anos comecei a ser adulto, quarto arrumado, cama bem feita, horário rígido, ao minuto. Foi muito duro, mas fez-me muito bem. Confesso, se fosse hoje, com 12 anos não iria, e ainda bem que esta idade terminou, agora vai-se para o seminário já crescido. Eu era tão menino, tão miudinho. Acreditem, pegava na roupa, bordada com 241, e em cada ponto procurava a casa, procurava a minha mãe. 


Crescer não é fácil, mas quando olhamos para trás e vemos o que somos, valeu a pena todos os sacrifícios e ausências. Eu tinha sempre comigo o secreto 241... bordado a ponto de mãe.

Honestamente, parece que foi há 100 vidas!


Aproveitem. Abraços

Hélder

terça-feira, fevereiro 27, 2024

NÃO SOU CARNAVAL, NEM PASCAL...

 


Não sou do carnaval. As poucas vezes que me mascarei foi em criança, uma em adulto, e a que guardo na memória foi um fato de palhaço que a minha mãe me fez, dos pés à cabeça, e lembro-me de como ela estava feliz com a minha alegria. Esse carnaval guardo, esse sim, porque vestia a roupa que desejava, feita pela mãe que sabia como eu queria ser, mais do que um palhaço, na verdade. Tudo o resto é para apagar da memória. Porque não gosto? ... por nada em especial; acho estranho, não condiz com a minha personalidade, não me diverte, nem me acrescenta. Mas... total respeito pela folia e foliões, façam a festa à vontade, mas não é a minha praia. 

O mesmo acontece com a Páscoa. Sei bem o sentido religioso e espiritual de festividade, pela minha formação em Teologia, e por ter quase, quase, quase sido padre. Mas conhecer a doutrina não me chega para amar a solenidade. A melhor memória... vem sempre a mãe; fazia um cesto cheio de flores do campo para receber o compasso, e com ele um bolo festivo e a melhor garrafa de Porto. Só as flores enchiam-me a alma, como era possível tanto com tão pouco. De madrugada, lá ia a Margarida apanhar as suas flores, que deveriam sorrir com o nome de quem as ia colher, e até acho que havia alegria nas flores por saberem que iam embelezar uma mesa, com toalha de branco esmerado para receber uns homens tristes, apressados, com uma cruz de sacrifício. 

Porque não aprecio a Páscoa? ... porque não gosto do sacrifício para a redenção, essencialmente isso. Não gosto da dor, para perceber a alegria do não sofrimento, não gosto de perder para dar valor ao que se tem. A vida aprende-se com a leveza, com a alegria, com a verdade, com a partilha e a exigência da verticalidade. E todos sabemos que não é assim, as grandes lições estão na mais profunda das dores, mas mesmo este facto não me faz querer celebrar a vida só porque houve a dor e a morte, em modo de cruz. Não me enche a alma, o meu entendimento não percebe, e, certamente, a minha fé é curta para tanto. Prefiro a vida pela vida. Mas, total respeito e alegria com quem se alegre e celebre com a Páscoa, essa passagem da morte para a vida, de uma margem para outra. Eu sou dos que preferem a passagem da vida para a vida, e sim, sei que nem sempre é assim, mas nada me impede de preferir este lado da história. E... sim, gosto de fotografar Cristos, como o da imagem, algures por Espanha.

A todos... dias felizes, de vida. Antes, durante, e depois da Páscoa.

Hélder

quinta-feira, janeiro 18, 2024

DEPOIS DA DOENÇA VEM A BONANÇA



Fui operado a um pulmão há 2 meses. Programado e preventivo. Já está tudo bem. Passado este tempo, olho para aquelas 3 semanas de novembro. Somos matéria frágil, achamo-nos imprescindíveis, imortais, charmosos, gloriosos e cheios de futuro. Eis o travão, a fragilidade do corpo. Nada de mal em não conseguir ir à casa de banho sozinho, não conseguir respirar na plenitude, nem dormir. Nada de mal porque, no meu caso, eu sabia que era provisório. E tantos os que enfrentam estas limitações e não sabem quando acaba o calvário? Não há nada como a doença e a fragilidade do corpo para dar ordem à vida, é o choque térmico que precisamos para valorizar a nossa integridade de agora, e a realidade de cada agenda do dia. E que todos possam pensar sempre no dia seguinte...

Porque será que quando olhamos para o passado as maiores marcas são as dores? Eu acho que é assim porque também foram esses os momentos de oportunidade para termos um pico de evolução. O outro lado da moeda. São duas dores, a circunstância e a mudança. Mas depois... e até que valeu a pena.

Na fase da minha operação, outra nota dos dias que me surpreendeu foi quem esteve. Tão bom receber colo quando nos sentimos efetivamente frágeis. Gente que está, o tempo certo, sabendo que quem está de cama não tem vida para cerimónias, nem longas conversas. Gente que se faz presente com gestos diários, simples e de delicado cuidado. Gente que cuida, mesmo longe. Também há os que usam a expressão se precisares de alguma coisa diz, e nunca mais querem saber, ou os que sabendo, não ligam nenhum. Eu percebo, a vida dos atentos não é para todos, porque a vida violenta a atenção. A Sophia dizia que o poema exige atenção. Eu também acho que a vida e o amor exigem atenção, sem ela... 

E pronto, estejam atentos, há muitas formas de se estar, fazer notar e ajudar. E na doença, sendo possível, aproveitem a maravilha que é estar melhor no dia seguinte.

terça-feira, outubro 24, 2023

Sê forte quando te apetece ser fraco?

 

Pessoalmente, estou cansado dos otimismo, do aqui e agora, vive o momento, aproveita as dores e constrói-te, isto estava destinado para a força que tenho para enfrentar. Porra para tudo isto. Estou com a Joana Marques... do contra. Porquê? Porque temos o direito e a normalidade de chorar baba e ranho, de baixar os braços, de dizer uma carga de palavrões, perguntar por Deus, porquê a mim, e deitar no sofá, para além do nosso corpo, deitar a alma, o passado, o presente e até o futuro. O que não podemos é ficar aí para sempre, mas se precisamos disso, qual o mal? O pior que me podem dizer quando estou no pior de mim é dizerem:  força, vai passar. Como sabes? E onde vou buscar força se não tenho nenhuma, e que tal dares uma canja e um abraço.

Não estou desacreditado, estou sereno, confiante e esperançoso, mas farto das teorias de positividade e de gente que sei que chora baba e ranho por não ter companhia na cama da vida, um emprego de sonho, uma paz de família. Na verdade, problemas de todos os nós, só que vende bem estar bem, ou sem conhecer o bem o que é estar em paz consigo mesmo. Entrem em guerra por dentro e depois... depois de cansados, experimentem a paz e o silêncio da reconciliação. Porque a vida é difícil, mas é incrível, e difícil.

Hélder


terça-feira, setembro 26, 2023

A VIDA É BOA

 


A vida é boa, não é uma boa vida. Porque a vida está difícil, financeiramente, socialmente, no trabalho, ambientalmente, internacionalmente... nós sabemos, e mais do que isso, nós sentimos. Contudo, tenho de olhar para minha vida, também. Ela é boa, porque me permite usufruir da luz, do sossego, da concretização, da paz, do amor, da solidão voluntária, da casa, das viagens, do crescimento interior, da saúde. Só tenho motivos para ser grato. Metade luz, metade vida.

Também é boa porque sei lidar com a dor de quem já não tenho, com a malicia, com as desilusões, com o medo, com a frustração, com a minha falha; tudo isto, sabendo lidar, faz da vida... boa.

É incrível a sensação da luz no rosto, o sal do mar na boca, um bom vinho com o céu estrelado, a liberdade do campo, a liberdade da vontade, o vento nas mãos suadas, os casacos em dias de frio, a água fria com sede, as maçãs frescas e rijas, a fruta da árvore, uma nova viagem, uma lareira a acompanhar um jantar, um abraço honesto, um beijo na boca, observar os pássaros, as mãos na terra, os pés descalços, alongar os músculos, espreguiçar-me de manhã, ter calma no dia, as árvores nos seus tempos... a vida é boa, a minha vida é boa porque tem estas vidas. Sorte a minha, sempre que não a sei complicar e me fico com a luz, naquela metade de mim.

Até já.


quarta-feira, junho 28, 2023

OS COMENTADORES E EU

 




A vida não anda fácil. Sabem bem disso. Há uns anos decidi mudar, o que como, com quem estou, quem ouço, as escolhas, mais desporto e como me informo. É tão importante a informação que escolhemos ter. Confesso, não alinho em comentadores. Respeito total, mas não quero que me metam a pensar nas ideias que eles criaram, e por vezes profundamente alarmistas, e acabam, na sabedoria do tempo, por serem ideias só populista e vazias na verdade da história. Nem todos os comentadores, claro, mas bastantes caem na tentação do futurismo alarmista. É o que sinto.

Eu não quero que me encham a cabeça de ideias, eu quero ter a minha ideia, leio um jornal credível e tio as minhas conclusões, se tiver dúvidas, aumento o leque de informação. Não leio opiniões nem ouço debates de opiniões. É a minha escolha, quero factos, não quero projeções.

Sinto-me menos poluído, menos alarmado e mais sereno. Porque para caos, já me basta o mundo em que vivo.

Esta é só a minha opinião, com total respeito por quem opina e por quem escolhe ouvir comentários.

Abraço, Hélder

terça-feira, maio 30, 2023

ALEGRIA DE VIVER


 Estão à frente do nosso nariz bons motivos para cultivar a alegria de viver. A vida não anda fácil, mas anda possível. Certifique-se que vê o sol brilhar, ou a chuva cair, que sente o perfume de um alecrim e consegue dar uma caminhada à beira mar. Veja como está a sua planta, se está regada, se tem pó, se precisa de mudar de janela. Já reparou, ao abrir a janela, que o ar anda fresco? E que as árvores da sua rua estão mais crescidas? Não é incrível molhar as mãos e sentir a frescura da água escorrer pela pele, e aproveitar e passar essa água no rosto, sentir que estamos acordados para sentir a vida, e não a deixar passar nos intervalos da nossa atenção. Tenho a certeza que vai encontrar alegrias de viver em tantos destes detalhes...


Abraço

Hélder

segunda-feira, maio 15, 2023

E SE CHOVER?


 Seja em que altura for, a chuva é sempre limpeza, rega, fertilidade. O país vive seca, nem lhe vou dizer o que dizem os estudos, decerto devia, mas este blogue é de palavras livres, não de factos, contas e jornais. O mundo não está de saúde, Portugal está empoeirado, não chove, há pouca água... e não se faz nada? Fazer com que chova... não dá, mas há centenas de formas de poupar água e estabelecer modos de distribuição da água pelos grandes utilizadores da mesma... os políticos estão à espera que lhes falte na torneira para tornar isto um problema a ser resolvido. Quando faltar na torneira, as alfaces morreram, os lagos secaram, os rios morreram novamente, os pomares secaram, enfim... a vida murchou.

Eu uso a água que antecede o meu banho para regar as minhas plantas. Lavo a varanda com regador e não com mangueira. E lá vou dando o meu contributo. Não sei fazer com que chova, mas sou agricultor, gosto de uma natureza verde, e não há verde sem água. Não há agricultura sem água, não há turismo sem água, nem parlamento, nem campanhas eleitorais, nem carros, nem eletricidade. A vida desidrata-se.  A terra tem a garganta seca.

A chuva é um fenómeno maravilhoso, na dose certa, acalma-nos, chama-nos para dentro de casa, apela à observação e.. torna o mundo mais saudável. Se não chove, valorize a água que gasta. A água é o ouro do futuro, acredite.

segunda-feira, abril 24, 2023

CALA-TE UM BOCADINHO


 Quantos de nós, mesmo lá no fundo das ideias, já não quis dizer a isto a alguém que não tem o mínimo de noção de quando se deve calar, para ouvir, ou porque já contou, exaustivamente, a história que estava a contar ou o interesse morreu nas primeiras frases? Eu, confesso, dezenas de vezes. E há dias em que não me consigo controlar, mesmo, porque há pessoas descontroladas nas palavras.

Há os que perguntam se está tudo bem? Tudo... a horta, o chuveiro entupido, a humidade lá de casa e já agora a depressão ou aquela crise no trabalho, vai tudo dar ao mesmo, tudo bem? E pronto, está manifestado o interesse. E depois... somos metralhados por palavras, sem dó nem piedade.

Caramba, é assim tão difícil te aperceberes que só estás a falar, e que a vida não é um monólogo. E depois há gente que adora detalhes, muitos detalhes, todos os detalhes do mundo numa conversa. Deve ser defeito meu de profissão e formação, mas gosto de síntese. Claro que há situações, raras, que exigem detalhe, mas tanto..., é que há pessoas que é uma saturação de pormenor. E o silêncio, ouvir e falar devem cumprir os votos de silêncio, só assim se ouve, só assim se fala. Mas... há pessoas que na conversa metem telemóvel, piadas, comentários sobre outras coisas, cruzam conversas e descruzam a atenção. 

Se é por mal, acredito que não, mas por bem não é certamente.

segunda-feira, abril 03, 2023

FELICIDADE PARA QUE TE QUERO

 Ora Viva



    Estamos numa má lista de felicidade, mais uma. É estranho uma lista de felicidade, confesso. O que dita a felicidade?... Mas isso são outros 31. Quanto a nós, estou entre o perceber e o não entender de todo; olho para Portugal, que conheço bem, e acho-nos plenos, contudo privados. Sinto que nos falta olhar para cima e receber o sol, mas isso não enche barrigas, ganhamos mal, mas também não sei se quando ganhavamos mais eramos os tais felizes da lista. Não sei. Por outro lado, estou cansado dos pregadores da felicidade, onde tudo é fácil, simples e está dentro de nós, como um ovo com brinde. E saltitam teorias e livros como pipocas... Não é assim, para ninguém. Conheço ricos miseráveis de infelicidade, pobres super realizados, empresários radicalmente tristes, gente que escolheu viver com pouco e estonteantemente feliz. A fórmula? Não percebo nada disto, e acho que ronda cá nos nossos interiores, e também pelo modo como usamos a carteira, prioridades, para quem as pode considerar. Viver, no global, não é fácil, mas é incrível. Tenho a percepção que a classe política não faz a mínima ideia de quem são os portugueses, vivem de agenda mediática, e muita da nossa vida está nas mão deles, dos bancos, das seguradoras, das empresas... e por aí fora. Soluções? Viver a nossa vida pessoal do modo mais intenso, bravio, espesso, denso, picante, pacífico, livre, íntimo e sereno. Porque ninguém nos rouba a interioridade, íntima e sagrada, e aí a felicidade não tem lista. Cultiva-se. Como?... eu sei a minha teoria, e isto não é coisa de se partilhar...


Abraço

segunda-feira, fevereiro 06, 2023

O MEU EQUILÍBRIO

 

                                                                             Fotografia Arlindo Rego


Equilíbrio. Uma palavra estupenda, um exercício complexo. Estou longe da perfeição, mas perto do que não quero. Desde a morte da minha mãe que a minha vida assumiu diretrizes diferentes. Os problemas relativizaram-se, os objetivos de vida tomaram outro caminho, as minhas relações mudaram. O meu equilíbrio começa em mim. Sozinho. Calado. Contemplando. Mais ninguém pode fazer isto por mim, e há gente que atrapalha este caminho. Não é por mal, claro. Mas são pessoas complexas, com egos grandes, raramente olham para o lado e quase nunca abdicam de si pelos outros. São o maior ruído da minha vida, e um obstáculo ao meu equilíbrio. Não são nem mais, nem menos que eu, mas não podem fazer parte da minha balança. Do meu equilíbrio faz parte muita vida que não só pessoas, claro, mas agora é delas que falo.

Raramente me perguntam como estou depois da morte da minha mãe. Já lá vão 3 anos. É um problema meu. Como sabem, o luto demora anos a sarar. Sinto que estou no caminho certo, mas era reconfortante sentir interesse de quem até parece interessado, mas não. Tal como outras felicidades ou tristezas, que devemos perguntar, querer saber, mostrar interesse. Sermos interessados revela a maior humildade relacional da humanidade. E as pessoas... as próximas e as outras podem erguer e poluir, ao mesmo tempo.

Não é um: estás bem? ou fixe? ou qualquer outra generalidade, que me vai dar vontade de partilhar. A uma pergunta geral... respondo com generalidades, e fico a conhecer melhor o interesse do outro. Para o meu equilíbrio escolho os pesos para a minha balança, e como até treino mais o meu corpo, começo a conhecer bem os limites dos músculos da minha carne e da minha alma.

A atenção, exercício fulcral na vida, é muito difícil para quem a vida é camuflada de um umbigo gigante e plena de bons argumentos desiquilibrantes... :) precisei de criar esta palavra!!!


Divirtam-se e estejam atentos... a quem importa, MESMO!

Hélder