sexta-feira, setembro 24, 2021

RI-TE PORQUE AMANSA

                                                                           fotografia José Gageiro

Ri-te porque abranda a vida.

 A minha mãe ria-se tanto que fechava os olhos e deixava de ver, e ria-se ainda mais com isso. Lembro-me das tardes passadas com a prima Mimosa, entre chá e costura, e grandes gargalhadas. Ao ouvi-las, eu criança, sentia que a vida estava perfeita e nada de mal poderia acontecer, nem naquele momento, nem nunca.

Sabemos que não é assim. O riso não apaga tudo, mas que alisa as coisas complicadas, ai isso sim. Na escola, por muitas vezes, fui expulso da sala de aula porque me estava a rir, perdidamente. Saiu-me cara a gargalhada, mas não me importava, só me estava a rir, até doer a barriga. O professor é que estava azedo, e o meu diretor, pouco melhor. Mas eu... já tinha rido para limpeza total, e quase me tornava impenetrável ao raspanete e castigo, porque só me estava rir, ora bolas!

 Ainda hoje, tenho várias crises de riso, fosse toda a crise vestida de sorriso. Quem me conhece bem sabe que gosto do riso, e digam lá que muito riso, pouco juízo, porque só isso me faz rir mais um bocadinho. Com o tempo desenvolvi um sorriso com os olhos, tenho-o posto muitas vezes. Aligeira-me a vida, por dentro e por fora. Acreditem.

Experimentem.... rir um pouco mais, até mesmo para aqueles que mereciam a nossa melhor tromba. Porque o sorriso, quando vem de dentro, é, alarmantemente, poderoso.

sábado, agosto 07, 2021

A VIDA É SEMPRE FÉRTIL

 


A vida é sempre boa. Fértil, como um ventre materno. Nele cabe o futuro, e não há futuro mirrado de sonhos e alturas. Somos feitos da matéria do dia, o dia seguinte.

Sugiro que o próximo dia seja visto sempre no lugar que mais amamos. Na praia. No quarto do filho. Nas mãos da mãe. No abraço do pai, do irmão, do amor. Na varanda branca. Nas escadas luminosas. Escolham o lugar seguro,  como se faz na meditação, e olhem para o vosso futuro, se for preciso vistam-se de esperança, porque amanhã tudo será melhor, vai ver que sim. O nascer do sol é o momento mais Fértil de todas as horas do dia. 


Até... amanhã 

segunda-feira, julho 05, 2021

O QUE QUERES FAZER?


 Há dias, numa entrevista à minha querida Cristina Ferreira, ela perguntou-me: mas o que queres ser? Só a astúcia pura, delicada e inteligente da Cristina Ferreira para me despertar para os meus caminhos... Tão bom. Tenho 46 anos, e abri na minha vida lugares que me permitem perguntar, afinal, que sítio queres para a tua vida? Onde vais-te cumprir, que ofício, que lugar? Não sinto que haja sempre necessidade de escolher, a vida vai-nos dando e tirando, e a coisa torna-se clara. Ou seja, a vida vai-nos escolhendo, também, caminhos que plantamos, como árvores.

O importante è dar à vida opções... o resto acontecerá. Eu sei.

 Tenho-me dedicado à meditação, por convite sereno da minha tão delicada e preciosa amiga Cristina Alves ( já lá vão 20 anos de nós). A Cristina tem-se erguido, numa vida alucinante, pela meditação. Mente sã, corpo forte, e coração limpo, é assim a Cristina. Tão minha, e quem a vai tendo, nunca mais a quer deixar, porque nos acrescenta. A meditação a que ela me seduziu, tem-me serenado, feito olhar ainda mais para dentro de mim, fechar os olhos e fortalecer-me; e tudo isto levo para os meus caminhos. Apresentador da RTP, apicultor e escritor. A música está-se a diluir. E aqui ando eu, feliz nos trilhos, a ser e a fazer tudo isto, sem optar, mas a exercer. Serenamente. Com felicidade. Se um dia tiver de escolher? Eu sinto que serei escolhido por estes caminhos, não vou precisar de ser eu a escolher. Até lá... faço o caminho, a assobiar de alegria. 

Duas Cristinas fizeram-me pensar em tanto disto. A Cristina que pergunta e observa, e a Cristina que medita e contempla. Que bom, que sorte a minha! Eternamente grato.


Hélder

domingo, junho 13, 2021

A TIRANIA DA LIBERDADE

 


Não há maior liberdade do que a de poder. Poder recomeçar, acabar, fazer silêncio, rir alto, andar nu pela casa, vestir como se quer, comer fruta das árvores, abrir as mãos numa serra alta, apanhar chuva, apanhar sol. Calar-se durante uma discussão. Olhar. Dizer não. Dizer sim. Dizer o que ninguém estava à espera. Ter opinião. Expressar-se.

 Uma tirania livre; a tirania é cruel, injusta, e a liberdade também é, para com todos os que não sabem o verdadeiro grito do que é ser-se livre. Tenho pena dos amarrados; amarrados a complexos, a favores, a compromissos ridículos, amizades distorcidas, vergonhas, medos, palmadas nas costas, mal dizeres, enfim... tenho pena dos medíocres, um medíocre nunca será livre. Vai ser sempre pequeno, atado à pequenez. Um Portugal dos pequenitos em forma de alma, e para sempre, e sem encanto, muito menos ...com liberdade.

segunda-feira, maio 10, 2021

A ARMA

 


Sou contra qualquer espécie de violência, bem como o uso de armas. Mas, por vezes, paro e tento colocar-me nos olhos e nos músculos das pessoas que vivem sob o cano de um disparo. Obrigados a fugir, a morrer mais fundo que a morte, a verem morrer quem amam, a deixarem-se morrer, mesmo que não morram da arma, morrem da falta da vida que tinham.

São homens contra homens. Os mesmo que suam, amam, riem, choram. São iguais para iguais. Não vou dar exemplos, porque nem sempre os mais mediáticos são os mais dilacerantes. Fico-me pela globalidade da realidade. Há pessoas cuja luz não existe,  é a sombra do cano de uma arma.

Depois, volto ao meu mundo, e qualquer espécie de afronta, injúria ou calúnia que me atentem, honestamente, não me faz nada; porque o mundo ensina-me a perspetivar se o que me fazem é assim tão danoso. E na verdade... faz-me rir de pena dos pobres que acham que de algum modo irão magoar, ferir, denegrir...; a mim, tornam-me mais forte, aos olhos do mundo, torna-os ridículos.

quinta-feira, abril 15, 2021

O LADO DA LUZ

 


Eu gosto é da luz, não precisa de ser quente, precisa de ser limpa, clara, fortalecedora. Gosto da luz na pele, nas casas, nas árvores, gosto da luz nos rios e no mar, da luz antes da sombra. Gosto da luz a bater na roupa lavada, luz nas idas de bicicleta, nas escadas, nos muros brancos. Gosto da luz da lua, do sol, das velas e das pessoas. A luz lê-me, limpa-me, aquece-me e desnuda-me, como se fosse para um novo batismo.

Tenho conhecido gente escura na alma, que não conhece o sentido da luz, e por isso vivem numas trevas pintadas de cor clara, para disfarçar, nem branco conseguem ser, porque o branco é só para gente honesta, de honra na boca. Gente baça, como quando os óculos apanham ar quente, há gente assim. Triste gente e que tenta roubar a luz dos outros, para a transformar em qualquer outra coisa, porque a luz incomoda os medíocres, aqueles para quem a palavra e a verdade são coisas para se defenderem mas nunca se praticarem. A maravilha desta gente é que aumenta o sentido da luz, acresce valor à importância, em vez de sugarem e apagarem, fazem o contrário, rejubilam a luz dos outros. E depois, esta gente baça, vai para casa às cegas, porque não há luz que os queira. Nós queremos a luz, mas a luz também tem de nos querer. O sol é para todos, mas a luz não.

Sejam felizes e bons uns para com os outros, mesmo que custe!



domingo, março 21, 2021

A FELICIDADE

                                                                                        



                                                                               
A felicidade não é sorriso nem gargalhada. A felicidade é outra coisa, menos audível, mais interna que externa. A felicidade habita, serena, no fundo dos olhos, na superfície da alma, no sangue dos sonhos. Felicidade é o silêncio cheio de vida, o segredo do vento, a delícia das mãos dadas. É viver sem dever, mas por querer, com prazer de quem bebe com sede e descansa nas sombras das árvores. Felicidade é a paz dos rios e do mar em mês de junho; é chegar a casa e sentir o calor de quem nos espera, de velas acesas e casa arejada com flores na mesa.

Felicidade é dizer não. É respirar livremente, o mais livre que os pulmões conseguirem, Em casa, no jardim, na varanda, na praia, na serra, de mãos amarradas a quem amamos. É fazer caminho com quatro pés e dois corações. Felicidade é água limpa e fresca, rio corrido, mar leve, areia fina, mãos abertas, corpo descansado, cabeça limpa. Felicidade é um livro lido com tempo, uma canção ouvida as vezes sem fim, é acordar noite escura e abrir a janela para a lua entrar.

Felicidade é sermos fieis a nós, essencialmente a nós, para podermos cumprir a responsabilidade de se ser feliz com os poucos que sempre amaremos.


Até já

quinta-feira, março 18, 2021

O TEMPO QUE O TEMPO ME DÁ



 Tempo. Quanto tempo já perdemos a pedir e sonhar com mais tempo. Hoje, por motivos nunca imaginados, a vida está a dar-nos o desejado, e nem precisamos de lamparina de aladinos. Mesmo assim, agora reclamamos que já não sabemos o que fazer com tanto tempo. Nem sei bem como organizar ideias, ora não temos e queremos, ora temos e não sabemos o o que lhe fazer. Tão típico de nós, gente de pensamentos altamente elaborados e com tudo sob controle. E cá andamos sem saber o que fazer com a fortuna do tempo, já que de saúde andamos de credo na boca. E mesmo assim... descontentes. Eu percebo, mas mesmo assim, caramba, é um cheque de tempo. Para fazer, não fazer, piscar olhos ao sofá, aos livros e discos, e saborear o nada, que nos limpa a cabeça.

Tenho um amigo que fica muito alarmado por não fazer nada, eu já fui assim por não fazer nada que seja quantificável, lucrativo ou instrutivo; e agora não me pesa em nada na consciência, e já lhe disse para experimentar, o não fazer nada. Às vezes saio só para respirar, sentir o sol na pele e ver as copas das árvores, na verdade estou a fazer muito, pela minha serenidade e paz interior, mas sem instrutores, aplicações ou livros. Só eu e o meu tempo no bolso e no coração. Sorte a minha.

Às vezes é o que nos basta para ocupar tempo, darmo-nos ao sabor de liberdade de pensamento, sem porquês, como Alberto Caeiro se deveria passear na cabeça de pessoa. Digo eu.

O que ganho com isto, saúde mental, liberdade, desprendimento, silêncio, serenidade, disponibilidade, segurança. Na verdade é uma balança bem cheia, para o não fazer nada... como as coisas são, como a vida é.

Saúde e protejam-se, até da tentação de abarrotar o vosso tempo. 


sábado, março 13, 2021

FUI VER-TE, NADA ESTAVA NA TUA ORDEM

                                                                   Na sua estufa de avencas e orquídeas

                                                                       

 Não sou de revisitar o passado. Não sou de saudade. Não sou do se eu tivesse feito. Menos numa realidade, a minha mãe. Nas raras vezes que volto a Esmoriz, a nossa terra natal, vou ver o mar, no lugar onde o via com a minha mãe. Fazíamos silêncio e olhávamos com tempo, para as ondas. Ela, gentilmente, inclinava a cabeça para o salgado e dizia-me: parece impossível, como ele não sai dali e as ondas continuam a bater! Não era resposta de ciência que querias, era resposta de fascínio. Dizia-te, é assim que sempre foi, . Era aqui que fazíamos praia. - Pois era. Foi aqui que fizeste praia pela última vez. Não lhe disse. Era sempre a mesma pergunta, e eu gostava de a ouvir para sempre.

Depois vou à casa que foi dela, e já não a vejo. A estufa desabou, os vasos mudaram de lugar, muitas das plantas morreram, tem tudo outra ordem, que não a dela, a tua. Lembro-me de te ver rir, no riso saio a ti, entre as tuas avencas e orquídeas. Como adoravas as tuas plantas, era o teu jardim da liberdade, como a praia. No verão, depois de dezenas de dias de idas e vindas, de banhos de sol intermináveis e no final de época, olhavas para o mar e dizias-lhe, adeus, até para o ano. Porque para a minha mãe o inverno não tinha praia.

Tento respirar-te pela casa, o teu cheiro vai-se diluindo com as horas do teu relógio parado. Até a rua da tua porta, feita de paralelos antigos, agora é de fúnebre alcatrão. Não ias gostar, ou até ias, não eras de fazer favor à opinião.

Sinto que as coisas não só não têm o teu lugar, como não têm o teu nome, já não és dali. Eu ando bem, contigo presente no sítio da única saudade que tenho, a de ti. Queria mais umas horas contigo. Acho que o queríamos todos os enlutados desta vida, a quem parte do amor nos morreu.


Até já.


quinta-feira, fevereiro 11, 2021

LEVANTA-TE.





- Anda, levanta-te.

-Para quê?

- Não é para quê, é porquê.

- E então? Tenho sono e não tenho mais nada. Está a chover, não tenho roupa de chuva. Mesmo que tivesse não posso sair, mesmo que pudesse sair, não tenho para onde ir.

- Só bons motivos para te levantares, não teres motivo e teres tempo.

- Tempo para?

- Tempo para viveres com tempo.

-Isso é para filósofos.

-Isso é para os inteligentes.

-Não sou nem uma coisa,... nem outra! Vês?! Deixa-me em paz. Andor.

-Um dia um rei mandou o seu povo plantar amoreiras. O povo estranhou. Porque haveriam de estourar o tempo morto? O rei era severo nas suas vontades. O povo obedeceu. O povo vivia gretado do sol e dizia que as suas terras eram de nada e de ninguém. O povo usou o tempo.

- Estou a dormir...

- Passaram duas gerações. O rei morreu. O povo morreu com ele. A terra passou a ser conhecida pela seda, pelas amoreiras, e pela sombra. O novo povo saia de casa só para a sombra das amoreiras, e pelo aroma do seu fruto que pintava o chão. Deixou de ser gente gretada pelo sol.

- Durmo... Vá lá, que queres com estas tretas de histórias?

- Podes ser o povo do rei. Usa o tempo e planta. Planta o que nunca imaginaste poderes plantar.

- Já te disse. Para quê e para onde?

- Para viveres e seres feliz no tempo que o tempo te está a dar.

Levantou-se, abriu a persiana, abriu a janela, deixou a mão molhar-se. E decidiu plantar um livro, depois um disco, mais tarde uma árvore e no fim a própria vida. Diz quem o conheceu, que todos lhe recorriam para salvar as suas plantas, tornou-se curador de plantas. Mesmo em dias de chuva e sem sair de casa.

terça-feira, janeiro 19, 2021

DEUS, ONDE ESTÁS?


 

Onde estás, Deus? Onde vives, energia positiva, focada, enraizante? Para onde foste parar corrente otimista e plena de orientações? Vivemos dias que para muitos já foi um filme de cinema, ou uma série incrível, e agora é a realidade. Vivemos dias de medo, isolamento, desconfiança, incerteza, e uma luta esgotante por nos mantermos saudáveis no corpo e mente. E tenho toda a legitimidade em perguntar pela fé que me sustenta. Tenho a certeza que sairei mais forte na resposta, mesmo que não seja a que eu quero. Sempre gostei da dúvida, o que nunca gostei foi de viver nela.

Esta não é uma viagem fácil.

Este 2º confinamento é um insulto, porque mais vale um sacrifício de vida do que a vida em sacrifício. Escolas fechadas, igrejas fechadas, grandes centros de comércio fechados, cultura fechada. Todos por igual, até para sentirmos que todos estamos em pé de igualdade. Estão-nos a morrer mais de 200 pessoas por dia e milhares em urgência, e não sabemos o que será dos infetados daqui a uns meses. Tanta dúvida face à certeza inquietante que temos de ser rigorosos, severos no agir. Isto aplica-se aos que andam de máscara no queixo, aos jantares de políticos, a eleições desorganizadas e que em nada evoluíram, aos que ainda se escapam para casa uns dos outros, aos que se juntam para um cigarro. Estão-nos a morrer amigos, familiares, vizinhos, conhecidos. Os nossos idosos estão mais sós, e são vítimas de um tempo que lhes deveria dar paz e serenidade, mas que lhes traz amargura e desorientação. E todos somos culpados, sempre que não respeitarmos com sacrifício o que nos é exigido, somos cúmplices da morte e da doença.

Não me atrevo a sentir desânimo, stress, angústia. Que dirão os profissionais de saúde, os professores, os agentes de autoridade. Principalmente, o que sentirão? Eles, as suas famílias, os seus amigos… Queria andar para frente estes dias, mas não posso, pelo contrário, eles parecem-me mais lentos e magoados de se viverem.

 

Mantenho-me à tona, claro que sim. Confio no futuro. Confio neste minuto em que escrevo. Mas desconfio do presente, deixei de me iludir, de entrar em piadas bacocas, de responder que está tudo bem. Vivo o que nunca sonhei viver. Todos os dias pergunto, Deus, o que queres de nós? Vou encontrando respostas… aprendi que nos quer no essencial.

Longo caminho, que merda de tempos, o que havemos dizer destes dias, no futuro que virá?

domingo, janeiro 10, 2021

Desliguei o Natal



 Este foi o Natal mais duro, arranhado, ferido e doloroso que eu poderia ter. A minha Margarida não esteve comigo. Não vi os seus olhos pequeninos e brilhantes a olharem para a árvore de Natal, as suas mãos de pele de seda a ajudar-me no presépio, e os seus conselhos na receita certa dos doces da época. 

Estive sempre em esforço para não desabar. Estou cansado da sua ausência. E será para a vida, para todos os natais que terei, a Margarida não estará presente. Nunca mais. E ainda não sinto que ela esteja num outro lugar. O que sinto é falta, ausência, vazio, espaço. 

Sem mãe. Nunca terei outra forma de viver. A amar a vida, mas sempre órfão. Todos os dias. Todos os Natais. E tenho medo de me habituar. Eu quero sentir a necessidade de a ter, porque assim o amor dói menos na solidão de não a ter.


Até já 


sexta-feira, dezembro 25, 2020

BOM DIA, SR GOUCHA



 O meu Manel vai deixar de dizer bom dia a Portugal. Para mim, como cidadão, profissional de televisão e amigo, esta despedida marca uma era. Mais de 25 anos a acompanhar o despertar de um país, a desembrulhar entrevistas, emoções, surpresas, sorrisos e lágrimas, tradições e memória. O Manel é um apresentador com a lembrança do tempo, a delicadeza da dedicação, a preparação de cada conversa como se fosse a primeira.

 Receber tantas manhãs um programa dirigido pela batuta deste homem, merece-nos um Obrigado. Um gigante obrigado. No seminário eu fugia para espreitar a Praça da alegria. Gostava do jeito como o Manel arrumava as palavras, com ironia, e um linguarejar tão criativo. Depois, trabalhei ao seu lado, 2 anos. Já a vida nos havia ligado. Ver o Manel fazer televisão, é assistir ao ensaio dos melhores espetáculos do mundo. Tudo é um detalhe importante. Da roupa à pergunta.

O Manel vai deixar de nos dizer bom dia, e tudo será diferente, porque é de manhã que nos ajeitamos para o dia que vem, e o Manel arrumava-nos a curiosidade, o saber, a estória da história, e lá íamos para o nosso dia, um pouco mais completos. Ter um profissional de televisão que se delicia com o trajar de uma minhota em romaria ao mesmo tempo que nos esmiuça o novo livro (que leu sublinhou) de um ilustre autor da nossa praça, isto tem um nome, grandiosidade intelectual; porque somos feitos de todas estas matérias, e pobres daqueles cuja vida passa ao lado deste todo.

Sempre gostei da vida de manhã, muito graças ao Manel, que me ensinou que o dia e a sabedoria aproveitam-se desde cedo. Obrigado Manel, por mais de 25 anos de bom dia  (estou certo que chega aos 30).

Porque hoje, dia 25 de dezembro, é o teu dia, e detestas despedidas e homenagens, este texto é só um obrigado e parabéns. És um homem a quem a VIDA não deve nada, graças a ti!!

Teu, Hélder

domingo, dezembro 20, 2020

QUANTO MAIS NU MELHOR

 


Os dias passam e as casas ficam. As casas, as árvores, os rios e o mar. São os permanentes. O resto das coisas da vida vão com o tempo. Aos 45 anos pergunto-me sobre o que me fica... na verdade sinto que resiste o mais simples, autêntico, frontal, cru e despido de papeis.

Já vos aconteceu? Precisarem de sentir a areia nos pés, a terra nas mãos, o musgo nos dedos, o vento no pescoço, a água na pele? Ou de vazarem os armários da casa, tirarem a tralha das prateleiras, das gavetas, da alma? Vazar como vaza a maré. Ou tomar banho no mar, nu, nu, mil vezes nu, até que a nudez chegue aos ossos?

No CAOS será sempre o simples e o despido que vencerão, até no cérebro das coisas da vida, acreditem.


Até já




domingo, novembro 22, 2020

O melhor do pior

 



Olá


Que dias estes, eramos tão felizes e não sabíamos. Agora passo, passamo,s mais tempo em casa, isolados, sem calor dos outros, sem a pele que se tocava e os beijos que dávamos, a torto e a direito. Agora até acho estranho quando vejo um filme onde há toque e cumprimentos... é, outros tempos.

Aproveito o tempo para purgar os dias, arrumar as folhas velhas dos vasos e da minha vida, deixar a luz entrar com janelas abertas, não vá o bicho me estar em casa, pelo menos arejo. Aproveito para me deliciar no tempo mais estendido, perder-me cá com os meus botões, arrumar e arrumar-me. Trabalhar na terra, fazer uma televisão distante, e voltar a casa, onde me sinto seguro e sempre em paz.

Sapatos à porta, sinto o meu chão, às vezes deito-me nele e deixo que a luz faça o resto, me recomponha. Chego cansado, cada vez que saio. Não sentem o mesmo? Andamos a fugir, alguns, de algo que nos pode derrubar o corpo. O melhor? Mais tempo, e usa-lo dignamente, com solenidade, porque o tempo é irreversível. Por isso, faço dele tudo o que a minha vida ainda me permite. 

Recomendo.


Protejam-se


Hélder

quarta-feira, outubro 14, 2020

ATÉ BREVE, PRAÇA DA ALEGRIA



É sempre difícil deixar a casa onde nascemos. Sair para voar, como se costuma dizer. Fui convidado da Praça da Alegria há 23 anos. Apresentei o meu primeiro livro de poesia, Rostos do mar. Era seminarista. Já saído do seminário voltei como convidado musical, com a minha banda Pólen. Se eu queria fazer televisão? Nem pensava nisso. Era vigilante no museu de Serralves, estava a acabar a minha tese de licenciatura em Teologia... e a fazer vida a partir do 0.

A minha amizade com o Manuel Luís nasceu entre entrevistas. Fizemo-nos amigos. As conversas sobre Deus e deuses... o silêncio... cinema com filmes que nos inquietam, víamos entrevistas de gente que nos emociona. E a amizade alimentava-se disto tudo. Um dia o Manuel perguntou-me se eu gostava de ser o empregado de mesa do programa... Eu? Claro que sim, o ordenado MUITO MELHOR do que Serralves. Ensaiei o uso da bandeja em casa ( nunca tinha servido à mesa), e lá fui. O empregado de mesa da Praça da Alegria, que servia cafés e laranjada e apresentava os carrinhos de compras do passatempo. A Praça fez o meu coração vibrar por conhecimento, humildade, evolução, história, amor. Tanto disto... é a tal casa, é a minha vida.

Nestes tempos de empregado de mesa muita gente ia acreditando em mim. Eu falava de modo claro e com boa linguagem ( um padre deveria assim ser). O público da Praça dizia-me que um dia eu iria longe. Eu? O empregado... nada disso, quero fazer o meu trabalho. A verdade é que fui voando, com muito trabalho, ensaios em casa, conselhos do Manuel ( o maior da televisão). E comecei com reportagens, e a ser empregado de mesa ( ao mesmo tempo), eu queria era trabalhar. De coração cheio, obrigado. Direção, administração, técnicos, produção, realização, maquilhagem, assistentes, câmaras, seguranças, técnicos de limpeza. Colegas e amigos! Todos me fizeram até hoje.

Uns 4 anos depois de começar como empregado, desafiaram-me a apresentar o programa. Eu? O que ainda tinha o avental guardado? Claro que sim, ora com a mulher mais doce da televisão, a Sónia Araújo, ora com a mulher de coração na boca e na pele, a Tânia Ribas. Sempre que o Jorge Gabriel não podia, lá ia eu, com dignidade, muito trabalho, e consciência do meu lugar, estava a substituir.. Meu Deus, que voltas da vida... A minha mãe deliciava-se, chegou a ser várias vezes convidada do programa, que linda senhora vaidosa de sentimento pelo filho, e eu feliz com a alegria dela.

Tornei-me o repórter. Um dos primeiros repórteres de entretenimento da televisão, eu e a Tânia Ribas. E assim fui, uns bons 20 anos. A fazer muitas outras coisas em TV, mas com a gana de repórter, esse género televisivo tão nobre, onde vamos à casa e à rua de quem nos vê. As festas onde estive, as feiras, as viagens aos portugueses emigrados, as histórias de vida, os sorrisos, as lágrimas. Devem imaginar... todos os dias, uma terra diferente, uma nova história. Caramba... era o coração sempre em vibração. Tanta gente linda com quem trabalhei, tanta gente maravilhosa que entrevistei.

Este ano foi ano de dizer adeus à Praça da Alegria. E lá ficou a casa, cheia de luzes e aplausos, e sigo caminho. Pleno de gratidão por quem me deu a mão no caminho ( os que sabem que fazem parte da minha história, e que olhei nos olhos e agradeci vezes sem fim). Mas ninguém faz a vida como nós mesmos, afinal ela é nossa. E há sempre um ou outro a quem falta agradecer, aqui fica. Para sempre.

Fico-me pela gratidão. Não olho muito para trás. Para quê? Só para lembrar a minha mãe, acho que é a única vez que o pescoço da minha alma se vira para trás. De resto, perdi toda a saudade que tinha pelo tempo da minha vida.

Agora digo-lhe boa tarde, todas as sextas feiras, no programa da minha Tânia Ribas. Uma equipa nova, e que parece que já lá vivo há muito. Vou contar histórias, de gente que nunca ouviu, de gente que já viu algumas vezes. Não são entrevistas, são conversas pelos campos da vida, sem complicar, só deixar rolar as palavras. Como eu gosto e sempre quis fazer. Com tempo e calma. Mais gratidão. A vida é um extraordinário presente. Sempre. Obrigado.


Até já

segunda-feira, setembro 28, 2020

TEMPO. TER TEMPO PARA UM TANGO

                        

                                    ARGENTINA, DANÇA COM FRANCISCA


Às vezes, a vida anda tão rápido. Não sentem? Os filhos crescem, os avós morrem-nos, os pais também. O netos e filhos dos amigos tornam-se adultos, quando parecia que ainda os tínhamos ao colo. Tempo, é o mais precioso da vida. Tempo para viver, observar, cultivar, esperar, construir, amar. Está tudo no tempo. De que nos vale o amor, se não lhe dermos tempo. O mesmo se aplica à amizade, às coisas que gostamos, às nossas plantas, aos nossos amados, à nossa saúde. Tempo.



Darem-nos tempo é o melhor que se pode ter. Tempo para nos ouvirem. Para nos curarem, para nos amarem. Tempo para sarar. Tempo para ver piada na graça. Tempo de silêncio. Tempo para dançarmos com a vida. Às vezes, muitas vezes, cá em casa dançamos, com tempo, e sorriso na alma.
Ter menos, na minha vida, tem significado ter mais. Ter muito mais. Com dores e alegrias no saco, mas com tempo para as desenlear. Percebem-me? Desenlear a vida, para que ela não seja complexa, e tenhamos sempre vontade de voltar a casa, e nunca de nos perdermos no caminho.


até já

segunda-feira, agosto 24, 2020

NUNCA HAVERÁ TANTO ESPAÇO COMO NUMA PRAIA

 

                                                                                             CUBA CAYO SANTA MARIA

Nasci na praia de areia. Insuperável a sensação dos pés na areia, das mãos na leveza do que já foi rocha. Há dias, entre amigos, discutíamos as praias de areia e as de rocha, vantagens e desvantagens. Para mim, é não conversa. A areia tem uma leveza de ar, só que colocada nos pés. Não há preço para tamanha liberdade. Quando era miúdo vinha carregado de areia da praia, a minha mãe ria-se comigo, por eu gostar tanto de trazer a praia para casa. Eu sei, dá trabalho a tirar de casa, mas dá tanto prazer senti-la nos pés, nos calções e na alma. Vai tudo parar à alma. Hoje continuo igual, trago quilos de areia para casa, e não me esforço por deixa-la longe de mim.

Caminhadas intermináveis no areal são um banho meigo em alecrim e laranjeira. Nunca nenhuma praia de rocha me dará isso, porque é impossível caminhar nessas praias. E a rocha nunca amansou o coração. Já a praia de areia, nunca encontraremos tamanho espaço, candura e beleza.



até já



quinta-feira, julho 02, 2020

O QUE ME DÃO OS DIAS SEM TI






Gostava de passear-se pelo jardim e de tocar nas suas flores, que eram como que a sua voz com raiz. Enquanto as observava, deixava que o sol lhe escorresse pelo rosto, aumentando o brilho dos seus olhos. Era uma mulher que gostava da luz pelas janelas e de flores em cima da mesa. Até os seus vestidos tinham flores, das pequenas, e que ela havia moldado e costurado numa das madrugadas dos dias que já passaram. Levantava-se cedo. Dizia-me que é cedo que acorda a vontade de viver. Durante o dia rodopiava-se pela terra e pela casa, que era branca; ao fim da tarde cheirava a maresia no jardim, e muitas vezes a via parada a respirar-se, porque nem sempre a vida lhe permitia grandes pausas para lufadas de ar. Nesses momentos, sentia-a tão perto da perfeição, entre o mar e os jardins em flor.
Porque a vida pode ser feita com o melhor do passado.

Para a minha mãe. 5 meses sem ti.

terça-feira, junho 02, 2020

AFINAL ESTÁ TUDO IGUAL






Dizia-se que as pessoas iam ficar diferentes, com menos rasgos na alma e azedo no sangue. Dizia-se até que íamos olhar mais nos olhos e valorizar a pele dos abraços e das mãos. Cheguei a ouvir que nunca mais a vida seria a mesma. Mas parece que não, a nossa alma não aprende tão rápido assim, e a solidão continua sozinha, a política continua vaidosa, as pessoas não ouvem e falam muito, a correria parecia ser uma necessidade. E... cá estamos nós quase pós pandemia e a sermos os mesmos de sempre, com mais histórias para contar.
Os enfermeiros e médicos, quando tiverem as suas lutas, vão ser coisas deles e não de todos. E a vidinha avança, porque um problema só é problema se me bater à porta. Pior ficam os que lhes morreram pais, filhos, primos, amigos, amores. Esses ninguém os lembra, porque a dor é uma coisa que só se sente no corpo da outra gente, se não for nossa.
É, voltou o trânsito, as filas, a moda e a desmoda. Voltou quase tudo ao normal, menos para aqueles cuja vida parou, num sopro, durante meses, ou então se diluiu entre hospitais, batas e máscaras. Somos os mesmo no mundo todo, aqueles que matam em nome da segurança, mesmo que a morte tenha cor.