segunda-feira, dezembro 03, 2018

COMIDA DA ALMA, COMIDA DO CORPO

                                                                                                                   HR



Eu gosto de comer, e o melhor lugar onde como é em casa, na minha casa. Sem falsa modéstia, e convicto de que não sei cozinhar o suficiente. Mas, na verdade, a melhor refeição que posso ter, não exige grande cozedura. Um bom queijo, ervas frescas, um pão de trás os montes, Mafra ou Alentejo. Azeitonas bem curtidas, um vinho (de qualquer lugar nosso ou do mundo), umas ameijoas à bolhão pato (ricas em coentros e alho), azeite para molhar o pão (prefiro o de trás os montes), uma alheira, tomate fresco e rúcula (só com sal, limão e azeite) e um mel de rosmaninho para equilibrar sabores.

Mas a melhor receita que posso dar, é a de chegar a casa. Tirar os sapatos, sentir o chão que é meu, receber um abraço, abrir as janelas e deixar-me respirar; acender velas e as luzes mornas de cada espaço, e depois, estou pronto para o jantar. Deixar que os sabores tomem conta da boca e o pensamento sentir-se livre na liberdade que só encontro em casa. Na minha casa. O meu pai dizia-me sempre, boa festa faz quem em sua casa está em paz. E não há paz maior do que a que encontro na casa que fiz, que me faz e com quem a faço.

Até já.

HR

domingo, novembro 18, 2018

PALMADINHAS NAS COSTAS








                                                                                           HR




Todos sabem que na vida há o homem rato de esgoto, e os que mandam o rato homem para o esgoto. Acho que não preciso de definir uma pessoa rato de esgoto, alguns até usam boas roupas e roçam-se no poder. Gosto dos segundos, os que mandam para o esgoto este chiqueiro de gente. Quem pisa estes ratinhos de esgoto, são sempre inconvenientes, porque não jogam pelos corredores. São chatos , porque criam confronto de opinião, e hoje tudo quer palmadinhas nas costas, e que não se levante muitas ondas. Ter opinião dá trabalho para quem tem de as ter em conta.

 Um bom rato de esgoto é o que julga que não cheira mal, mas fala do cheiro de todos os outros, mesmo que não sejam do esgoto. Há os que também são de esgoto, mas usam uma espécie de saltos altos para não tocarem nas águas podres, e assim julgam-se menos do esgoto que todos os outros. Até há os que não andam no esgoto, mas mandam outros por esses caminhos; o que acontece, é que podes tirar um rato do esgoto mas nunca tirarás o esgoto de um rato, nem de um homem que só sabe ser rato.

A liberdade do voo, sempre deu muito trabalho, a vantagem... é que anda-se longe do que tresanda.

domingo, novembro 11, 2018

SOBRE A FELICIDADE



                                  fotografia HR


Deixei a tristeza no ventre da minha mãe. Disse-me hoje um senhor, que me perguntou se eu estava bem, e devolvi-lhe a mesma pergunta.

Eu? Sou um homem feliz. Não sou sempre feliz. A felicidade habita acima da alegria e do estar bem, a felicidade é um cimo das escadas, um final de metas, um chegar a destinos, um agarrar com força. Nunca confundi felicidade com alegria, já estive tantas vezes com alegria e tristeza. São intensidades diferentes. E não meio termo. Ou estás ou não estás feliz. Aliás, não suporto os meios termos, ou sim ou sopas.


A felicidade dá trabalho, como o sucesso, o amor, a paz, a serenidade, o silêncio, a reconciliação. Não acredito nada na sorte, no destino, no já tinha de ser... Eu já recomecei algumas vezes do zero, em nome da felicidade, já fechei portas, encerrei ciclos; e muito em breve voltarei a fazer. E dói. Dói muito, sofro e faço sofrer, mas eu tenho de estar em primeiro lugar na minha história, para conseguir amar e estar na história dos outros.

A tristeza é um mal que nos rompe as membranas da felicidade, e mais vale deixa-la no sítio de onde vimos. A vida é um movimento cheio de voltas, destinos fracassados, saudades eternas, casas vazias, dores no corpo sem remédio, e tanto mais. Por tudo isto, entendo que a felicidade dá trabalho e que a tristeza é uma raiz que devemos deixar na terra de onde nos fazemos.

HR

domingo, novembro 04, 2018

SOU DO RISO

 

 Rio por tudo. Rio por nada. A minha mãe, nas doses longas de educação, quando me perdia nas mesmas gargalhadas que ainda me perco, bem me dizia: muito riso... pouco juízo. Saio-lhe a ela, mãe. As vezes que a vi perdida de gargalhadas, que nem os olhos abria, porque a cara os serrava. 

Acontece-me tantas vezes, com amigos que basta um olhar para que se solte a gargalhada como se fosse uma cascata de doces e nós as crianças a querer provar de todos. Eles sabem uem são...

Quero lá saber o que dizem os outros por me verem rir tanto... os outros serão sempre só os outros. Mas falam e acham-se sérios por não se perderem no riso. Chatos na ilusão do seu juízo... loucos na aborrecida seriedade. Não é isso que nos faz...

Não me rio sempre. Mas rio sempre que me apetece... mesmo sozinho. E chega-me. Descobri a força do meu sorriso de sempre na televisão. Primeiro veio o meu riso e depois a minha forma de fazer televisão. E o juízo é o de sempre. Na vida? Na vida, rir tem sido uma bela arma nuclear.

Muito riso... bendito juízo

HR




                  




segunda-feira, outubro 29, 2018

PASTORES DE SILÊNCIO

                                                                                               fotografia HR


Deixa-me ser pastor, rebanho, pasto, nuvem. Deixa-me ser o que eu quiser. Mas olha para mim e por mim, sozinho acho que perco o caminho. Preciso de um cajado. O que é um cajado? Podes ser tu. Ou só metade de ti. É possível sermos metade de nós em tanta coisa da vida. Até para os outros.

Ser pastor, expressão bíblica que eu sempre venerei, pode ser o melhor sinal de companhia, abrigo, silêncio e dedicação. Pode ser Deus e podes ser tu, claro que também posso ser eu. Ainda há pastores de pessoas, porque todos precisamos que nos guiem. Mente quem disser o contrário. Ás vezes perco os meus, sorte a minha que os encontro, no meio das coisas da vida, que são piores que as ervas mais altas. Ervas daninhas... essas dariam outras palavras.

Hoje fico-me pelos pastores, de gente e de silêncios.

HR


quinta-feira, outubro 25, 2018

DESISTIR É UM PODER ABSOLUTO


Desistir não é para os fracos. Desistir é ambição dos valentes.

Desistir de uma relação é uma decisão inegavelmente importante e que só os casais determinados têm a coragem de não se arrastarem em falsos e adiados amores, em nome de um futuro que já é passado.

Desistir de um trabalho e mudar a rota é prova de elevada capacidade de querer outra coisa que não a que estamos a fazer... pela felicidade do exercício. Não há ordenado para a felicidade.

Desistir de enfrentar uma terrível doença terminal é um gesto de elevadíssima ponderação, maturidade, seriedade e amor pela vida que se quer qualitativa.

Desistir de maquilhar a dor e assumir que se vive uma depressão e está na hora de parar, chorar, gemer alto e sem pudor; cuidar da mente que por não se ver, não é menos orgânica do que os nossos pulmões ou coração.


Desistir é só mudar a rota de uma vida que é navegação de uma viagem onde somos livres de escolher o caminho, o transporte, a companhia e o destino. E isto é um poder inatingível.

Para todos os que já desistiram... só vos digo: valentes!

HR

domingo, outubro 21, 2018

AMOR DE ALECRIM



Alecrim. A melhor materialização que tenho do amor. O alecrim é uma planta resiliente, determinada na existência. É difícil que uma planta de alecrim não sobreviva numa terra perto de si. Aromática. Relaxante. Com flores comestíveis que me lembram o céu. Uma infusão de alecrim perfuma a sala e só me dá momentos felizes.

A minha vida não é complexa. É simples e intensa como o alecrim. Por razões que só eu sei, o alecrim foi escolhido para ser a planta que cria raízes na terra da minha vida, para dar corpo a tudo o que é bom e feliz no meu tempo. O amor precisa de outros corpos que não os nossos... pelo menos o meu precisa. E escolhi um outro corpo para o amor respirar, e tinha de ser verde, sereno e mais forte do que o que parece. Assim é o alecrim... que para os romanos lembrava o mar.

A vida é assim... precisa de outras raízes para além dos nossos pés. O meu amor assim...

E bebo-o, todos os dias, serenamente, como se deve beber o amor. Que sorte tem a minha vida por ter raízes de alecrim.


HR